Do ponto de vista do investidor, o tombo abre uma oportunidade de compra ou marca o início de um período mais prolongado de perdas no setor? Segundo boa parte dos analistas, ainda não há sinais de que a demanda por IA esteja sumindo, mas ainda paira dúvida sobre o custo alto da conta da expansão.

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O que provoca a queda?

O gatilho mais recente veio após a Anthropic, dona do Claude, apresentar a potenciais investidores receita de US$ 16,8 bilhões no terceiro trimestre e lucro em termos ajustados, a poucas semanas de sua abertura de capital , em desaceleração em relação ao trimestre anterior. O mercado passou a questionar se os gigantescos gastos com computação vão gerar retornos à altura das avaliações do setor. “O mercado não reage mais a bons resultados financeiros, mas sim ao menor deslize”, resume Anna Wu, estrategista da Floodlines Research.

O episódio piorou o apetite ao risco após a inflação americana acima do esperado , divulgada na quarta-feira, reforlar as apostas em novas altas de juros nos Estados Unidos. Juros mais altos encarecem o dinheiro que as empresas tomam emprestado para construir data centers e comprar chips. Com a fuga das ações, os investidores correm para os títulos do Tesouro americano, e o rendimento do papel de 10 anos cai para 5,08%, o menor nível em três semanas.

Uma das maiores baixas é a CoreWeave, uma das chamadas neoclouds , empresas que alugam capacidade de computação para IA e financiam boa parte da expansão com dívida. A ação caiu 15% na quarta, e seus títulos chegaram a níveis que costumam indicar dificuldade financeira. No mesmo dia, a consultoria Gartner previu que mais de 80% dessas empresas deixarão de operar de forma independente até 2030. Na terça, o Fundo Monetário Internacional já havia alertado que uma correção no setor de IA pode ter consequências globais.

Para Rich Privorotsky, da mesa de ações e renda fixa do Goldman Sachs, a disputa por crédito aparece primeiro onde era mais previsível, no tomador mais frágil. Uma cesta de neoclouds acompanhada pelo banco caiu 20% em cinco sessões, movimento raro em uma década.

“Acho que o mercado está descobrindo que a demanda por computação pode crescer exponencialmente, mas o capital disponível para financiá-la não”, escreve em nota a clientes. Ainda assim, ele não vê uma crise de demanda, já que o consumo de IA continua surpreendendo para cima e as limitações estão na oferta, como energia e construção de data centers.

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Barganha ou armadilha?

A queda não atinge todos da mesma forma. O Goldman avalia que o mercado exagerou em alguns segmentos, mas que o momento favorece empresas com balanço forte e energia garantida, em detrimento das intermediárias endividadas . Enquanto as neoclouds viviam uma liquidação histórica, as ações de maior qualidade subiam havia semanas.

A BNP Paribas Wealth Management elevou ações americanas e o setor de tecnologia para overweight (equivalente a compra) em outubro. A casa vê as gigantes de nuvem na parte baixa da faixa de preço sobre lucro dos últimos anos e considera os semicondutores atraentes em preço. Defende, porém, seletividade, com foco em empresas de balanço robusto e caminho claro para aumentar a geração de caixa .

Por outro lado, a BlackRock rebaixou as ações americanas para neutro nesta semana, citando a volatilidade ligada à IA, mas não mudou de ideia sobre o tema. “Estamos administrando o risco de curto prazo, não mudando nossas convicções centrais”, escreveu a equipe, que disse estar pronta para voltar a comprar quando a visibilidade melhorar e surgirem bons pontos de entrada.

Como se posicionar

A principal recomendação é não concentrar a carteira. Marina Valentini, estrategista de mercados globais da JPMorgan Asset , lembra que as dez maiores empresas já representam 40% do S&P 500.

“Qualquer má notícia ou onda de receio à [IA], por exemplo, acaba impactando mais o investidor passivo do que aquele que tem uma carteira mais diversificada”, disse ao InfoMoney na semana passada. Ela sugere diversificar com bancos de países desenvolvidos, indústrias ligadas à construção de data centers e energia.

A BlackRock prefere companhias de infraestrutura listadas em Bolsa e, desde setembro, aponta os gargalos da IA, como energia, chips e data centers. A BNP Paribas lembra que o conceito de “ação de IA” se ampliou para além dos chips e inclui conexões ópticas, energia e resfriamento, robótica e aplicações . Por isso, mantém recomendação de compra para o Japão, onde estão muitas dessas empresas.

A Allianz Global Investors segue otimista com as ações globais, mas defende seletividade nos EUA pelo preço elevado das ações e pela alta dos juros. A gestora aponta as empresas de robótica e automação , sustentadas pelo envelhecimento da população, pela falta de mão de obra e pelos avanços da própria IA.

A B3 oferece BDRs (recibos de ações estrangeiras negociados aqui) de empresas como Nvidia ( NVDC34 ) e TSMC ( TSMC34 ). Há também BDRs de ETFs temáticos, como o Global X Artificial Intelligence & Technology (BAIQ39) e o Global X Robotics & Artificial Intelligence (BOTZ39), que diluem o risco de escolher uma única empresa. Esses ativos acompanham o dólar, o que soma o risco de câmbio à oscilação das ações.

Outra alternativa são ETFs de tecnologia listados diretamente na B3, como o UTEC11 , da XP Asset, que segue o setor de tecnologia dos EUA, e o CHIP11 , da Investo, que replica um índice de fabricantes de semicondutores com Nvidia e TSMC entre as maiores posições.

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