Londrina aparece como um exemplo dessa virada e registrou, em 2024, o maior VGV, Valor Geral de Vendas, de sua história com R$ 3,3 bilhões em lançamentos imobiliários, R$ 1 bilhão a mais que no ano anterior, ocupando a 13ª posição do Índice de Demanda Imobiliária Nacional, no segmento econômico. Os dados são da BRAIN Inteligência Estratégica. Outro número importante a se considerar é o valor do metro quadrado médio na cidade, que valorizou 6,86% em 12 meses.
Para o economista Emerson Esteves, da Universidade Estadual de Londrina, o desenvolvimento imobiliário está ligado ao agronegócio. “Londrina é um polo regional para as áreas de serviço, educação e saúde, tem renda maior que municípios da região e absorve a renda do agronegócio. A cidade tem uma relevância na área de condomínios, diferente de outras cidades que não tem espaço para crescer”, explica.
Londrina tem “boom” imobiliário e segue a tendência nacional de moradias cada vez menores.
Economia aquecida e polo regional
Londrina, com seus 580 mil habitantes e principal economia do interior do Paraná, registrou PIB de R$ 28 bilhões em 2023, o quarto maior do estado, segundo o IBGE. O mercado de trabalho também mantém uma trajetória positiva, já que em 2025 foi o município que mais gerou empregos formais no interior do Sul do país, e, no primeiro semestre deste ano, a cidade já acumulou um saldo de 4.215 novos empregos formais, segundo o Caged, Cadastro Geral de Empregados e Desempregados. Isto mostra que a cidade reúne características mais associadas a capitais como Curitiba, que favorecem o desenvolvimento econômico e colocam a região no “boom” imobiliário seguindo a tendência nacional de moradias cada vez menores.
O Censo 2022 do IBGE mostrou que os domicílios onde mora uma só pessoa passaram de 12,2% para 18,9% dos lares brasileiros, em doze anos. Entre os brasileiros de 25 a 39 anos, a faixa que mais movimenta o mercado de trabalho, a proporção de quem mora sozinho quase dobrou, de 8,3% para 13,4%. Mas, além deste dado estatístico geral, que aponta uma mudança no comportamento do brasileiro e também na forma como ele investe em imóveis, Londrina tem características específicas que norteiam a procura por apartamentos compactos.
A cidade é um polo universitário com cerca de 25 mil estudantes universitários espalhados por dez instituições de ensino, uma população que se renova a cada ano. Londrina tem também um calendário forte de eventos, principalmente nos segmentos do agronegócio, como a ExpoLondrina, que é uma das maiores feiras agropecuárias da América Latina e atrai milhares de visitantes e expositores. Outros segmentos que atraem não apenas executivos, mas pesquisadores e profissionais especializados para a cidade são o de tecnologia e o de saúde. Londrina é tradicionalmente reconhecida como polo regional em saúde, com clínicas e hospitais de ponta, e, recentemente, ganhou ainda mais relevância com a inauguração de um novo hospital, na zona sul da cidade. Toda esta população, flutuante ou não, precisa de acomodação apropriada.
Studios entram na conta da lotação máxima
Só este ano, a rede hoteleira da cidade já bateu lotação máxima pelo menos quatro vezes com a vinda de eventos esportivos nacionais, festivais de teatro, música e dança e a Expolondrina. O aperto na hospedagem tem um componente estrutural. Londrina não recebe a entrega de um hotel construído do zero desde 2014. A rede formal soma cerca de 5 mil leitos em 37 hotéis, segundo o Convention Bureau, número que sobe para cerca de 8 mil quando se somam flats, pousadas e locações de curta duração, conforme dados do Sindhotéis Londrina.
A cidade também tem um déficit de moradias específicas para temporada, principalmente de apartamentos de um dormitório.
Londrina, com seus 580 mil habitantes, teria que ter cerca de 3 mil imóveis para este fim, mas possui hoje menos da metade e, dos que existem, grande parte é adaptada, ainda longe dos padrões exigidos pelos clientes que procuraram esse tipo de moradia flutuante. Com esta demanda, o formato de studio, voltado a investimento, começa a despontar em Londrina. Em 2026, a Gleba Palhano recebeu dois lançamentos, que devem ficar prontos em 2029.
A AVIV Construtora e Incorporadora prepara para a região do Terra Bonita, próximo ao Shopping Catuaí, um empreendimento de uso misto, o Harbor 360º, com 256 studios e 27 lojas comerciais no térreo, sobreloja e andar intermediário.
A proposta do empreendimento é concentrar moradia, serviços, lazer e comércio no mesmo endereço.
O Terra Bonita é considerado hoje um dos bairros com a maior perspectiva de valorização de Londrina, principalmente pela conexão com centros médicos, universidades, centros de compras e rodovias. Pressionada pela sequência de novidades, a região recebeu recentemente a duplicação da Av. Otavio Genta, a vinda de mais de 30 condomínios horizontais na região sul de Londrina e a forte expansão anunciada pelo grupo Catuaí, a região promete se consolidar pela oferta dos serviços de lazer e gastronomia do entorno.
Para Felipe Rossetto, CEO da AVIV, o movimento que acontece em Curitiba e agora em Londrina reflete uma mudança real na forma como as pessoas usam a cidade. "Londrina tem os mesmos ingredientes que fizeram o compacto crescer na capital do estado: população universitária, polo de eventos e negócios e um mercado de locação de curta e média duração cada vez mais organizado. Estamos preparando um produto que responde a essa demanda em uma região que ainda não tinha esse tipo de oferta", afirma.
Impacto da economia no comportamento do comprador
Desde 2022, a Selic, que é a taxa básica de juros da economia brasileira, definida pelo Banco Central para ajudar a controlar a inflação, está alta, acima dos dois dígitos, o que influencia diretamente no mercado imobiliário. Em junho deste ano, caiu de 15% para 14,25% ao ano, mas ainda está longe do ideal para garantir financiamentos mais baratos, e esta também é uma das razões que fazem o comprador investir em imóveis de menor valor, como os compactos. O indicador que passa a pesar na escolha é o lifetime value, valor que o imóvel gera ao longo de toda a sua vida útil, somando renda decorrente de locação, ocupação média, custo de manutenção e valorização no momento da saída. Os apartamentos de um dormitório, além de custarem menos, garantem maior valorização e, principalmente, rentabilidade nestes períodos.
A expectativa para os próximos meses é de que a taxa Selic continue em queda. Mesmo que haja uma variação de 1%, isso já representa um grande impacto no poder de compra. De acordo com a Abrainc, Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias, uma redução de um ponto percentual pode recolocar aproximadamente 160 mil famílias em condições de acessar, de forma mais abrangente, o crédito habitacional e aquecer ainda mais o mercado de imóveis.

