O time sub-20 do São Paulo chamou atenção nas últimas semanas pela estreia do guatemalteco Marvin Ávila, de 18 anos. A nacionalidade incomum no futebol brasileiro levantou a questão: afinal, como o Departamento de Scout chegou a esse nome?

O ge entrevistou Luan Faria, chefe do Departamento de Scout de base do clube, e Matheus Abreu, analista de mercado, para entender os processos que levaram não só a essa contratação, como também de outros estrangeiros que fazem parte da base do clube.

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Departamento de Scout da base do São Paulo

Miguel Schincariol/São Paulo

– Chamamos esses atletas de jogadores de "meia confecção". Trazemos (muitas vezes) de forma gratuita apostando em indicadores, histórico em clubes grandes e que não foram bem aproveitados. Identificamos, apostamos e está dando resultado – explicou Luan Faria.

Neste caso, “meia confecção” quer dizer um jogador que iniciou sua formação em outro clube, ganhou algum destaque e entrou na mira do São Paulo. Hoje, o clube conta com 122 atletas nesse molde nas categorias de base.

Somente no sub-20, por exemplo, 36 dos 54 que fazem parte da categoria vieram desse processo de captação, enquanto 18 estão no clube desde o sub-10.

Marvin marca primeiro gol com a camisa do São Paulo sub-20

– Quando cheguei, não existia um trabalho de análise de mercado. Era um processo de contratação por osmose. Jogava contra, contratava por aquele jogo somente, ou o treinador gostou, ou o executivo achou interessante. Não tinha uma análise para diminuir a margem de erro – contou Faria.

– Nosso trabalho é formar um banco de dados para embasar o tomador de decisão. A decisão em si não é nossa, mas os relatórios nos ajudam a mostrar para quem vai tomar essa decisão se nós indicamos ou não essa contratação e o porquê – explicou Matheus Abreu.

Ao todo, foram mais de 4,3 mil jogadores relatados ao longo dos últimos dois anos.

Cada membro do departamento acompanha cerca de 70 jogos por semana e segue algumas diretrizes no momento de fazer o seu relatório. Ao final dele, deve informar sua decisão entre quatro categorias: desempenho, monitorar, aprofundar ou descartar.

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Quando um atleta é marcado como “desempenho” é uma indicação de que apenas naquele jogo em específico ele teve uma atuação acima da média, mas não necessariamente ele entrará na lista de jogadores a serem acompanhados de perto.

Já as opções “monitorar” e “aprofundar” colocam o atleta em uma lista mais seleta do clube.

Se o mesmo jogador recebe três dessas marcações, ele entra em uma lista larga do clube. O monitoramento é intensificado e ele pode, após discussão do departamento como um todo, evoluir para a “shortlist” ou o “time sombra”: as prioridades do clube no mercado para cada posição.

– Primeiro os scouts fazem seus apontamentos. Quando chega nos analistas de mercado, entra um trabalho minucioso, onde apuram sobre a família, tempo de contrato, por onde ele passou. Fazemos um apanhado da vida dele. Coletamos referências com amigos de mercado de forma cuidadosa, sem sinalizar que estamos de olho no atleta – explicou Faria.

Claro que, a depender do potencial, um jogador pode pular etapas e até ir direto para o processo de contratação.

– Dentro dessa engrenagem, o processo não é engessado. Recebemos muitas informações na base e precisamos contextualizar cada situação para tomar a decisão o mais rápido possível. Temos exemplos como o Djhordney, o Gustavo Santana e o Isac, que foram atletas que passaram por esse processo.

Djhordney em São Paulo x Vitória

Prioridades e como observar fora do Brasil

O Departamento de Scout de base do São Paulo tem apenas sete pessoas. Luan Faria é o coordenador, com Matheus Abreu e Gabriel Joaquim como analistas de mercado e quatro scouts: Rodrigo Zirmerman, Eduardo Mendes, Vinicius Gabriel e Marco da Bahia.

Como o departamento faz, então, para buscar um jogador na Guatemala?

– Dentro do nosso banco de dados, identificamos na Concacaf de 2025 que ele (Marvin) possuía aspectos interessantes. Aprofundamos e ele se tornou um alvo. De forma externa, chegou a informação de que a negociação poderia ser feita com um risco muito baixo. Fizemos, então, uma visita in loco e concretizamos a negociação – contou Faria.

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A “Concacaf” citada pelo coordenador é uma das competições observadas pelo clube de forma remota. Internamente, o clube tem três tipos de foco: competições-alvo, clubes-alvo e atletas precoces.

Em matéria de competições, o clube acompanha não só as tradicionais e mais fortes de base do Brasil, mas também torneios de tiro curto nacionais, como a Go Cup, e internacionais, como a Copa Mitad del Mundo.

Em relação a clubes-alvo, o scout tem identificado time de menor expressão que são conhecidos por terem um trabalho de base forte e revelarem jogadores, como o Retrô-PE, bem como projetos locais, que tradicionalmente revelam atletas, como o Canarinho Brasil, no interior da Bahia.

Por outro lado, rivais da Série A com trabalho de base forte também são acompanhados de perto, pois jogadores que perdem espaço podem entrar no radar do clube, como foram os casos de Djhordney, que passou pelo Palmeiras, e Isac, que chegou do Red Bull Bragantino.

Isac, zagueiro do sub-20 do São Paulo, rumo a Fortaleza

Por fim, o departamento tem especial atenção a jogadores precoces: atletas de idades abaixo da categoria em que estão atuando. Nesses casos, o scout designado para observar a partida é obrigado a relatar o atleta.

– Você vai ter jogadores que estão em clubes que acreditamos ser formador de menor expressão. Você vai ter jogadores que estão perdendo espaços em clubes grandes e podem ser melhor aproveitados aqui. São vários cenários baseados naquelas estratégias. É ser fiel às estratégias para fornecer as melhores informações – explicou Matheus Abreu.

Todas as diretrizes são novas no clube e foram implementadas por Luan Faria, em setembro de 2024.

– Nunca tivemos orçamento nem para o dia a dia de viagens de scout. As informações chegavam de forma externa, sem propriedade. Diariamente empresários oferecem jogadores de todos os níveis e você tinha que tomar a decisão pautada em um vídeo de 30 segundos. A margem de erro é absurda. Hoje, quando o jogador é oferecido, já temos relatórios concretos para o tomador de decisão saber.

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Agora, o departamento possui algum orçamento, mas nada que se compare a outros clubes que têm revelado mais nos últimos anos. A equipe, então, utiliza sua própria estratégia para driblar as dificuldades de competir com tais clubes.

– Hoje, se você pega os clubes que têm vantagem financeira em relação a nós, conhecendo o mercado, a chance de erro desses clubes é muito grande, pois eles estão contratando a todo momento. E, se tratando de ser humano, os jogadores vão ter seus altos e baixos. Por exemplo, o Flamengo fez um movimento que não conseguimos competir. Só que, daqui a pouco, eles estão contratando outro e esse menino que era prioridade, vai para o fim da fila. É aí que ficamos ligados.

– Foi o caso do Djhordney. Quem conseguiu levar ele foi o Palmeiras, só que a cada três meses estão contratando jogadores. Ele começou a ficar encostado por alguns fatores. A gente começou a falar com o empresário, descobrimos que o Palmeiras não iria exercer a compra e fomos no Novorizontino para construir um empréstimo.

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