Queimadas nessa região não são incomuns nessa época do ano, mas o aumento chamou atenção de pesquisadores. “Isso não é fora do normal. Mas o que a gente tem visto é o aumento vertiginoso do número de focos depois do primeiro turno”, diz a pesquisadora Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
A Repórter Brasil esteve na região de Novo Progresso, no oeste do Pará, na semana passada, e se deparou todos os dias com a fumaça ao longo da BR-163, conhecida como “rodovia da soja”.
Nas Terras Indígenas Menkragnoti e Baú, o povo Kayapó acompanha com preocupação o avanço do fogo e do desmatamento no entorno dos territórios. Nas quatro aldeias visitadas pela reportagem, moradores disseram temer que a eleição de políticos de extrema direita deem combustível a uma parcela truculenta do agronegócio que busca avançar sobre terras indígenas e reservas ambientais.
Para o cacique Bepdjô, da aldeia Baú, Flávio irá permitir que garimpeiros entrem em seus territórios e que suas terras sejam destruídas. Ele diz que não quer que Flávio seja eleito, pela segurança de seu povo.
A reportagem também encontrou fazendeiros tentando conter focos de incêndio em suas propriedades. Um deles contou, sob anonimato, que o fogo já tinha destruído cercas e porteiras e que tinha medo de perder o gado.
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Amazonas e Pará são os estados mais afetados
Alencar cita os municípios no entorno de Manaus (AM), a região de Santarém (PA), o trecho da BR-163, a Terra do Meio e alguns municípios da Transamazônica, no Pará, como as principais regiões afetadas pelo fogo neste mês.
O fenômeno climático El Niño, que aquece as águas do Oceano Pacífico e tende a reduzir as chuvas na Amazônia, contribui para a secura da região. Segundo a pesquisadora, mapas de anomalia de seca mostram que as regiões de Santarém, de Manaus e mais ao norte, em Roraima, já enfrentam escassez hídrica importante, uma situação que deve piorar nos próximos meses.
Esse é também o período em que produtores recorrem ao fogo para queimar e renovar pastagens. “Se as pessoas estão usando fogo, isso vai ter um impacto na propagação desse fogo, então vai ter um risco muito maior de incêndios florestais”, alerta. Para a pesquisadora, é preciso reduzir o uso do fogo agora, “onde a vegetação vai estar mais suscetível”, para evitar que “a gente realmente perca o controle e isso se espalhe”.
Mas os especialistas apontam que atividades criminosas também contribuem para as atuais queimadas. “[Focos apareceram] principalmente na margem direita do rio Amazonas, bem em frente a Manaus, em áreas principalmente de floresta e em áreas públicas”, ressalta Alencar. “Isso indica um processo de ocupação, de tentativa de ocupação, de grilagem [de terras].”
O ministro interino do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, também descartou a hipótese de que o problema se resuma ao fogo que escapa de pastagens. “Não se trata apenas daquele fogo que foi colocado em pastagem e adentrou a floresta. Isso é muito comum, ocorre muitas vezes, porque o fogo vai rapidamente entrando por baixo da floresta, danificando a floresta”, afirmou. “As autoridades observaram que essa extrema gravidade se dá com a atuação criminosa na floresta amazônica, onde inúmeros focos foram identificados dentro da floresta preservada.”
Para Tarcísio Feitosa, da Coalizão Florestas e Finanças, o histórico de impunidade contribui para novos focos. “Esses eventos de queimadas e incêndios criminosos aconteceram nos anos passados também e não houve um efetivo processo de levar esses criminosos à Justiça. Ou seja, a impunidade continua reinando neste cenário.”
Colaboraram Bruna Borges e Paula Bianchi
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