A queda nas ações e o aumento do rendimento dos títulos de dívida da empresa avaliada em US$39 bilhões e que é apoiada pela Nvidia, ocorreu ‌depois que resultados do terceiro trimestre de grandes empresas de tecnologia sugeriram atrasos em projetos de data centers e um ritmo mais lento de crescimento nos investimentos em IA.

Investidores voltaram suas atenções para as empresas de computação em nuvem baseadas em IA, ou “neoclouds”, como a CoreWeave, possivelmente os elos mais fracos do ecossistema de IA devido ao fato de que essas empresas ‌recorrem fortemente a empréstimos para financiar compra de chips, terrenos e energia para suas instalações que só gerarão receita no futuro.

As ações da CoreWeave despencaram mais de 15% nesta semana, enquanto os rendimentos de seus títulos com vencimento em 2030 saltaram 500 pontos-base, chegando a cerca de 16%.

O presidente-executivo da CoreWeave, Mike Intrator, disse aos funcionários em memorando visto pela Reuters que os mercados às vezes podem “interpretar mal e agir de forma irracional” e que a empresa possui uma sólida carteira de pedidos. A empresa não respondeu a pedidos de comentário da Reuters.

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Os investidores concentraram-se, em vez disso, na dívida de US$50 bilhões da CoreWeave e nos riscos da companhia ficar presa no meio de um esquema de financiamento circular entre fabricantes de chips, como a Nvidia, e clientes como Meta e OpenAI.

“O ⁠problema com ‌tudo isso é que estamos falando de uma enorme interconectividade, não apenas do financiamento circular, mas do fato de que esses ativos são todos mantidos nos mesmos lugares, nas mesmas carteiras, pelos ⁠mesmos tipos de investidores”, disse James Athey, gestor de carteiras de renda fixa da Marlborough.

“E a alavancagem é sempre aquele fator que transforma uma tempestade em um copo d’água em algo mais nefasto”, disse ele, referindo-se de maneira geral ao nervosismo em torno da IA.

Empresas como CoreWeave, Nebius, Applied Digital, Iren, Lambda Labs, Crusoe e TeraWulf estão construindo data centers que consomem muita energia e que, eventualmente, poderão ser alugados para empresas que desenvolvem e operam modelos de IA. Isso exige um investimento inicial maciço e gera muito pouca receita até que os contratos de locação comecem.

A CoreWeave nunca registrou lucro, de acordo com dados compilados pela LSEG.

O presidente da CoreWeave também afirmou no memorando que a carteira de ​negócios em andamento cobre amplamente as obrigações de dívida da companhia. A empresa tinha uma carteira de receitas de US$104,2 bilhões no final do segundo trimestre, seguida por mais de US$25 bilhões em novos compromissos no início do terceiro trimestre.

Mas a companhia sediada em Nova Jersey está queimando caixa mais rápido do que os investidores gostariam. Em 2025, a ​CoreWeave teve receita anual de US$5,1 bilhões e prejuízo líquido de US$1,2 bilhão.

Embora se espere que a receita da CoreWeave dobre este ano, o mercado calcula que os investimentos da empresa vão quadruplicar, ficando entre US$35 bilhões e US$39 bilhões, levando a um consumo de caixa ainda maior neste ano. A notícia de que Intrator e entidades ligadas a ela venderam quase US$1 bilhão em ações desde a abertura de capital da empresa em março do ano passado, principalmente por meio de planos de negociação pré-acordados, conforme documentos regulatórios, não ajudou em nada a companhia.

“É claro que eles precisarão de uma injeção de capital ou de um resgate financeiro. Estão queimando capital, e o capital não é mais de graça”, disse Alberto Gallo, fundador do fundo de hedge ‌Andromeda Capital.

“Você quer comprar dívida de empresas que tenham fluxo de caixa visível, normalmente como investidor em títulos de dívida, e ​não de alguém que está realizando investimentos em ativos fixos, na esperança de que haja necessidade de mais investimentos no futuro”, disse Gallo, cuja empresa mantém posições vendidas contra os títulos da CoreWeave.

A CoreWeave está no topo da lista de cerca de 100 “neoclouds” que, segundo a empresa de pesquisa de mercado Gartner, são “as mais expostas ao desequilíbrio entre receita e investimentos” e precisam gerar retornos em breve para sustentar suas operações.

A Gartner prevê que até ⁠2030, 80% dos provedores de “neocloud” encerrarão operações independentes.

“Estamos em uma situação em que há ​muitas expectativas em relação às receitas e ao ​crescimento das receitas, mas esse crescimento está sendo alimentado pelo tipo errado de capital, que é a dívida, e não o patrimônio líquido”, disse Tommaso Leodari, diretor de investimentos do fundo de hedge Index & Cie, com sede em Dubai. O ⁠fundo não detém participações em empresas exclusivamente de IA.

“No caso específico da CoreWeave, esses caras estão financiando ​todo o seu negócio com dívida. Portanto, se algo acontecer na utilização desse ativo específico ou se houver uma desaceleração na construção desses data centers, isso se refletirá em problemas no pagamento da dívida.”

Uma série de alertas de gigantes da IA, como Microsoft e Oracle Corp, sobre atrasos em projetos de data centers, gargalos no fornecimento de energia e componentes, um excesso de oferta de chips sofisticados, juntamente com os planos de gigantes ​como Meta e Microsoft de lançar seus próprios microprocessadores para rivalizar com os da Nvidia, também alimentaram preocupações sobre as “neoclouds”.

O ritmo de crescimento da receita de gigantes da IA, como OpenAI e Anthropic, embora ainda rápido, também diminuiu.

“Mesmo com uma receita de US$10 bilhões, a CoreWeave está tendo um prejuízo de US$2,5 bilhões, ​portanto, ainda não há efeitos de escala evidentes no setor”, ⁠escreveu Michael Frazis, da Frazis Capital Partners, com sede em Sydney.

A CoreWeave conta com o apoio da Nvidia. A gigante dos chips fez acordo para comprar a capacidade computacional não vendida da CoreWeave até abril de 2032, garantindo que a empresa terá ⁠um comprador para a capacidade não vendida aos clientes.

As agências de recomendação de risco classificam a dívida da CoreWeave como de grau especulativo; no entanto, Sean Cray, vice-presidente da Moody’s Ratings, destacou que a empresa não compra chips de forma especulativa e possui múltiplas fontes de financiamento.

Originalmente uma mineradora de bitcoin, a CoreWeave ainda tem sido um alvo fácil para especuladores, e os fundos de hedge vêm comprando seus títulos com recomendação de risco para obter alto rendimento. O custo do seguro contra inadimplência de sua dívida subiu para cerca de 1.200 pontos-base nesta semana, sinalizando graves dificuldades.

“A liquidação do crédito da CoreWeave corre o risco de se tornar uma profecia autorrealizável”, escreveu Saurav Sen, da empresa de pesquisa Gimme Credit. “A preocupação não é tanto se os clientes querem a capacidade, mas se a CoreWeave tem condições financeiras para ​fornecê-la.”

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