A medida busca reduzir os riscos provocados por esses ajustes em computadores, redes de comunicação, sistemas de navegação por satélite e serviços financeiros. O mecanismo será descontinuado após décadas de utilização, em mudança que afeta a maneira como a humanidade coordena a medição do tempo .
Segundo o Nature , a decisão também está relacionada à possibilidade de ser necessário aplicar um segundo bissexto negativo, algo que nunca foi feito. Nesse cenário, em vez de acrescentar um segundo ao relógio, seria necessário retirar um, o que poderia provocar dificuldades adicionais em sistemas digitais.
Por que precisamos de um segundo bissexto?
A explicação começa com uma diferença fundamental: o tempo medido por relógios atômicos não é exatamente igual ao tempo determinado pela rotação da Terra ;
Os relógios atômicos medem o tempo a partir de fenômenos físicos extremamente regulares. A definição internacional do segundo, estabelecida em 1967, utiliza uma frequência específica associada ao átomo de césio-133. Um segundo corresponde a 9.192.631.770 períodos da radiação relacionada a uma transição entre dois níveis de energia desse átomo;
A rotação da Terra, por outro lado, não ocorre em velocidade perfeitamente constante. Embora estejamos acostumados a considerar que o planeta completa uma volta em aproximadamente 24 horas, a duração exata do dia varia;
A atração gravitacional da Lua, por exemplo, exerce efeito de maré que contribui para desacelerar a rotação terrestre ao longo do tempo. Outros fenômenos também interferem nessa dinâmica, tornando impossível tratar a duração do dia astronômico como uma constante absoluta;
Para entender a diferença, imagine dois relógios: um acompanha a passagem do tempo com base em oscilações atômicas extremamente estáveis; o outro representa a relação entre o tempo e a posição aparente do Sol no céu. Ao longo dos dias, pequenas diferenças podem se acumular;
É para administrar essa discrepância que existe o segundo bissexto.
Como funciona o ajuste?
O Tempo Universal Coordenado (UTC, na sigla em inglês) é a principal referência internacional para sincronizar relógios e sistemas. Ele serve de base para aplicações que vão de telecomunicações e navegação por satélite a transações financeiras e infraestrutura digital.
Desde 1972, o sistema utiliza segundos bissextos para manter o UTC próximo do tempo determinado pela rotação terrestre, conhecido como UT1.
Quando a diferença entre as duas referências se aproxima do limite estabelecido, um segundo pode ser acrescentado ao UTC. Em vez de a sequência dos relógios passar diretamente de 23h59min59s para meia-noite, ela inclui um segundo adicional: 23h59min60s.
O último segundo bissexto foi acrescentado em 31 de dezembro de 2016. Desde então, não houve novos ajustes desse tipo.
O problema é que sistemas computacionais nem sempre lidam bem com essa alteração. Programas e serviços podem interpretar o segundo adicional de maneiras diferentes, provocando inconsistências na sincronização de horários e falhas operacionais.
A situação seria ainda mais delicada caso fosse necessário fazer o ajuste inverso, retirando um segundo. Isso exigiria que sistemas preparados para uma sequência contínua de tempo lidassem com uma correção inédita.
Por que os cientistas decidiram acabar com o segundo bissexto?
A preocupação com os riscos tecnológicos já vinha sendo discutida internacionalmente. Em 2022, a Conferência Geral de Pesos e Medidas decidiu ampliar, até 2035, o limite permitido para a diferença entre o UTC e o tempo determinado pela rotação terrestre. A decisão de outubro de 2026 antecipou a mudança.
A nova regra permite que essa diferença chegue a 3.600 segundos, ou uma hora, sem que seja necessário inserir segundos bissextos. O UTC passará a funcionar de maneira contínua a partir de 20 de maio de 2027.
De acordo com o Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM), a coordenação internacional do tempo é essencial para manter sistemas de navegação, telecomunicações, infraestrutura digital e transações financeiras operando com uma referência comum.
Segundo bissexto era um ajuste utilizado para manter o tempo oficial sincronizado com a rotação da Terra – Imagem: gerado com IA/Olhar Digital
A alteração busca justamente reduzir a necessidade de ajustes irregulares que podem gerar comportamentos inesperados em sistemas tecnológicos.
Isso não significa que os relógios atômicos deixarão de funcionar ou que os cientistas perderão a capacidade de acompanhar a rotação terrestre. O que muda é a maneira como as duas referências serão conciliadas no padrão internacional de tempo.
NASA testa módulo que levará equipamentos ao polo sul da Lua
A viagem até Saturno que terminou com um feito inédito: o primeiro pouso em uma lua do Sistema Solar exterior
A Lua está encolhendo? Novo estudo aponta impactos e velocidade do fenômeno
A Terra está girando mais rápido?
Há outro detalhe que ajuda a explicar por que o tema voltou ao centro das discussões: a rotação terrestre apresentou períodos de aceleração nos últimos anos.
Historicamente, a influência das marés provocadas pela Lua contribui para desacelerar a rotação da Terra. No entanto, desde 2020, medições indicaram períodos em que o planeta girou mais rapidamente do que o esperado.
Segundo o Laboratório de Tempo e Espaço do Observatório de Paris, as causas desse comportamento ainda não são conhecidas com certeza. Uma das hipóteses envolve movimentos internos do núcleo terrestre, cuja dinâmica permanece pouco compreendida.
Caso a tendência de aceleração persistisse, poderia surgir a necessidade de um segundo bissexto negativo entre 2030 e 2035. Isso significaria retirar um segundo do UTC, algo que nunca foi implementado na prática.
A possibilidade aumentou a preocupação com os efeitos de uma correção inédita sobre infraestruturas que dependem de horários precisos.
O que muda na prática?
Para a maioria das pessoas, a decisão não provocará uma alteração perceptível na rotina. Relógios de pulso, celulares e computadores continuarão indicando as horas normalmente.
O impacto está principalmente na infraestrutura que precisa manter uma referência de tempo consistente em escala global. Sistemas de telecomunicações, redes de computadores, serviços bancários, navegação por satélite e instalações científicas dependem de sincronização precisa para funcionar corretamente.
A mudança também não elimina a necessidade de acompanhar a rotação terrestre. Astrônomos e pesquisadores continuarão utilizando medições específicas para determinar a posição e o movimento do planeta. A diferença é que o UTC poderá se afastar gradualmente do tempo astronômico, sem correções de um segundo.
Segundo o BIPM, o limite de uma hora permitirá manter a continuidade do padrão internacional durante vários séculos. Isso transfere para o futuro a discussão sobre como lidar com a diferença acumulada entre o tempo atômico e a rotação da Terra.
A decisão marca, portanto, uma mudança importante na metrologia: em vez de corrigir continuamente o relógio oficial para acompanhar as pequenas variações do planeta, o sistema internacional priorizará uma referência contínua, mais adequada às exigências da infraestrutura tecnológica moderna.
O post Cientistas aprovam fim do “segundo bissexto” e mudam como o mundo marca o tempo apareceu primeiro em Olhar Digital .

