Clarence Seedorf chegou à sala de imprensa do CT Joaquim Grava nesta quarta-feira com apito pendurado no pescoço e carregando papéis com desenhos táticos. Ele havia acabado de dar o primeiro treino no Corinthians, retomando a carreira de técnico paralisada por sete anos. Um hiato que o holandês se preparou para explicar na sua apresentação.

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O questionamento sobre a incipiente carreira de treinador veio logo na primeira pergunta e pautou boa parte da entrevista coletiva, que teve a participação de cerca de 150 profissionais - muito acima da média.

Sala de imprensa do CT Joaquim Grava lotada para apresentação de Seedorf como treinador do Corinthians

Seedorf usou a vitoriosa carreira como jogador, com direito a quatro títulos de Liga dos Campeões da Europa por três clubes, como anteparo para as dúvidas sobre seu trabalho como técnico.

— Eu não fiquei sem estar no futebol, sempre estive próximo. Longe de um clube, não queria pegar as coisas que estavam me oferecendo, não acreditava nos projetos. Tive outros papéis como conselheiro e dirigente e analisando jogos de um nível alto, de Champions League. Eu vivi 30 anos nessa parte com os maiores treinadores do mundo — disse na primeira resposta, citando uma ideia que repetiu, com diferentes formulações, em outros momentos da entrevista.

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Quando perguntado se durante os sete anos sem treinar uma equipe acompanhou o futebol brasileiro para saber quem são os adversários do Corinthians, Seedorf sustentou que não é preciso conhecê-los. Mais uma vez, recorreu à trajetória como atleta.

— Quando eu jogava, muitas vezes não sabia contra quem jogava no mesmo dia. Minha mentalidade era saber o que fazer com o meu time. Como treinador é diferente. Hoje em dia o treinador não precisa ver praticamente nada para saber sobre o adversário, tem muita gente boa para trabalhar aqui.

— Eu joguei em vários clubes do mundo e, no final, a bola é redonda e são 11 jogadores contra 11. Joguei futebol 40 anos da minha vida, conheço futebol e não preciso de muito tempo para conhecer os jogadores que vamos enfrentar.

Clarence Seedorf em entrevista coletiva no CT Joaquim Grava, em sala lotada de jornalistas

Rodrigo Coca/Agência Corinthians

Nas questões em que precisou responder sobre tática, estilo de jogo e influência de problemas extracampo, Seedorf tergiversou. Não sem, inicialmente, dizer "obrigado pela pergunta", como fez em quase todas as respostas.

Mesmo com a sequência de oito derrotas consecutivas no Campeonato Brasileiro, que derrubou Fernando Diniz e aprofundou a crise do Corinthians, o holandês pregou pensar daqui em diante. Novamente relembrando dos tempos de jogador.

— Eu aprendi como jogador a virar a página e olhar para frente. Isso é uma maneira prática para controlar as coisas. Esse grupo sabe jogar e performar muito melhor do que vem acontecendo. Temos que construir essa consciência.

Seedorf falou tanto do aspecto mental que, em certo momento da coletiva, brincou com os jornalistas:

— Parece que estou fazendo uma palestra de motivação.

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Entre uma retrucada e outra, Seedorf demonstrou serenidade e bom humor e sorriu em boa parte das respostas. Não esmoreceu nem mesmo quando precisou falar sobre a sua personalidade forte em um elenco de personalidades fortes. Nesse momento, lembrou de técnicos que o comandaram como jogador.

— São técnicos sem personalidade? Eu prefiro um grupo todo com personalidade, meu trabalho fica mais fácil.

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O holandês só demonstrou irritação quando confrontado com os números ruins como treinador.

Depois de se aposentar como jogador, o craque treinou o Milan, da Itália, o Shenzhen FC, da China, o Deportivo La Coruña, da Espanha, e a seleção de Camarões, que marcou o seu último trabalho como técnico, em julho de 2019.

Ele tem 63 partidas na carreira como treinador, com mais derrotas (26) do que vitórias (20) e aproveitamento de 39,15%.

— Já respondi bastante sobre esse assunto. Vocês tem que pensar se é justo ou não antes de ver o trabalho — disse Seedorf na reta final da entrevista de quase uma hora de duração.

Seedorf relembra sua passagem pelo Milan

— Eu pergunto a vocês: é justo julgar alguém antes de fazer um trabalho? É justo ou não? O mundo é cheio de pré-julgamento. Eu não gosto de julgar pessoas que não conheço. São sete anos sem ter um clube, mas isso não significa que eu não estava próximo do futebol.

— Para mim, o mais importante é o clube acreditar em mim. O clube e os profissionais abriram a porta para mim. Eu sei o que posso fazer, se não, não estaria aqui para ajudar a melhorar a situação. Não estou com medo e não estou precisando estar aqui. Minha vida era muito boa, tinha tudo, mas eu gosto de desafios. É um desafio maravilhoso.

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O primeiro duelo deste caminho de oito jogos decisivos para escapar do rebaixamento será contra o Vitória, na Neo Química Arena, na próxima segunda-feira, às 20h (de Brasília).

O Corinthians está na 16ª posição do Brasileirão, estacionado com 32 pontos - a mesma pontuação do Internacional, o primeiro time da zona de rebaixamento.

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