O tenente-coronel da Polícia Militar (PM) Geraldo Neto, preso preventivamente e réu por feminicídio e fraude processual pela morte da esposa, a soldado Gisele Alves, afirmou durante interrogatório à Justiça de São Paulo, em 5 de outubro, que ela era agressiva, quebrava objetos e tinha problemas psiquiátricos.

Geraldo também lembrou que, cinco dias antes dela morrer, criticou a roupa da mulher e disse que, após uma discussão, Gisele teria usado um "microvestido" para provocar motoboys em frente ao prédio onde moravam.

O Fantástico e o g1 tiveram acesso às mais de oito horas de gravação do depoimento do acusado (veja vídeos nesta reportagem sobre o que ele disse).

"Ela estava com o vestido marrom (...) na frente do prédio. Ela está com o vestido marrom tubinho, se ela respirasse, o vestido rasgava. Bem decotado, diga-se de passagem, bem curto. Uns dois palmos acima do joelho", diz Geraldo sobre a roupa de Gisele (saiba mais abaixo).

Na audiência, última etapa da instrução processual antes da decisão sobre o júri popular, Geraldo sustentou que Gisele pegou uma arma e se matou com um tiro na cabeça, em 18 de fevereiro, no apartamento do casal, após ele concordar com o pedido de separação dela.

Para defender a versão de suicídio, o oficial fez acusações contra a vítima, os pais e o ex-marido dela, amigas, uma testemunha protegida, policiais e peritos _que disseram ser impossível que Gisele tenha se matado. Também alegou ser alvo de uma tentativa para incriminá-lo sem provas e questionou a investigação.

O Ministério Público (MP) pediu à Justiça que comunique todas as pessoas citadas por Geraldo, inclusive a vítima, sobre as ofensas que ele disse a respeito delas no interrogatório _até para que elas decidam se entram ou não com uma ação penal privada por injúria, calúnia ou difamação contra o tenente-coronel para cobrar dele indenização por danos morais.

A Promotoria também solicitou ao poder judiciário que a Corregedoria da PM tenha acesso aos vídeos do que o interrogado falou sobre outros oficiais superiores dele na corporação. Geraldo os acusa de prevaricação. O Ministério Público quer que a Polícia Militar apure administrativamente se os ataques feitos pelo tenente-coronel são verdadeiros ou não.

O advogado da família de Gisele, José Miguel da Silva Júnior, que também é assistente de acusação, afirmou que o réu tentou desqualificar a vítima com comentários machistas e misóginos.

"E ele também trata a Gisele, infelizmente, como uma mulher vulgar. Isso foi muito pesado, muito constrangedor. Ele não respeita a memória da Gisele e não respeita os familiares da Gisele também", diz José Miguel (leia mais abaixo).

Geraldo está preso preventivamente desde 18 de março. A defesa pediu a revogação da prisão. A Justiça aguarda as manifestações do MP e da assistência de acusação antes de decidir se ele será submetido ao Tribunal do Júri.

Oficial critica roupa da esposa

Geraldo Neto criticou roupa de Gisele Alves durante interrogatório.

Ao falar sobre a noite de 13 de fevereiro, Geraldo relatou que Gisele pediu a separação durante uma discussão e depois desceu para buscar um lanche na portaria. Segundo ele, havia cerca de dez motoboys em frente ao prédio.

O tenente-coronel disse que Gisele jogou cabides sobre o guarda-roupa e ameaçou ir embora. Segundo ele, tentou convencê-la a deixar o apartamento na manhã seguinte, por considerar perigoso sair à noite.

Na sequência, Geraldo afirmou que, na avaliação dele, a esposa escolheu um vestido curto para chamar a atenção dos entregadores:

"Ela falou, ah, vou descer lá pegar um lanche lá embaixo. Mas ela fez de propósito, a meu ver. Ela pegou aquele microvestido que ela tinha na época que ela era magrinha e vestiu com o corpão. Então o vestido ficou bem curto, bem justo e bem decotado."

"Por volta das 21h, à frente do prédio, tem tipo dez, 12 motoboys. Pessoal que vai entregar pizza, lanche. Cheio de homem na porta do prédio. 'Vou descer lá'. Daí pegou a [filha] e desceu", fala o oficial.

O que diz advogado da família

Caso PM Gisele: Fantástico mostra com exclusividade depoimento de tenente-coronel, acusado de ter matado a esposa.

O advogado da família de Gisele, José Miguel da Silva Júnior, criticou as declarações de Geraldo sobre a esposa.

"Um outro ponto que também ele faltou com a verdade, com o cotidiano dele, é quando ele disse que a Gisele colocou um vestido curto e desceu para se exibir para os motoboys. Quando não é verdade, a Gisele desceu com um vestido nada curto, estava com a sua filha e não foi se exibir para os motoboys e foi sim conversar com seus pais, que ela havia chamado para levá-la embora. Então, ele realmente tenta a todo instante macular a memória da Gisele", falou o advogado.

Segundo José Miguel, Geraldo tentou apresentar a soldado como emocionalmente instável para reforçar a tese de suicídio, descartada pela polícia e pelo MP.

"Foi uma atitude reprovável. Ele coloca a Gisele como uma pessoa desequilibrada, uma pessoa agressiva, que estava fazendo uso de substâncias em função do treinamento".

Acusações contra pais, ex, amigas e policiais

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Geraldo afirmou que os pais de Gisele queriam que ela retomasse o relacionamento com o ex-marido e disse que ele era usuário de drogas. Também acusou uma superior hierárquica da soldado de tentar "acabar" com o relacionamento do casal, pressionar Gisele a se separar e aproximá-la de outros homens, incluindo um parente dela e oficiais da corporação.

Sobre uma amiga de Gisele que também é PM, disse que ela teria interesse amoroso na soldado e relatou episódios que interpretava como assédio.

O tenente-coronel também atacou uma testemunha protegida, policial subordinada a ele que relatou episódios de assédio atribuídos ao oficial. Segundo Geraldo, ela teria agido por ressentimento após cobranças profissionais. Ele ainda afirmou que colegas de trabalho tinham inveja de Gisele e agiam por interesses pessoais.

As acusações foram feitas pelo réu e não constituem fatos reconhecidos no processo.

Críticas a investigadores, policiais e peritos

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Geraldo alegou que investigadores e peritos manipularam elementos do caso para incriminá-lo, incluindo análises dos celulares apreendidos. Disse ter acumulado desafetos na PM por sua atuação profissional e afirmou que sua postura rigorosa na fiscalização e no cumprimento de normas criou inimizades.

Os laudos do Instituto de Criminalística (IC), porém, concluíram que a hipótese de suicídio é impossível diante das provas periciais encontradas no apartamento. O MP sustenta que Gisele foi vítima de feminicídio.

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A promotora Ingrid Bertolino Braido pediu que as pessoas citadas sejam formalmente comunicadas sobre o interrogatório e que a Corregedoria da PM avalie a abertura de procedimento administrativo.

Segundo a promotora, Geraldo fez acusações e ofensas sem apresentar provas contra a vítima, uma testemunha protegida, testemunhas do processo e integrantes da corporação. De acordo com o MP, Geraldo "proferiu inúmeras ofensas à honra, além de imputar condutas graves (sem qualquer prova) à própria vítima" e "às testemunhas", "bem como a alguns oficiais da Polícia Militar".

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Diante disso, a Promotoria pede que o "interrogatório do réu às pessoas mencionadas (e à genitora da vítima como sua representante)" sejam encaminhadas "à Corregedoria da Polícia Militar para eventuais responsabilizações em âmbito civil, criminal (crimes de ação penal privada) e administrativo do acusado por suas falas".

A Justiça ainda não se manifestou sobre o pedido.

Mudanças de versão e contestação dos laudos

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Geraldo voltou a dizer no seu interrogatque estava tomando banho quando ouviu um barulho e encontrou a esposa baleada. Sobre o momento em que viu o corpo, mudou a versão: antes, dizia que conseguia enxergá-la de dentro do banheiro; na audiência, afirmou que só a viu depois de sair do cômodo.

Ele questionou mensagens extraídas de seu celular, disse não reconhecer parte delas e sugeriu que Gisele poderia ter usado o aparelho para escrever algumas conversas.

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Também contestou os laudos e afirmou que a soldado conseguiria alcançar a pistola guardada sobre um guarda-roupa. Reiterou a tese de que a esposa tirou a própria vida.

A defesa de Geraldo Neto, feita pelo advogado Eugênio Malavasi, informou que acredita que a Justiça não deverá encaminhar o caso para julgamento pelo Tribunal do Júri.