Testes mostraram que o Meta AI, disponível no WhatsApp, recusava solicitações relacionadas ao atual presidente, mas aceitava gerar artes com o nome do adversário. Comandos com o nome de Flávio entregaram uma imagem de camiseta verde com letras amarelas, funcionando apenas com o primeiro nome do candidato e bloqueando a palavra “Bolsonaro”.

No entanto, o sistema bloqueou todas as tentativas relacionadas ao candidato do PT. O aplicativo recusou pedidos contendo “Lula”, “Luiz Inácio” e até mesmo buscas com a grafia incorreta do nome do petista, como “Luís Inácio”.

Meta AI gerou imagem relacionada a Flávio Bolsonaro, mas se negou a produzir uma similar de Lula – Crédito: Olhar Digital

Para o especialista Rodrigo Almeida, relações-públicas, mestre em Gestão e Tecnologia Industrial e diretor da Agência CRIATIVOS, é difícil apontar a causa exata dessa diferença no tratamento dos nomes sem acesso aos critérios técnicos. “Uma possibilidade é que tenha ocorrido uma inconsistência na aplicação dos filtros de segurança, responsáveis por identificar e restringir determinados conteúdos”, disse o consultor em entrevista ao Olhar Digital .

Ele ressalta que o problema não aponta necessariamente para uma intenção de beneficiar algum lado, mas deixa evidente uma falha que exige esclarecimentos. “Quando uma empresa estabelece uma regra para o uso de sua tecnologia, é fundamental que ela seja aplicada de maneira consistente, especialmente em um período eleitoral”.

Meta nega viés político em suas ferramentas de IA

Em posicionamento enviado ao Olhar Digital , a Meta afirmou que proibiu temporariamente a geração de imagens de candidatos por meio de suas ferramentas de IA em cumprimento às regras eleitorais brasileiras. A empresa garantiu ainda que aprimorou os seus mecanismos de bloqueio para barrar buscas que utilizem somente o primeiro nome dos candidatos ou o número de urna.

Após a resposta da Meta, a reportagem fez um novo teste digitando “Flávio”, “PL” e “22”. O aplicativo chegou a iniciar a criação da imagem por alguns segundos, mas interrompeu o processo e bloqueou o pedido logo em seguida.

O segundo teste, feito após recebermos o retorno da Meta, mostrou bloqueio da geração com o primeiro nome de Flávio Bolsonaro – Imagem: Olhar Digital

Apesar dos ajustes, a liberação desigual reacendeu o debate sobre como falhas nos filtros de segurança podem afetar a formação de opinião pública durante a campanha. Para Almeida, o risco desse tipo de viés manipular a opinião do eleitor é real e elevado, dado o papel central das redes na forma como a população acessa informações e conhece assuntos nos dias de hoje.

Segundo o especialista, porém, mensurar o impacto direto na decisão de voto é algo complexo, pois a escolha envolve múltiplos fatores. Ainda assim, ele adverte que o risco existe porque, “quando um sistema restringe alguns conteúdos e permite outros, pode acabar interferindo nessa experiência, mesmo que isso não seja percebido por todos os usuários”.

Para o usuário que tenta identificar se os conteúdos gerados por IA no cotidiano são neutros ou orientados por vieses, Almeida orienta a não tratar as respostas automatizadas como verdades absolutas. O especialista lembra que esses sistemas podem ser incompletos e omitir pontos de vista relevantes.

Assim como ocorre no consumo de notícias jornalísticas, ele recomenda consultar fontes diversas, comparar respostas e realizar testes práticos. Uma boa estratégia é repetir a mesma pergunta alterando nomes ou elementos envolvidos para observar se há diferenças de tratamento por parte da ferramenta.

Diante da gravidade da situação, a representação jurídica da campanha de reeleição de Lula acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na quarta-feira (14) . Os advogados argumentam que o algoritmo atuou de forma nitidamente parcial e solicitaram providências urgentes para sanar as restrições, além de pedirem uma compensação proporcional pelo alcance digital e engajamento que alegam ter perdido durante o período.

A coligação governista aproveitou o momento para incluir na petição judicial outras falhas recentes associadas às plataformas da empresa, tais como oscilações bruscas nas métricas de visualização e a exclusão indevida de perfis.

As diretrizes do TSE proíbem expressamente que ferramentas de inteligência artificial recomendem candidaturas ou promovam qualquer tipo de favorecimento político-eleitoral em respostas automatizadas.

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputam o segundo turno das eleições presidenciais de 2026 – Imagem: TSE

Almeida lembra que a legislação também estabelece exigências de transparência e segurança. “Caso seja identificada alguma irregularidade, a Justiça Eleitoral pode determinar medidas para corrigir a situação e fazer cessar eventuais práticas indevidas”, explica, acrescentando que descumprimentos e infrações sujeitam as empresas a multas e outras sanções cabíveis.

A Meta, por sua vez, rebateu categoricamente as acusações de viés partidário, sustentando que os problemas técnicos foram pontuais, globais e sem qualquer intenção de interferir no pleito eleitoral.

Ministério Público Federal abre investigação sobre perfis bloqueados e suspensos

O Ministério Público Federal abriu um procedimento para apurar a atuação da Meta e do X na eleição. A investigação atende a um pedido de entidades da sociedade civil, que reuniram mais de mil denúncias de bloqueios e suspensões de contas.

As organizações acusam as plataformas de remover publicações e perfis políticos de forma arbitrária e sem transparência. Entre os afetados estão jornalistas, veículos de imprensa, estudantes e coletivos de direitos humanos.

Por causa disso, o órgão enviou um ofício dando prazo de cinco dias para as empresas explicarem cada caso. As redes sociais precisam informar se as punições ocorreram por ordem da Justiça ou por decisões dos próprios algoritmos, além de comprovar se deram espaço para os usuários se defenderem.

O post Favorecimento na IA? Como a Meta gerou uma crise política no Brasil a menos de duas semanas da eleição apareceu primeiro em Olhar Digital .