Ao analisar a lista de credores estrangeiros, Liberman ficou impressionado com o crescimento acelerado das posições do Canadá, apesar do boicote generalizado a produtos americanos em meio à guerra tarifária entre os dois países. Ao todo, o país acumulou discretamente quase US$ 600 bilhões em Treasuries e títulos lastreados por agências federais de habitação, mais de quatro vezes o volume registrado cinco anos antes.

Intrigado, Liberman, especialista em títulos hipotecários, começou a perguntar a participantes do mercado o motivo dessa alta. A resposta, para sua surpresa, era sempre a mesma.

“Os profissionais mais experientes de Wall Street diziam: ‘Não é o Canadá. É o outro Canadá’”, afirmou.

E, segundo ele, por “outro Canadá” entendia-se a China.

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Pelos dados oficiais dos Estados Unidos, a China vem reduzindo gradualmente sua posição em Treasuries desde que Trump começou a atacar o país durante sua primeira campanha presidencial, em 2016. As reservas chinesas em títulos do Tesouro americano caíram pela metade, para US$ 618 bilhões. A participação em títulos hipotecários garantidos pelo governo federal também recuou quase 50% desde o início de 2024, ano em que Trump foi reeleito.

A retirada de um dos maiores credores dos EUA é uma preocupação recorrente no mercado de títulos, onde a tese de um movimento conhecido como “Sell America” ganhou força em diferentes momentos dos últimos dois anos.

O choque inflacionário provocado pela guerra com o Irã aumentou a pressão sobre o mercado de renda fixa nos últimos sete meses, ajudando a elevar o custo de financiamento de longo prazo do governo americano ao maior nível em quase 25 anos. Também pesam as dúvidas sobre a disposição do restante do mundo em continuar absorvendo o volume crescente de dívida emitida pelos EUA para financiar um déficit anual de cerca de US$ 2 trilhões.

Mas investidores, analistas e estrategistas de Wall Street afirmam que os números atribuídos ao Canadá podem apontar para uma estratégia que distorce as estatísticas do Tesouro americano e esconde o papel ainda central da China no financiamento dos déficits dos Estados Unidos.

Em vez de vender seus ativos, argumentam eles, autoridades chinesas estariam transferindo títulos para bancos custodiante localizados em outros países. Como esses ativos deixam de aparecer sob propriedade chinesa nos registros do Tesouro, acabam sendo contabilizados em outros mercados. Isso explicaria aumentos incomuns nas posições de determinados países.

Além disso, a estratégia permitiria a Pequim transmitir a impressão de que está reduzindo sua dependência financeira dos EUA, reforçando sua posição na tentativa de desafiar a predominância global do dólar, que domina o comércio mundial desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Pequim mantém em sigilo a composição de seus ativos externos. Não há evidências diretas ligando o aumento das posições do Canadá à atuação de bancos locais em nome da China. A Administração Estatal de Câmbio da China recusou-se a comentar o assunto. O órgão regulador financeiro canadense também disse não comentar operações de clientes, enquanto o Departamento do Tesouro dos EUA não respondeu aos pedidos de esclarecimento.

As especulações de que a China redistribui seus ativos internacionalmente para mascarar sua verdadeira origem circulam há mais de uma década.

Os rumores ganharam força em 2014, quando as posições da Bélgica em Treasuries dispararam mais de 40% em apenas cinco meses, transformando o país em um dos maiores detentores desses títulos. Na época, assim como agora, o mercado suspeitava da participação chinesa.

O debate evidencia um dilema da era Trump: embora diversos países desejem reduzir a influência do dólar no sistema financeiro global, nenhuma outra moeda conseguiu rivalizar com sua importância no comércio internacional.

Quando países acumulam mais dólares do que precisam, bancos centrais e instituições financeiras geralmente aplicam esses recursos em títulos do Tesouro dos EUA.

“A história aqui é que a China se tornou muito mais eficiente em esconder seus dólares do que em abandonar o dólar”, afirmou Brad Setser, ex-integrante do Tesouro americano que acompanha os dados há anos.

Refém do próprio sucesso

De certa forma, a China tornou-se refém de seu próprio êxito econômico.

A transformação do país na maior potência manufatureira do mundo e na segunda maior economia global inundou suas empresas exportadoras com dólares. Durante anos, isso criou um ciclo mutuamente benéfico: as exportações para os EUA impulsionavam o crescimento chinês, enquanto os dólares reciclados em Treasuries ajudavam a manter baixos os juros americanos.

Hoje, com um superávit comercial superior a US$ 1 trilhão com o restante do mundo, a China tem poucas alternativas para alocar seus dólares.

Uma venda maciça desses ativos poderia valorizar o yuan, tornando as exportações chinesas menos competitivas. Além disso, uma liquidação de Treasuries derrubaria os preços dos títulos e reduziria o valor da própria carteira chinesa.

“Essas posições continuam sendo um passivo significativo para Pequim”, afirmou Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para Ásia-Pacífico do Natixis. “Vendas em larga escala cristalizariam perdas, fortaleceriam o yuan e ainda deixariam a China com o problema de encontrar onde aplicar os dólares.”

O mistério canadense

Não existe uma explicação evidente para que a China tenha transferido mais ativos especificamente para bancos no Canadá, ainda que ambos os países mantenham atritos frequentes com o governo Trump.

Mesmo assim, muitos analistas veem influência chinesa por trás do forte aumento das posições canadenses.

O crescimento dos títulos hipotecários americanos registrados no Canadá chama atenção especial. O montante saltou de cerca de US$ 21 bilhões em meados de 2021 para aproximadamente US$ 162 bilhões atualmente.

Historicamente, Japão, Taiwan e China sempre foram, de longe, os maiores investidores estrangeiros nesse mercado.

Uma dúzia de investidores e estrategistas do setor hipotecário consultados pela Bloomberg afirmou nunca ter visto fluxos significativos de compra por parte de investidores canadenses. Algumas das maiores instituições financeiras do país também disseram não atuar como compradoras relevantes desse tipo de ativo.

“A compra de hipotecas americanas por canadenses nunca foi um tema de discussão”, disse Nick Travaglino, da Nuveen Asset Management.

Nem todos, porém, atribuem o fenômeno exclusivamente à China.

Alex Etra, estrategista macro da Vanda Research e ex-economista do Federal Reserve de Nova York, avalia que parte do movimento pode refletir estratégias de valor relativo de fundos de hedge canadenses, que compram títulos à vista e fazem hedge com contratos futuros.

“Não me sinto confortável para dizer que isso é claramente tudo China”, afirmou. “Estamos todos tentando entender diferentes partes do elefante, mas ninguém tem uma visão completa.”

Poucas alternativas ao dólar

Ainda assim, ocultar a localização dos ativos americanos pode trazer vantagens políticas e estratégicas para Pequim, reforçando a percepção de que o país está se desacoplando dos EUA.

No ano passado, o presidente do Banco do Povo da China, Pan Gongsheng, fez críticas indiretas ao sistema financeiro global baseado no dólar, afirmando que moedas dominantes tendem a ser “instrumentalizadas” em conflitos geopolíticos.

O alerta ganhou relevância após os EUA e seus aliados congelarem cerca de US$ 300 bilhões em ativos russos no exterior em 2022. Mais recentemente, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, ameaçou excluir entidades ligadas ao Irã do sistema financeiro baseado no dólar.

Mesmo assim, a China continua com poucas alternativas viáveis.

Por isso, Garcia-Herrero afirma ter dúvidas há muito tempo sobre os dados oficiais que mostram uma forte redução das posições chinesas em Treasuries.

“Com um superávit comercial desse tamanho, não é possível reduzir as posições em títulos do Tesouro americano nessa velocidade”, disse. “Estamos falando de volumes gigantescos de dinheiro.”

© 2026 Bloomberg L.P.

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