Famílias que vivem no Acampamento União Cinco Estrelas, em Novo Mundo (MT), aguardam há mais de duas décadas pela implantação de um assentamento da reforma agrária em uma área da Fazenda Cinco Estrelas, reconhecida pela Justiça como pertencente à União. Enquanto esperam em moradias improvisadas ao entorno da propriedade, os moradores enfrentam dificuldades de acesso à água, falta de infraestrutura e preocupação com a segurança.
A fazenda tem cerca de 4,3 mil hectares e integra o Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Novo Mundo, criado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Em 2025, o órgão publicou a relação de 74 famílias selecionadas para ocupar lotes no projeto.
Já em abril de 2026, a Justiça Federal determinou a desocupação de 2 mil hectares da fazenda dos atuais ocupantes, conforme o plano de ocupação elaborado pelo Incra. O prazo inicial de 30 dias foi ampliado para até a última semana deste mês, com possibilidade de prorrogação pela Justiça.
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O g1 procurou a defesa da família Rodrigues da Cunha, citada na decisão, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Maria Lúcia Espíndola Vaz, de 56 anos, contou ao g1 que vive no acampamento há cerca de dez anos. Segundo ela, a falta de água tem afetado os moradores, os animais e as plantas mantidos pelas famílias.
“Está com mais de semana que o caminhão-pipa não vem trazer água para a gente aqui. Aí as plantas morrendo, a criação morrendo de sede. A gente também está sem água para nada. A gente precisa que isso aconteça o mais rápido possível, porque estamos esperando há anos”, afirmou.
Os moradores do Acampamento União Cinco Estrelas enfrentam dificuldades de acesso à água e falta de infraestrutura.
O g1 procurou a Prefeitura de Novo Mundo e a Secretaria Municipal de Obras para questionar o fornecimento de água e as condições de infraestrutura relatadas pelos moradores, mas não recebeu resposta até esta publicação.
Maria também relatou a presença de pessoas armadas na região e disse que os moradores têm preocupação com a própria segurança. Uma representante da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que não quis ter a identidade divulgada, informou que encaminhou essas denúncias dos moradores à Defensoria Pública da União, o Ministério Público Federal e a Agência Nacional de Mineração.
A Polícia Militar informou que realiza o policiamento na região com equipes da Patrulha Rural, da Força Tática do 15º Comando Regional e da unidade local de Novo Mundo. Segundo a corporação, denúncias recebidas na área foram apuradas nos últimos meses, mas não houve flagrantes que resultassem em detenções ou apreensões de armas.
A polícia informou ainda que a única prisão realizada no local nos últimos meses ocorreu em agosto, por violência doméstica.
Kauê Antunes Ferreira de Souza, de 29 anos, está acampado há mais de cinco anos. Ele vive no local com a esposa e faz trabalhos temporários para se manter enquanto aguarda a criação do assentamento.
“Depois de tanta espera, espero que se cumpra a determinação da Justiça e que se crie logo esse assentamento, pois as famílias têm sofrido muito todos esses anos debaixo da lona, aguentando esse sol escaldante. E agora, no início da chuvarada, ventos fortes estão desmanchando os barracos”, ressaltou.
Histórico de trabalho escravo
Famílias que vivem no Acampamento União Cinco Estrelas, em Novo Mundo (MT), aguardam há mais de duas décadas pela implantação de um assentamento da reforma agrária.
A Fazenda Cinco Estrelas está localizada na Gleba Nhandu. A propriedade da União sobre a área foi reconhecida pela Justiça Federal, e o PDS Novo Mundo foi criado pelo Incra em 2002. No ano seguinte, a fazenda foi palco de um caso de trabalho escravo. À época, o Ministério do Trabalho registrou um dos maiores resgates, retirando da área 140 trabalhadores que viviam em condições degradantes.
A decisão do TRF-1 determinou a desocupação de 2 mil hectares para permitir o avanço da implantação do projeto. O cumprimento da ordem prevê a participação de órgãos públicos e prioriza medidas de conciliação e mediação.
A decisão judicial, por si só, não significa que o assentamento já esteja implantado. Ainda são necessárias providências para que a área seja efetivamente destinada às famílias selecionadas.
Pedidos de mineração na área
O Incra informou ao g1 que mantém o monitoramento da Fazenda Cinco Estrelas e que adotou medidas técnicas, administrativas e judiciais após tomar conhecimento de atividades de mineração na região.
Segundo o órgão, análises cartográficas e fundiárias identificaram pedidos de exploração de ouro que abrangem cerca de 4.346,63 hectares, praticamente toda a área da fazenda. O órgão apontou ainda que a Câmara Nacional de Conciliação Agrária acompanha o caso.
O Instituto afirmou que comunicou a Agência Nacional de Mineração (ANM), o Ministério Público Federal (MPF) e a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) sobre a situação, diante da ausência de autorização do titular da área para as atividades. O Incra também informou ter adotado medidas judiciais relacionadas à posse e solicitado à Sema a suspensão das licenças.
Mesmo com a propriedade da União reconhecida pela Justiça e as 74 famílias selecionadas para o projeto, a implantação do assentamento ainda depende das providências necessárias ao cumprimento da decisão e à destinação efetiva das terras. Enquanto isso, famílias que esperam há anos pela área continuam vivendo no acampamento.
Já em abril de 2026, a Justiça Federal determinou a desocupação de 2 mil hectares da Fazenda Cinco Estrelas dos atuais ocupantes, conforme o plano de ocupação elaborado pelo Incra.

