# Vacina contra malária vivax desenvolvida pela USP recebe aval para testes em humanos

- Seção: Itatiba e Região
- Fonte: Itatiba Hoje (https://itatibahoje.com.br/2026/10/15/vacina-contra-malaria-vivax-desenvolvida-pela-usp-recebe-aval-para-testes-em-humanos/)
- Publicado em: 2026-10-15T18:36:45.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1196146-vacina-contra-malaria-vivax-desenvolvida-pela-usp-recebe-aval-para-testes-em

> Desenvolvida na USP em parceria com o CTVacinas da UFMG, formulação pode ser a primeira contra essa variedade da doença no mundo. Ensaio clínico de fase 1 vai avaliar segurança e resposta imune

Uma vacina brasileira contra a malária vivax, tipo mais comum da doença no país e que não tem imunizante disponível no mundo, recebeu aval para ser testada em humanos. Chamada Vivaxin, a formulação entra agora em estudos clínicos de fase 1, que vão avaliar a segurança, possíveis reações à aplicação e a capacidade de estimular a produção de anticorpos, ou seja, a resposta imunológica.

A pesquisadora Ana Clara Gazzinelli, do CTVacinas, integra a equipe que está desenvolvendo a Vivaxin. Foto: Laura Mota

O protocolo prevê a participação de 48 voluntários saudáveis, com idades entre 18 e 59 anos, sem infecção prévia por malária. A seleção começa em novembro. Serão avaliados grupos que receberão a vacina e placebo (formulação sem o princípio ativo), em um esquema de três aplicações, com intervalo de 28 dias entre elas. Os voluntários serão acompanhados durante um ano.

O aval foi concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na resolução nº 3.956, publicada no Diário Oficial da União em 7 de outubro.

Desenvolvido na Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Centro de Tecnologia de Vacinas ( CTVacinas ), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e a indústria farmacêutica Cristália, o imunizante já havia passado por testes de boas práticas de laboratório e de fabricação, além de ter sua capacidade de imunização comprovada em animais.

Os pesquisadores – que receberam financiamento da FAPESP, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e dos ministérios da Saúde e da Ciência, Tecnologia e Inovação – já solicitaram a patente no Brasil e no exterior ( leia mais em: agencia.fapesp.br/53363 ).

Se a fase 1 demonstrar a segurança, a vacina seguirá para as etapas 2 e 3 dos testes clínicos, realizadas com um número maior de voluntários – a previsão é de que participem cerca de 300 pessoas no Brasil, principalmente na Amazônia, e de que o estudo envolva outros países posteriormente. O monitoramento da eficácia do imunizante também segue nas outras fases. Somente ao final de todo esse processo, sem prazo para conclusão, será feito o pedido de registro na Anvisa para a produção em larga escala e comercialização.

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“Essa é uma vacina inédita no mundo. Foi toda concebida no Brasil. Na Anvisa, levamos quase um ano e meio para obter o aval da fase 1. Depois de todas as etapas concluídas, será um avanço para o mundo”, diz à Agência FAPESP a professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP Irene Soares , uma das coordenadoras do trabalho, juntamente com o professor Ricardo Gazzinelli , diretor do CTVacinas.

Para Gazzinelli, desenvolver esse tipo de imunizante representa uma oportunidade não só de reduzir os impactos da doença sobre os sistemas de saúde, como também de contribuir com a melhoria da rotina das populações expostas, geralmente vulneráveis. “Essa vacina pode ter um papel extremamente importante para eliminar a malária do nosso território e contribuir para o controle da doença na América Latina. Como as pessoas doentes não podem trabalhar, o impacto socioeconômico é relevante”, disse o diretor, em comunicado à imprensa.

Doença infecciosa transmitida a humanos pela picada de fêmeas do mosquito Anopheles , a malária é causada pelo parasita do gênero Plasmodium . Duas espécies do parasita são as maiores ameaças no mundo: P. vivax , predominante no Brasil e nas Américas, e P. falciparum , com mais casos em países da África e a única com vacina.

Apesar dos avanços no tratamento, relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2025 aponta que foram registrados 282 milhões de casos em 80 países com transmissão local (endêmica). Do total, 9,9 milhões foram de P. vivax . Nas Américas, a espécie respondeu por 63% dos registros.

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, foram 118.037 casos contraídos em território nacional em 2025, o que representa 15% menos do que no ano anterior. Mais de 95% estão concentrados na região amazônica, onde o enfrentamento da doença também envolve desafios de acesso ao diagnóstico, ao tratamento e às ações de prevenção. O Brasil tem a meta de interromper a transmissão local da doença até 2035.

Entre os sintomas mais comuns da malária estão febre alta, cansaço, enjoo, suor excessivo, dores de cabeça e no corpo. A forma grave da doença pode causar anemia e comprometer órgãos como fígado e baço. O tratamento é feito com medicamentos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS).

Tecnologia da vacina

Diferentemente do P. falciparum , o P. vivax tem uma proteína, chamada PvCSP (proteína circunsporozoíta), que possui três variantes (VK210, VK247 e P. vivax -like). A PvCSP é mais abundante na superfície dos esporozoítos, que são a forma alongada do parasita. Presentes na glândula salivar do mosquito transmissor, os esporozoítos, após serem depositados na pele, chegam ao fígado e podem infectar o organismo humano.

Por isso, após anos de estudos, os pesquisadores usaram a PvCSP como proteína-alvo. Conseguiram desenvolver artificialmente uma molécula a partir da união das três diferentes variantes, chamada “proteína quimérica recombinante PvCSP-All epitopes”, que é usada na vacina Vivaxin e busca proteger contra as três formas do parasita.

Essa substância ativa é então liofilizada, ou seja, transformada em pó para garantir a estabilidade. Antes da aplicação, é misturada com o adjuvante (CTVad3) – um composto capaz de potencializar a resposta imunológica.

No organismo, o imunizante funciona como uma espécie de “apresentação” da proteína do parasita ao sistema imune, estimulando a produção de anticorpos capazes de reconhecer o parasita em uma futura infecção. O objetivo é impedir que o P. vivax invada as células do fígado, onde se multiplica antes de alcançar os glóbulos vermelhos e provocar os sintomas da malária.

Em estudos pré-clínicos conduzidos em camundongos e primatas, a proteína, associada ao adjuvante CTVad3, mostrou-se segura, altamente imunogênica e capaz de induzir 100% de proteção.

Soares conta que já tem um projeto aprovado pela FAPESP com o objetivo de acompanhar os dados imunológicos gerados pelos voluntários no ensaio clínico da vacina. A proposta é aplicar abordagens computacionais e de bioinformática para analisar a imunidade gerada, além de buscar desenvolver anticorpos que possam ser usados tanto na prevenção quanto no tratamento da malária vivax.

Além da Vivaxin, Soares vem trabalhando em parceria com a professora Santuza Teixeira, coordenadora do Centro de Competência em Terapia e Vacinas de RNA, ligado ao CTVacinas, em outro imunizante contra a malária vivax baseado em RNA mensageiro (mRNA). Essa tecnologia utiliza parte da sequência genética do agente infeccioso para “ensinar” o organismo a se defender.

Esse tipo de vacina funciona introduzindo um fragmento de mRNA que corresponde a uma proteína do “invasor-alvo”. O sistema imune detecta a proteína “estranha” e desencadeia a produção de anticorpos. O mRNA serve para transportar as instruções necessárias e depois é degradado pelo organismo. Esses estudos ainda estão na fase de testes em animais.

A iniciativa de desenvolver uma vacina contra o P. vivax partiu de um grupo de pesquisadores do Centro de Terapia Celular e Molecular da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da FCF-USP no início dos anos 2010, com o apoio da FAPESP e a colaboração de uma equipe internacional, com pesquisadores da Universidade de Nova York (Estados Unidos) e do Instituto Pasteur (França), entre outros.

Depois da seleção do antígeno e de testes de prova de conceito, fortaleceu-se a parceria com o CTVacinas, que, entre outras atribuições, é responsável pelo adjuvante e pelo controle de qualidade do produto final. O laboratório Cristália está produzindo os lotes que serão usados nos testes.

Por Agência de Notícias do Governo do Estado de São Paulo &#8211; Foto: Laura Mota

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