O Vasco tenta dar um passo importante para chegar a mais uma final continental em sua história, nesta terça-feira, contra o Boca Juniors, pela semifinal da Sul-Americana de 2026. Dos três títulos sul-americanos que o clube de São Januário conquistou, dois passaram por Buenos Aires nas semifinais, mais especificamente no Monumental, estádio do River Plate. Agora, quem está no caminho vascaíno é a Bombonera, onde o Vasco nunca venceu.

O jogo contra o River Plate, no Monumental de Núñez, é o mais marcante da campanha do título da Libertadores de 1998, com o lendário gol de falta de Juninho Pernambucano. Na conquista da Mercosul, dois anos depois, a virada de 4 a 3 na final contra o Palmeiras é obviamente o rosto do título, mas houve também uma semifinal marcante contra o River, em que o Vasco goleou os argentinos por 4 a 1 em Buenos Aires.

Em 1998, Juninho empata jogo contra o River e garante Vasco na final da Libertadores

Direto da capital argentina, o ge conta a história das duas semifinais e como o Vasco tenta incluir a Bombonera nos palcos de grandes glórias vascaínas, assim como conseguiu fazer com o estádio do maior rival do Boca na Argentina.

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O jogo do título de 1998

A partida entre Vasco e River Plate de 1998 é um daqueles jogos entre clubes que as escalações pareciam de seleções nacionais. Um Brasil x Argentina. Germano, Mauro Galvão, Felipe, Pedrinho, Juninho, Ramon e Luizão de um lado, comandados por Antônio Lopes. Burgos, Ayala, Sorín, Solari e Marcelo Gallardo de outro, treinados por Ramón Díaz.

— É talvez um dos jogos mais difíceis que eu disputei. Não só pelo Vasco, mas na minha carreira, porque realmente o River tinha um time muito bom. Sem contar a atmosfera do estádio. Sabe como são os argentinos… A torcida fazendo muito barulho. Era muito difícil ganhar do River lá — disse Mauro Galvão, capitão do título da América, em entrevista ao ge.

Torcedor se divide entre as paixões por Vasco e Boca Juniors

O Vasco eliminou o Cruzeiro, nas oitavas de final, campeão em 97. Nas quartas, eliminou o Grêmio, que levou a taça de 95. Nas semifinais, enfrentou o River Plate campeão de 1996. O cenário para o jogo era de final antecipada. Em entrevista exclusiva ao ge, Ramon Menezes confessou a sensação geral de que o jogo na Argentina encaminharia o título vascaíno.

— Foi uma das partidas mais marcantes vestindo a camisa do Vasco, porque, com todo o respeito ao Barcelona de Guayaquil, sem dúvida nenhuma que foi uma final antecipada. Tanto o jogo aqui em São Januário, quanto no Monumental, porque aquela atmosfera para jogar ali dentro, o time tinha que estar muito bem. Tinha de ser um time que jogava como aquele, com jogadores com uma qualidade impressionante que performaram de maneira excepcional naquela competição.

Em um especial de 2023 do ge sobre a conquista vascaína, Luisinho também foi por essa linha.

— Esse jogo da semifinal é emblemático, que nos deu a sensação da conquista. Pelo menos eu saí da Argentina com a sensação de que ia ser campeão da Libertadores. A gente sabia do peso e da oportunidade que tinha. E o River Plate era o grande rival a ser batido.

Depois de vencer em São Januário por 1 a 0, com gol de Donizete, o Vasco precisava apenas de um empate no Monumental. Não foi fácil. O River abriu o placar no primeiro tempo e pressionou demais até o fim do jogo, mas a cobrança de falta de Juninho Pernambucano foi implacável para classificar o Vasco para a final da competição.

— O Vasco em São Januário vinha numa crescente dentro da competição, fazendo vários gols em todos os jogos. Nós vencemos o primeiro jogo, mas ganhamos apenas de 1 a 0. E no jogo da volta nós imaginávamos a dificuldade que nós tivemos durante aquele jogo. No primeiro tempo a gente já tomou o primeiro gol, mas no segundo tempo, quando o Juninho entrou e teve aquela falta e saiu o gol, foi uma explosão de sentimentos — disse Ramon.

— O negócio estava se encaminhando para os pênaltis. Aí aconteceram aquelas duas mudanças: o Vagner e o Juninho, que entraram. E aí foi muita coincidência. Porque o Vagner sofreu a falta, e o Juninho bateu. Acho que o Antônio Lopes foi bem na mudança (risos) — brincou Mauro Galvão.

A Mercosul de 2000

Além da histórica virada por 4 a 3 na final contra o Palmeiras, o Vasco na fase anterior já havia vencido por quatro gols de diferença na casa do adversário. Dois anos depois de eliminar o River na semifinal da Libertadores, o time repetiu o feito contra os argentinos. Desta vez, com goleada por 4 a 1 no Monumental.

"A Virada do Século" | Como foi o épico entre Palmeiras x Vasco na Copa Mercosul de 2000.

Os gols de Romário, Juninho Paulista, Júnior Baiano e Pedrinho, hoje presidente do Vasco, construíram o passeio na Argentina contra o time que havia acabado de eliminar o Flamengo nas quartas de final. O River tinha outro esquadrão, com o veterano Ortega e os jovens Saviola e Aimar, grandes destaques da equipe.

— A atmosfera já vinha do histórico da Libertadores, do gol do Juninho em 98. O jogo era encarado como uma revanche para o River, que tinha um grande time Aimar, Saviola, Ortega. Por isso que eu falo que esse foi o grande jogo daquele time. Era um clássico, né? Jogo grande, estádio grande. A expectativa foi de: "Pô, vamos fazer o resultado lá em Buenos Aires".

Vasco goleou o River Plate por 4 a 1 em 2000

Acervo do jornal O Globo

— Nós ganhamos a Mercosul e a João Havelange. Mas para mim esse foi o grande jogo. Nem contra o Cruzeiro no Mineirão, que ganhamos lá dentro, foi tão marcante assim sobre a qualidade da partida.

Jorginho Paulista, descontraído, disse que ele e Pedrinho, “especialmente”, foram os destaques da partida.

— Foi um grande jogo de todos. O time no todo, mas eu falo em especial eu e o Pedrinho, que hoje é o presidente do Vasco. Aquele jogo a gente jogou para caramba! O Pedrinho chegou a fazer gol, eu não fiz gol, mas, caramba, fiz boas jogadas, fiz o time andar.. Logicamente, o quadrado da frente, que era mais reconhecido, normal, os dois Juninhos e o Lopes, Romário... mas o Pedrinho entrou muito bem. A gente jogou fino da bola mesmo!

O jogo da volta em São Januário, é mais lembrado pela pancadaria dos jogadores do River Plate com os atletas do Vasco do que pelo futebol jogado por ambos os times.

— O segundo jogo foi em São Januário, que foi a pedrada, um quebra-pau do caramba o jogo em si. Mas como nós tínhamos feito o resultado lá no Monumental, a gente jogou muito mais tranquilo em São Januário. Eles é que vieram para arrumar confusão.

Pedrinho e Felipe de volta à Argentina

A viagem para Buenos Aires é especial para todos os torcedores vascaínos, que sonham com a fórmula de sucesso das passagens pela Argentina em 1998 e 2000, Mas ela também é especial para Pedrinho e Felipe, atuais presidente do clube e diretor técnico. Presentes nessas duas campanhas de títulos internacionais do Vasco, Pedrinho e Felipe receberam o apoio dos companheiros que estavam em campo nas conquistas.

— Desde aquele momento eles já mostraram muita personalidade. São jogadores que conhecem muito bem essa atmosfera do Vasco, porque nasceram praticamente dentro de São Januário e cresceram muito, né? E naquela Libertadores e no próprio Campeonato Brasileiro antes da Libertadores, o Vasco atravessando uma grande fase, o Vasco teve a chance de no seu grupo colocar vários jogadores oriundos das categorias de base — disse Ramon Menezes, que completou:

— E quando a gente fala do Pedrinho e fala do Felipe, são profissionais hoje são pessoas que conhecem muito bem toda essa atmosfera, conhecem muito bem o Vasco. O Pedrinho está muito preparado, está fazendo uma gestão muito boa, a gente só tem que parabenizá-lo. O Felipe, por ser um dos caras que mais venceu com essa camisa, no seu jeito de ser, ele transmite para os jogadores que lá estão o que é vencer pelo clube, e isso é muito importante também.

Em 1998, Felipe e Pedrinho comemoram a convocação para Seleção Brasileira

Mauro Galvão lembrou da experiência que os mais velhos passaram para os dois garotos que já vinham se destacando no profissional do Vasco.

— Foi uma relação muito boa que a gente teve. Nós, como jogadores mais experientes — tinha muitos jogadores que já tinham uma vivência dentro do futebol —, o que a gente procurou sempre foi passar tranquilidade para eles.

Jorginho Paulista citou a importância do Vasco ter Pedrinho e Felipe como diretores e comparou a ligação da dupla com o Vasco com a conexão de Riquelme com o Boca Juniors, clube em que Jorginho também atuou nos anos 2000.

— Eles nasceram lá dentro! Eu sei de todo esse histórico. É diferente do Riquelme, que nasceu no Argentinos Juniors, foi para o Boca também, mas já foi como profissional. O Pedrinho nasceu no futsal ali do Vasco, e ser capaz de fazer a gestão política dessas é muito importante.

O Vasco tenta voltar a uma final continental depois de 26 anos. Para isso terá que passar mais uma vez por Buenos Aires. E a torcida espera que a Bombonera traga grandes lembranças como o Monumental já trouxe.

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