Enquanto isso, a concorrente Marvel Studios marcou a cultura pop com os filmes dos Vingadores e acumulou sucessos de bilheteria com personagens como Pantera Negra , Thor , Homem de Ferro e Homem-Aranha . Diante desse cenário, a Warner Bros. Discovery decidiu engavetar o antigo universo e recomeçar. Para a tarefa, contratou Gunn e Safran como copresidentes e diretores executivos da DC Studios .

Desde o começo, a dupla prometeu levar às telas a mesma diversidade de gêneros narrativos presente nos quadrinhos da DC — e vem cumprindo. Até o momento, o novo universo já passou por Comando das Criaturas (2024–), Superman (2025), a segunda temporada de Pacificador (2025), Lanternas , na HBO , e Supergirl (2026) — lembra da ópera espacial que citei anteriormente?

A vez do terror

Não é segredo que o terror virou um dos novos queridinhos da cultura pop. O gênero tem conquistado cada vez mais espaço tanto nas bilheterias quanto nas grandes premiações. Se Lupita Nyong’o , em Nós (2019), e Mia Goth , em Pearl (2023), foram esnobadas por suas atuações impecáveis, produções como A Substância (2024) e Pecadores (2025) foram reconhecidas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas com cinco e 16 indicações ao Oscar , respectivamente. Já em 2026, Obsessão se tornou a maior bilheteria de um terror original do século, enquanto Backrooms: Um Não-Lugar virou o filme de maior arrecadação da A24 , tanto nos Estados Unidos quanto ao redor do mundo.

Então, nada mais justo do que a DC também embarcar nesse universo com Cara-de-Barro , que estreia nos cinemas brasileiros em 22 de outubro. Em entrevista à Rolling Stone Brasil cerca de dois meses antes do lançamento oficial, o diretor James Watkins ( Não Fale o Mal , 2024) e Tom Rhys Harries , intérprete do protagonista Matt Hagen , falaram sobre essa nova onda do horror e revelaram detalhes da produção, desde o estudo psicológico e a transformação física do personagem até o amplo uso de efeitos práticos e a busca por uma Gotham City no mundo real. Sem spoilers, claro!

“Existe algo muito puro na experiência de assistir a um filme de terror, que permite que você sinta aquele arrepio do medo”, afirmou Watkins sobre o que mais o interessa no gênero. “[ Filmes como A Substância, Obsessão e Backrooms ] não funcionam simplesmente de maneira mecânica. Não se resumem a jump scares ou a alguém aparecendo para assustar você. Eles falam sobre e dramatizam um pouco das ansiedades e dos medos do mundo moderno.”

Já Harries celebrou o destaque do horror na cultura mainstream enquanto o mundo parece mais assustador do que jamais foi: “Acho fascinante que as pessoas sejam atraídas pelo terror como uma forma de escapismo subvertido. É um veículo para contar histórias realmente empolgantes”.

Apesar de ser uma novidade para a DC nas telonas, este é um gênero com o qual Watkins já está habituado. Ele comandou o remake de Não Fale o Mal , com James McAvoy no elenco e lançado em 2024, e A Mulher de Preto (2012), estrelado por Daniel Radcliffe . Em nossa conversa, o diretor explicou que fica cada vez mais interessado em mergulhar profundamente nos aspectos psicológicos dos personagens.

“Foi algo que realmente tentei explorar em Não Fale o Mal e que procurei levar adiante na jornada de Matt Hagen , na maneira como ele interage com o mundo e no que acontece com ele”, revelou.

‹‹Acho fascinante que as pessoas sejam atraídas pelo terror como uma forma de escapismo subvertido. É um veículo para contar histórias realmente empolgantes››

(Tom Rhys Harries)

Matt Hagen, interpretado por Tom Rhys Harries, sofre com transformações físicas em Cara-de-Barro (Foto: Warner Bros. Pictures)

Gotham na vida real

Independentemente do protagonista, os filmes do Batverso precisam que Gotham seja um personagem em si, com sua estética, ecossistema, clima e brutalidade que só uma metrópole distópica pode proporcionar. Isso foi um destaque em Batman (2022) e Coringa (2019), por exemplo. Cara-de-Barro deve ter o mesmo efeito, visto que as filmagens ocorreram na chuvosa Liverpool, além de a equipe ter se inspirado na Nova York das décadas de 1970, 1980 e 1990 durante a pré-produção.

James Watkins escolheu Liverpool como cenário por conta de sua arquitetura e dos paralelos que enxergou entre a cidade inglesa e Nova York. A escolha de usar a menor quantidade de computação gráfica (CGI) possível também ajudou a construir essa atmosfera.

“Tentamos criar uma determinada sensação com a luz. Liverpool nos proporcionou uma iluminação muito boa, que Rob [ Hardy, diretor de fotografia ] conseguiu complementar usando luzes de tungstênio”, detalhou. “Havia uma vibe muito particular, mas também um pouco decadente, excêntrica e suja. Então, criamos essas características dentro da nossa Liverpool.”

Tom Rhys Harries , por sua vez, recordou que os cenários elaborados, com poucas telas verdes, o ajudaram a se ambientar e se sentir realmente dentro da cena: “Eu caminhava pelas ruas e encontrava pequenos panfletos que tinham sido deixados como parte do cenário. O nível de detalhe a que eles chegaram é extraordinário. Tudo isso contribui para essa sensação de imersão. Ou então você vê um carro da polícia de Gotham passando rapidamente por você. É muito legal”.

Recentemente, com A Odisseia (2026), Christopher Nolan foi amplamente elogiado por público e crítica especializada por sua iniciativa de evitar telas verdes e CGI, tornando a experiência dos espectadores mais completa e imersiva. Watkins usou este exemplo para defender que os efeitos práticos estão voltando a ganhar força em Hollywood .

“Em A Odisseia , quando eles são perseguidos pelo Ciclope descendo a encosta e você apenas vislumbra a criatura. Aquilo é ótimo. Nolan é um cineasta muito inteligente e entende que você não precisa mostrar tudo”, opinou o diretor, que também explicou como foi traduzir a linguagem fantasiosa em um live-action dramático.

‹‹O mundo de Gotham é fantástico, mas também queríamos mantê-lo pé no chão, real e contar a história de apenas uma pessoa. Não é um filme de super-herói gigantesco e maluco. É algo muito mais próximo do personagem, e acho isso realmente interessante››

Terror psicológico e efeitos práticos

Descrita como thriller de terror, a trama de Cara-de-Barro mostra o declínio de uma estrela de Hollywood em ascensão a um monstro deformado após ser mutilado por um chefão do crime e seus capangas. Abandonado por sua equipe, ele busca um tratamento-milagre para recuperar sua antiga aparência. Claro, por se tratar de uma história baseada em HQs, ele ganha poderes que não consegue controlar e tudo desanda novamente.

Com essa premissa, perguntei a Harries como foi, para ele, um ator, interpretar alguém da mesma profissão em uma história que pode provocar discussões sobre a própria indústria e padrões de beleza. “Você poderia acabar se enrolando completamente pensando nisso, não é? Foi algo em que tentei ativamente não mergulhar demais”, respondeu. “Dentro das circunstâncias do filme, sou Matt , tentando viver e sobreviver naquele mundo brutal. Se isso for algo que ressoe com o público ou pareça pertinente para as pessoas, tenho certeza de que elas vão dizer.”

Além da aparente transformação física do protagonista, o longa também mostra os intensos conflitos psicológicos provocados pelo que Matt enfrenta. Como James Watkins explicou, esses dois elementos estão alinhados: “Trabalhamos bastante para entender qual era o estado emocional dele e como isso influenciava aquilo que ele se torna”.

Já o ator disse que uma coisa influencia a outra e, a partir de determinado momento, se torna quase transmutável. A dificuldade estava também em acompanhar essa deterioração durante uma gravação que, como de costume no cinema, não seguia a cronologia do roteiro.

‹‹Acompanhar essa progressão foi um verdadeiro desafio, porque raramente filmamos em ordem cronológica. Precisava conhecer o texto o máximo possível para conseguir entrar nesses diferentes estados do personagem››

(Tom Rhys Harries)

O que ajudou a manter a atuação crível foram justamente os efeitos práticos e as próteses, que davam a Harries uma noção mais concreta do que estava acontecendo com Matt para além do texto do roteiro.

“Até certo ponto, eu sentia aquilo que Matt estaria vivenciando em termos de suas limitações físicas. Isso se tornou um exercício de superar esses obstáculos ou encontrar algo conflitante — esse é o espaço mais interessante para um ator ocupar”, comentou Harries , cujo trabalho no filme exigiu muito fisicamente.

“No final das filmagens, eu estava completamente esgotado. Dei tudo o que podia para esse filme. E tenho muito orgulho do trabalho que todos colocaram nele”, enfatizou.

+++LEIA MAIS: Como uma festa de coquetel em 1972 nos deu o melhor documentário de 2026

Rolling Stone Brasil — especial Robbie Williams

Este texto faz parte da da edição de outubro da Rolling Stone Brasil , com Robbie Williams na capa! Em entrevista como antecipação ao seu show no próximo dia 13 no Nubank Parque, em São Paulo, realizado pela 30e , o músico fala sobre o retorno ao Brasil após 20 anos, seu novo álbum Britpop , a parceria com Tony Iommi , a homenagem a Morrissey e as lições de mais de três décadas na indústria da música. Edição em pré-venda no site Loja Perfil .

O post A DC chega ao terror com Cara-de-Barro: ‘Escapismo subvertido’ apareceu primeiro em Rolling Stone Brasil .