Sangue, suor e ruptura: Elenco sofreu, mas nada perto do caos do filme de 94

O filme estreia nesta quinta-feira (15) com combates sem alma que nunca empolgam, esmagados pelo exagero do número de personagens do jogo que dão as caras – e desperdiça um bom elenco em cenas picotadas.

Não deixa de ser uma pena. Não só porque não é preciso muito para conseguir uma adaptação agradável do gênero, como bem prova o eterno e paupérrimo "Mortal Kombat" (1995), mas porque há vislumbres de graça.

A química e o carisma do trio de protagonistas, os bons toques de humor, o uso apropriado dos golpes especiais e a qualidade da animação escolhida para narrar o passado – tudo indício do que poderia ter sido.

Mas não há visão criativa que resista a uma enxurrada de lutadores desnecessários, enfiados na narrativa sem razão ou motivação – por mais inspiradas que sejam algumas das escalações.

O roteiro coescrito pelo diretor Kitao Sakurai ("Bad trip") conta a história da relação entre dois lutadores de artes marciais afastados após crescerem juntos – e do torneio criado por um ditador com planos de roubar os poderes de um deles.

Só não dá para falar que "foca" nesse relacionamento, porque foco é tudo o que falta à trama.

No meio do caminho, precisa encontrar espaço para mostrar uma agente da Interpol em busca de vingança, para a relação afetuosa entre um dos protagonistas com seu agente covardão, e para o demônio misterioso que ameaça a todos das sombras.

Mas se você pensa que acabou, está errado. Continua. Há também um brutamontes russo, um lutador de sumô, um soldado americano com corte de cabelo ridículo, um monstro verde muito querido dos brasileiros e mulheres com trajes sumários sem qualquer motivo, porque desenvolvedores japoneses não melhoraram muito dos anos 1990 para cá.

Callina Liang em cena de 'Street Fighter'

Com tanta gente, a inspiração da escalação da maior parte dos papéis funciona contra a narrativa. Afinal, quanto mais interessante o intérprete, mais tempo de tela ele exige.

Escolhas como o rapper Curtis "50 Cent" Jackson como o boxeador inspirado em Mike Tyson, Balrog, ou do cantor country mascarado Orville Peck para o capanga mascarado Vega mereciam momentos para brilhar. Como apenas alguns exemplos do elenco, simplesmente não há espaço para isso.

Algumas participações são tão passageiras que causam até um humor involuntário. É impossível não rir durante os créditos ao lembrar que o gigante Zangief (Olivier Richters) aparece, dá um pilão e desaparece no éter dos personagens esquecidos.

Curtis '50 Cent' Jackson em cena de 'Street Fighter'

Também é triste notar os potenciais desperdiçados da relação entre Ryu (Andrew Koji) e Ken (Noah Centineo) e do carisma (e dedicação física notável) de Callina Liang ("Presença") como Chun-Li.

Todos estão ótimos como seus personagens, e até acentuam as diferenças entre os dois lutadores masculinos, que compartilham muitos dos mesmos golpes nos games.

Havia o suficiente entre o trio para conseguir uma história digna ou ao menos lutas bem coreografadas.

Noah Centineo em cena de 'Street Fighter'

Mas, basta a dupla mostrar o mínimo de conexão, ou a chinesa engatar uma bela sequência de seus famosos chutes, para que a montagem jogue o espectador em outra narrativa desnecessária que nem ao menos mostra outras lutas.

Os cenários honram grande parte das fases clássicas da franquia. As roupas conseguem ultrapassar a barreira perigosa do cosplay. E até os golpes com bolas de fogo e corpos que esticam de certa forma funcionam.

Mas "Street Fighter" quer tantos lutadores que simplesmente esquece de lutar.