A campanha de drones e mísseis dos houthis já matou ao menos 18 pessoas e provocou o fechamento do principal aeroporto do país, colocando sob pressão as defesas sauditas. Centenas de voos seguem cancelados, escolas migraram para o ensino remoto e o distrito financeiro de Riad adotou o trabalho à distância, a menos de duas semanas da realização do Future Investment Initiative (FII), principal evento anual do reino para atrair investidores globais.

O cenário deixa MBS, que desde 2017 investe bilhões de dólares para transformar a imagem internacional da Arábia Saudita e atrair capital estrangeiro, em uma posição delicada. Com os houthis atingindo alvos em profundidade dentro do território saudita a partir de suas bases no Iêmen, o príncipe herdeiro pode descobrir que dispõe de menos opções do que imaginava.

Até agora, a estratégia de aproximação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não resultou em uma intervenção militar direta americana. Da mesma forma, um novo pacto de defesa firmado com Turquia e Paquistão trouxe apenas apoio limitado. Os países do Golfo emitiram declarações de solidariedade, mas evitaram se envolver diretamente no conflito.

“Ele está em uma situação terrível”, afirmou Karen Young, pesquisadora sênior do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia. “Ele precisa responder aos ataques, mas também resolver a situação rapidamente para voltar a focar na economia.”

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A guerra que voltou

MBS liderou a entrada da Arábia Saudita na guerra contra os houthis em 2015, em sua maior aposta de política externa. A coalizão liderada por Riad, porém, fracassou em expulsar o grupo apoiado pelo Irã, que se fortaleceu ao longo dos anos.

Agora, aviões sauditas voltaram a bombardear posições houthis ao lado de uma coalizão iemenita apoiada por Riad, revivendo um conflito do qual os sauditas passaram anos tentando se desvencilhar.

A maior decepção para o reino tem vindo de Washington. Apesar dos acordos de defesa firmados com Trump e da promessa saudita de investir US$ 1 trilhão nos EUA, o governo americano limitou seu apoio ao compartilhamento de inteligência, abastecimento aéreo e informações de alvos.

Trump chegou a sugerir uma possível resposta militar após o ataque ao aeroporto de Riad que matou um cidadão americano. “Talvez façamos isso. Vamos analisar”, afirmou a jornalistas. Mesmo após conversar com MBS nesta semana, porém, o presidente americano evitou assumir qualquer compromisso.

Apoio internacional aquém do esperado

A ajuda europeia também ficou abaixo das expectativas sauditas. O Reino Unido enviou uma aeronave de reabastecimento em voo, enquanto a França prometeu tropas, radares e sistemas de defesa aérea para proteger instalações estratégicas em Yanbu.

Os pedidos sauditas por assistência adicional seguem sem resposta, segundo pessoas familiarizadas com as negociações.

Paquistão e Turquia, integrantes do novo pacto de defesa anunciado em agosto, prometeram fornecer tropas e equipamentos, mas apenas para funções defensivas. Já o Egito sinalizou disposição para ajudar militarmente, embora sem detalhar em que medida.

Os demais países do Golfo permanecem cautelosos. Muitos ainda lidam com as consequências de confrontos anteriores com o Irã e não demonstram disposição para entrar em uma nova guerra regional.

Petróleo e economia sob pressão

Os houthis também ampliaram os ataques contra a infraestrutura energética saudita. Refinarias, terminais de exportação e oleodutos foram atingidos nas últimas semanas. Uma importante instalação de processamento de petróleo em Jazan continua paralisada, enquanto o terminal de Yanbu também foi alvo de ataques.

A situação ocorre num momento particularmente sensível para a economia saudita. O governo agora prevê contração de 3,6% do PIB em 2026, revertendo projeções anteriores de crescimento próximo de 5%.

O déficit fiscal também deve se aproximar de 5% do PIB, obrigando o reino a continuar recorrendo ao endividamento para financiar os megaprojetos da Vision 2030, principal iniciativa econômica de MBS.

O conflito ainda ameaça afastar investidores estrangeiros. Executivos da BP e da Shell cancelaram participação no Congresso Mundial de Energia em Riad, enquanto organizadores do Future Investment Initiative discutem planos de contingência, incluindo a realização de um evento híbrido, presencial e online.

Para analistas, MBS enfrenta uma escolha difícil. Sem um envolvimento mais amplo dos Estados Unidos, a Arábia Saudita pode ser obrigada a travar uma guerra prolongada praticamente sozinha, aumentando os custos econômicos e o risco de afastar investidores.

A alternativa seria negociar novamente com os houthis, como ocorreu nos últimos anos com a mediação de Omã. No entanto, autoridades sauditas temem que um acordo neste momento seja interpretado como sinal de fraqueza e fortaleça ainda mais o grupo.

“Quando se enfrenta um inimigo como esse, não é fácil depender apenas do poder aéreo”, afirmou Abdelwahab El-Affendi, presidente do Instituto de Pós-Graduação de Doha. “Você sofre as consequências, a menos que esteja disposto a ir até o fim e empregar tropas terrestres.”

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