Na avaliação de Leonardo Mendes, economista e financial advisor da Manchester Investimentos, o principal risco hoje nos EUA está na transmissão do choque energético para os demais preços da economia. “Quando os custos de combustíveis, transporte e produção aumentam, as empresas tendem a repassar parte dessas despesas aos consumidores. Caso esse movimento se prolongue, poderá contaminar as expectativas de inflação e tornar o processo de desinflação mais lento e custoso”, alerta.

CPI: Inflação ao consumidor dos EUA sobe 0,6% em setembro, em linha com o esperado

Pesquisa da Reuters apontava expectativa de alta de 0,6% dos preços ao consumidor no mês passado. Na comparação anual, a projeção era de alta de 3,6%

O preços da gasolina subiu 9,1% na comparação mensal entre agosto e setembro e essa conta já está 34,2% na comparação de 12 meses. A alta do óleo combustível foi ainda mais intensa: 15.3% no mês e 74,12% em 12 meses. “O petróleo e seus derivados continuam sendo os principais responsáveis pela aceleração da inflação, especialmente diante das tensões geopolíticas no Oriente Médio”, comentou.

Mendes diz que o resultado de setembro reduz a margem de atuação do Fed e reforça a necessidade de o banco central americano manter uma postura monetária restritiva. “O mercado já começa a incorporar uma probabilidade maior de novas elevações dos Fed Funds, enquanto a possibilidade de cortes de juros fica mais distante”, avalia.

De fato, pela ferramenta FedWatch, do CME Group, que capta as estimativas do mercado, a probabilidade de o Fomc optar por manter as taxas na atual faixa entre na faixa entre 3,75% e 4% na reunião do final de outubro caiu de 77,9% ontem para 56,3% hoje. A probabilidade de uma nova alta de 0,25 p.p., por sua vez, subiu de 22,1% para 43,7%.

E a probabilidade de os Fed Funds ficarem 0,50 p.p. acima da atual taxa após a última reunião do ano, em dezembro, já está em 38,3% – até ontem essa chance era de 18,7%.

Mas o economista da Manchester lembra que o desafio do banco central é particularmente complexo porque envolve um choque de oferta. “Juros mais elevados não aumentam a produção de petróleo nem resolvem diretamente os problemas geopolíticos, mas ajudam a conter a demanda e evitar que a inflação se espalhe de forma persistente”, diz.

Para a economia brasileira, o cenário internacional se torna mais desafiador, diz Mendes. “A combinação de juros americanos elevados, dólar fortalecido e maior aversão ao risco tende a pressionar moedas emergentes e dificultar o fechamento das curvas de juros locais”, destaca. Segundo sua avaliação, esse ambiente também pode limitar a velocidade de flexibilização monetária no Brasil, especialmente caso a desvalorização cambial aumente as expectativas de inflação doméstica.

André Valério, economista sênior do Inter, também vê riscos para além do choque de energia nos EUA. Ele lembra que o núcleo da inflação, que exclui os custos com energia, registrou alta de 0,3%, acima do esperado, também registrando o segundo mês consecutivo de pressão altista, não indicando uma desinflação da economia americana.

“Além disso, os custos com habitação, item de maior peso no CPI americano, aceleram pelo segundo mês consecutivo, variando 0,4% em setembro, impedindo a sequência de desaceleração no acumulado em 12 meses vista até julho”, destaca.

Assim, a opinião de Valério também é de que o resultado de hoje deve manter o Fed pressionado. Ele argumenta que , após aumentar a taxa de juros na última reunião, em setembro, os membros do comitê deram declarações indicando que não viam necessidade de aumentos sequenciais. No entanto, com a falta de indícios de um processo inflacionário benigno, o mercado de juros deverá testar essa vontade do Fed.

“A divulgação do PPI amanhã permitirá ter uma melhor noção de como será a inflação de setembro medida pelo PCE, que é a meta de inflação oficial. Caso os dados reafirmem uma tendência inflacionária mais quente, será difícil o Fed justificar não aumentar os juros na reunião de outubro”, adverte.

Preços de bens e serviços aquecidos

Felipe Mecchi, economista do C6 Bank, por sua vez, cita outros preços nos EUA como fonte de preocupação. Entre os bens, por exemplo, os principais aumentos vieram de veículos usados (0,7%) e vestuário (0,3%). Já nos serviços, chamam a atenção do economista as altas nos transportes (0,6%) e em habitação (0,4%).

“Quando olhamos para os últimos 12 meses, os números mostram que a inflação continua pressionada, principalmente no núcleo dos preços de serviços, que acumula alta de mais de 3%”, destaca.

Mecchi lembra que a inflação americana segue em patamar elevado, em um cenário de atividade econômica forte e mercado de trabalho resiliente. “Embora parte da pressão recente venha do mercado de energia, o núcleo do CPI e a aceleração dos serviços mostra que a alta dos preços continua sendo uma preocupação. Para os próximos meses, nossa expectativa é de que a inflação continue persistente, o que dificulta a tarefa de levá-la de volta para meta”, afirma.

O C6 Bank acredita que Fed deve subir os juros mais uma vez neste ano, provavelmente em dezembro. O motivo é que a inflação segue elevada, enquanto a atividade econômica e o mercado de trabalho continuam mostrando força, o que justifica a manutenção de uma política monetária mais restritiva.

Na avaliação de Leonel Oliveira Matos, analista de inteligência de mercados da StoneX, talvez o resultado anunciado hoje não seja suficiente para provocar uma alta de juros na decisão de outubro, mas certamente abre espaço para esse debate e deixa mais claro o balanço de riscos enfrentado pelo Fed, diante de um cenário inflacionário mais complexo.

“Por isso, a divulgação do CPI aumenta as apostas dos investidores em novas altas de juros pelo Federal Reserve, favorece o rendimento dos títulos do Tesouro americano, os Treasuries, estimula a entrada de capital estrangeiro nos Estados Unidos e fortalece o dólar globalmente, pressionando a taxa de câmbio brasileira para cima.”

Já a análise de Leandro Padulla, economista do ASA, é que a composição do indicador de inflação foi desfavorável, com pressões disseminadas entre bens e serviços. “O núcleo de bens avançou 0,25%, após 0,11% em agosto. A surpresa não ficou restrita aos veículos, com pressões também em vestuário, bens de recreação e tecnologia da informação, possivelmente refletindo os efeitos de tarifas, custos de transporte e a demanda associada à inteligência artificial”, lista.

Ele diz que, agora, a estimativa preliminar para o core PCE de setembro está em torno de 0,32% mensais, mas que o PPI de amanhã ainda será importante para calibrar essa projeção. “Para a política monetária, a surpresa no núcleo, a piora das métricas de tendência e a pressão simultânea em bens e serviços fortalecem o argumento por uma alta em outubro.”

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