# Mais caro transportar a alface do que comprar a alface: o novo choque nos EUA

- Seção: Economia
- Fonte: InfoMoney (https://www.infomoney.com.br/business/global/mais-caro-transportar-a-alface-do-que-comprar-a-alface-o-novo-choque-nos-eua/)
- Publicado em: 2026-10-17T08:00:00.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1220868-mais-caro-transportar-a-alface-do-que-comprar-a-alface-o-novo-choque-nos-eua

> O mais recente salto nos preços dos combustíveis é mais difícil de absorver do que o registrado no início deste ano, já que empresas e consumidores têm menos capacidade para suportar o choque, enquanto novos dados de preços mostram que a…

Embora os preços do petróleo bruto tenham se moderado parcialmente apesar da recente escalada da guerra com o Irã, limitações nas refinarias mantiveram elevados os custos da gasolina e do diesel. O preço médio do diesel atingiu US$ 6,30 por galão na quarta-feira, cerca de 68% acima do nível registrado antes do conflito com o Irã, segundo a AAA. E como o diesel é especialmente importante como combustível industrial usado na manufatura, na agricultura e no transporte, sua alta de preços se espalhou por diversos setores.

O índice de preços ao consumidor divulgado pelo Departamento do Trabalho mostrou que a inflação subjacente subiu para 2,6% em setembro, ante 2,4% em agosto, sinalizando que empresas estão repassando mais custos aos consumidores. Ao mesmo tempo, o relatório de vendas no varejo mostrou que os gastos básicos, excluindo postos de gasolina, avançaram apenas 0,2%, à medida que os combustíveis passaram a consumir uma parcela maior do orçamento das famílias.

Essas tendências foram corroboradas pelo mais recente Livro Bege do Federal Reserve, levantamento sobre as condições econômicas e empresariais dos Estados Unidos, repleto de alertas sobre os impactos dos preços mais altos dos combustíveis em todo o país.

O relatório mostrou que não apenas mais sobretaxas de combustível estão surgindo ao longo das cadeias de suprimentos, mas também que as margens de lucro estão sendo comprimidas e os consumidores estão reduzindo gastos para compensar os custos mais elevados nos postos.

O Federal Reserve de Nova York informou que um fabricante de alimentos não via pressões inflacionárias tão amplas desde a pandemia. Já o Federal Reserve de São Francisco destacou que um fabricante reclamou que praticamente todo material comprado nas últimas semanas veio acompanhado de uma sobretaxa de frete.

O Federal Reserve de Boston observou que contratos de transporte ainda vigentes ajudaram a segurar os preços de produtos agrícolas, mas alertou que os custos podem disparar quando esses contratos forem renegociados. Da mesma forma, o Federal Reserve da Filadélfia apontou que o vencimento de mecanismos de proteção contra oscilações de custos deu aos fabricantes maior poder para repassar aumentos aos consumidores.

“Os custos mais altos de combustíveis continuaram sendo o principal fator de pressão e vários entrevistados observaram que esses custos estão se espalhando para frete, embalagens e materiais derivados de petróleo”, afirmou o Federal Reserve de Cleveland no Livro Bege, acrescentando que um construtor classificou os custos elevados dos combustíveis e as tarifas como um “duplo golpe”.

Os gastos dos consumidores na região do Federal Reserve de Cleveland ficaram estáveis após quatro períodos consecutivos de queda, com varejistas de diversos setores atribuindo o ritmo fraco da atividade aos altos preços dos combustíveis. Nem todas as regiões registraram retração. A maioria relatou pouca ou nenhuma mudança nos gastos dos consumidores, e o Federal Reserve de Richmond informou que houve crescimento moderado em sua área de atuação.

Embora as transportadoras estejam cobrando mais, elas também estão absorvendo parte dos aumentos. O Federal Reserve de Richmond afirmou que empresas de transporte tiveram dificuldades para manter a rentabilidade após a alta do diesel, já que haviam firmado contratos com valores fixos. Para compensar os custos, muitas recorreram a reservas financeiras, reduziram gastos com manutenção ou suspenderam compras de caminhões mais eficientes.

Outra empresa consultada pelo Fed de Richmond relatou como o aumento dos combustíveis alterou drasticamente sua estrutura de custos.

“Uma rede regional de supermercados observou que, com os preços do diesel subindo 30% desde o ano passado, agora paga mais para transportar uma alface da Califórnia do que pelo valor da própria alface”, diz o Livro Bege. “Ao mesmo tempo, a empresa destacou a extrema sensibilidade dos consumidores a preços e sua incapacidade de repassar os custos crescentes do transporte.”

A volatilidade dos combustíveis também tem sido um problema. O Federal Reserve de Minneapolis informou que uma empresa madeireira de Montana relatou que seus custos de combustível mais que dobraram em um contrato assinado há alguns meses.

O Federal Reserve de Kansas City afirmou que os custos mais altos do diesel obrigaram fornecedores, distribuidores e clientes a renegociar contratos para proteger margens de lucro. A maioria das empresas da região acredita que a demanda enfraquecerá ainda mais se os preços permanecerem elevados.

Algumas regiões também registraram sinais de pressão na oferta. O Fed de Kansas City informou que vários contatos no interior do Colorado relataram “escassez intermitente de diesel em postos de combustíveis nas últimas semanas”, levando alguns compradores a antecipar entregas para garantir abastecimento.

O aumento dos gastos com combustíveis também está se espalhando para o mercado de trabalho, à medida que trabalhadores passam a exigir salários mais altos, potencialmente alimentando um novo ciclo inflacionário.

O Federal Reserve de Cleveland informou que várias empresas concederam reajustes salariais devido ao aumento do custo de vida, especialmente com gasolina e eletricidade. Já entrevistados do Federal Reserve de São Francisco relataram que funcionários têm pedido, e em alguns casos recebido, aumentos salariais para compensar os maiores gastos com combustíveis e alimentação.

“O preço mais alto do diesel foi, de longe, o fator mais citado para explicar o aumento dos custos, impactando fretes, agricultura e passagens aéreas, além de provocar ampla compressão de margens em diversos setores”, afirmou o Federal Reserve de Dallas.

Embora os consumidores tenham demonstrado surpreendente resiliência diante das tarifas impostas pelo presidente Donald Trump e da guerra com o Irã, eles perderam um importante amortecedor financeiro.

Quando os preços da gasolina subiram na primavera, após o início da guerra com o Irã, os americanos ainda estavam recebendo restituições de impostos impulsionadas pelo pacote fiscal aprovado no ano anterior. Agora, porém, com o conflito entrando em seu oitavo mês e sem perspectiva de encerramento, além de uma nova alta dos combustíveis, os consumidores já não contam com essa rede de proteção.

“Os preços mais altos da gasolina estão começando a pesar porque, ao contrário do que ocorreu no início do ano, desta vez não existe compensação vinda da política fiscal”, escreveu Michael Pearce, economista-chefe para os Estados Unidos da Oxford Economics, em nota divulgada na quinta-feira. “Estimamos que o gasto adicional acumulado com gasolina neste ano já supera o aumento das restituições de impostos em comparação com o ano passado.”

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