A Federação diz que o atual estágio significa que, para cada 100 vagas formais abertas no varejo do Estado no último ano, 63 delas tiveram que passar por alguma mudança. Em 2022, essa taxa era de 51%.

A FecomercioSP explica que esse dado acende um alerta para as varejistas porque trata-se de um custo direto às empresas. “Quanto maior a rotatividade, mais gastos com rescisões (aviso-prévio, FGTS, multas), com novas contratações (divulgação, triagem, exames) ou com os treinamentos iniciais dos novos funcionários”, diz artigo publicado no boletim deste mês do Panorama do Comércio.

Outro alerta destacado é o custo invisível embutido no período pelo qual esses contratados precisam passar até atingir sua produtividade plena. Costuma demorar, nos melhores casos, mais de um mês, segundo a Federação.

Em alguns segmentos que dependam do relacionamento mais intenso com clientes — como farmácias, lojas ou supermercados de bairro –, há ainda um outro efeito nocivo: a perda do vínculo entre o vendedor e o consumidor, que, no fim, atinge a fidelização — conceito fundamental para o varejo nos dias de hoje.

Veja a rotatividade por segmento do varejo

ATIVIDADE 2022 2023 2024 2025 2026 Autopeças e acessórios 38% 42,8% 42,7% 44,2% 46,1% Concessionárias de veículos 32% 37,9% 36,4% 40% 42,6% Farmácias e perfumarias 47,7% 53,2% 52% 55,1% 58% Eletrodomésticos, eletrônicos e lojas de departamentos 51% 57,8% 58,3% 59,8% 61,5% Materiais de construção 43,7% 50,1% 48,5% 50% 48,9% Móveis e decoração 56% 60,7% 57,1% 56,8% 56% Vestuário, tecidos e calçados 65,8% 74,5% 74,2% 78,1% 79,1% Supermercados 53,9% 60,5% 62,6% 69% 72,1% Outras atividades 50,5% 55,3% 52,8% 55,5% 57,7% Total do varejo 51,1% 57,4% 57,3% 61% 63,3%

O artigo lembra que não é à toa que as lojas de roupas e de calçados tenham a maior taxa de turno ver do setor: era 79% em junho, elevação de 4,6 pontos porcentuais (p.p.) em relação ao mesmo mês de 2023. “Essa atividade tem uma condição particular. Além do peso do atendimento — que deter mina boa parte dos resultados —, ainda está mais sujeita tanto às sazonalidades do mercado de trabalho quanto às oscilações do mercado.”

Mas a rotatividade explodiu também nos supermercados. Se a taxa do setor era de 53,9% em 2022, agora, chegou a 72,1%. Como é uma atividade em que a exigência de qualificação é mais baixa e, normalmente, é o primeiro emprego de muitos jovens, a taxa de rotatividade tende a ser maior, ainda mais em períodos de mercado laboral aquecido.

E isso pega o setor em um momento de retração de vendas, como mostrou uma edição anterior do Panorama do Comércio. “Além de margens comprimidas, impostos e juros altos, tudo o que uma empresa não quer é ter que arcar com os custos de uma rotatividade exagerada.”

Com essa taxa de rotatividade altíssima e um mercado de trabalho que ainda oferece muitas alternativas de vagas e um ambiente com as margens pressionadas, reter quem já está na equipe se tornou, neste momento, uma das decisões de maior retorno financeiro ao empresariado.

Para Kelly Carvalho, assessora econômica da Fecomercio-SP, uma dica para as empresas evitarem uma alta taxa de turnover é investir em capacitação e treinamentos para os funcionários. Ela diz que, se, por um lado, trata-se de um custo, certamente será muito menor do que ter que lidar com os gastos de uma demissão e de uma substituição de mão de obra lá na frente. “Além disso, a tendência é que os colaboradores se sintam mais valorizados com esse tipo de iniciativa — e que até considerem isso antes de migrar para outra oportunidade de mercado que surgir. Sem contar que há uma série de modelos de treinamento mais baratos e de qualidade em plataformas online.”

Thiago Carvalho, também assessor econômico da Fecomercio-SP, sugere algumas estratégias para o empresário que quer evitar os custos diretos e indiretos dessas substituições. Para ele, um bom recrutamento é a resposta mais imediata. Mas antes de contratar, é fundamental ter clareza sobre se o novo colaborador terá chance de entrar na estatística de turnover logo. Veja:

Implante uma entrevista real de desligamento

Toda saída voluntária deve ter uma conversa estruturada. Por que a pessoa está saindo? O que a faria ficar? O que a empresa poderia ter feito de diferente? As respostas, coletadas sistematicamente, revelam padrões (um gestor específico, um turno problemático, a falta de feedbacks) que podem ser corrigidos até a próxima perda. Sem esse dado, o empresário repete os erros indefinidamente e fica pagando os custos da substituição.

Crie um ritual simples de reconhecimento mensal

Não é só bonificação financeira. As pessoas também querem ser reconhecidas pelo que elas fazem. O funcionário do mês com foto no mural, agradecimento público na reunião de equipe ou um dia de folga adicional para quem bate a meta são sinais de reconhecimento com custo baixíssimo e impacto comprovado sobre a motivação e a lealdade. O trabalhador do varejo, em especial, opera em função de prazo e metas, além de lidar com pressão diária. O fato de ser reconhecido pelo esforço é um diferencial.

Mapeie quem você não pode perder e aja antes

Todo varejo tem quem sustenta o atendimento. São pessoas que conhecem os clientes pelo nome e que carregam parte importante do faturamento da loja nas costas. A maioria das empresas só descobre isso quando esses funcionários pedem demissão. A recomendação é identificá-las agora, conversar individualmente com cada uma, entender expectativas de carreira e, quando possível, oferecer uma perspectiva concreta de promoção a elas. Perder um funcionário-chave em um momento de vendas fracas pode custar muito mais do que qualquer benefício preventivo custaria.

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