A estiagem e a falta de chuvas têm afetado o cultivo da macaxeira e a produção de farinha, um dos principais alimentos da região Norte. No município de Iracema, ao Sul de Roraima, a falta de chuva interrompeu temporariamente a produção de farinha do produtor rural Jair Mota, de 63 anos.

📈 Em Boa Vista, o preço da mandioca subiu 5,7% em setembro, chegando a R$ 35 por 6 kg. Já a farinha teve aumento de 3,06%, com o preço de R$ 22,23 por 3 kg, conforme dados da Secretaria de Planejamento e Orçamento de Roraima (Seplan).

A seca prejudicou o desenvolvimento das plantas e reduziu a produtividade da lavoura de Jair, que trabalha com o cultivo de mandioca há cerca de três anos.

"Estamos no período de entressafra, por causa da seca. Fizemos um replantio no final do período chuvoso. Agora, está tudo plantado para colher no ano que vem e produzir farinha. A produtividade cai porque não tem umidade, e a raiz da mandioca necessita de água para crescer e se desenvolver. A quantidade de amido diminui porque tem pouco líquido no solo", afirmou.

Seca compromete safra de macaxeira e afeta produção de farinha em Roraima

Nalu Cardoso/g1 RR

A previsão do produtor é retomar a colheita entre março e maio de 2027, com a chegada das chuvas. Até lá, a produção permanece parada.

Jair afirma que a situação também afeta outros produtores rurais que vivem em lotes no interior do estado. Segundo ele, a falta de chuva dificulta o plantio, a colheita e até a criação de animais. A irrigação ajuda a reduzir os prejuízos em algumas propriedades, mas não resolve o problema de todos.

Para manter a renda durante o período sem produção, o produtor recorre a outras atividades comerciais. "Tem que buscar outra alternativa de negócio para sobreviver. Eu tenho outras empresas e outros negócios, que não estão necessariamente ligados à plantação", disse.

Alta no preço da farinha afeta produção em Boa Vista

A empresa de farofa Sabor do Norte, de João Botelho, de 35 anos, compra farinha amarela de mandioca do Amazonas. Na fábrica, em Boa Vista, o produto é torrado com ingredientes naturais e embalado.

A marca trabalha com as linhas tradicional e ovinha, nos sabores manteiga, pimenta Uarini e bacon. As farofas são distribuídas em 14 dos 15 municípios de Roraima, com exceção de Uiramutã. Além disso, os produtos são comercializados em São Paulo e Santa Catarina e também exportados para os Estados Unidos.

🔍 A farinha ovinha, também conhecida como farinha de Uarini, é um alimento tradicional da Amazônia, originário do município de Uarini, no Amazonas. O produto é declarado Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do estado.

A produção diária da empresa varia de 400 a 500 unidades, com o uso de aproximadamente 300 quilos de farinha. A fábrica funciona de segunda a sexta-feira e produz cerca de 2,5 mil unidades de farofa por semana.

João Botelho, dono da empresa Sabor do Norte

Nalu Cardoso/g1 RR

O empresário mantém um estoque elevado para se preparar para o período de estiagem no fim do ano, mas não esperava uma seca tão intensa. Segundo ele, deve manter o preço atual até fevereiro de 2027, enquanto o clima não estabiliza.

"Comprávamos a tonelada por cerca de R$ 6,7 mil. Agora, o valor varia entre R$ 9 mil e R$ 10 mil, mas chegou a R$ 12 mil", disse.

O empresário afirma que, além da redução da produção de farinha, a baixa dos rios no Amazonas encarece o transporte da matéria-prima.

"Roraima ainda tem uma participação muito pequena na produção de farinha. Lá [no Amazonas], o que mais impacta é o frete, porque, quando o rio seca, o transporte fica mais caro", explicou.

De acordo com o Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado de Roraima (Fier), o frete em Roraima pode ficar até 50% mais caro no fim de 2026 e no início de 2027 por causa do El Niño.

"Toda vez que chega o período de final de ano, entre outubro e dezembro, os rios começam a baixar na região do Amazonas e a farinha sofre uma elevação de preço. Esse fenômeno acontece todos os anos, mas, desta vez, tivemos o El Niño e, além da seca dos rios, houve uma diminuição da produção por falta de chuva", afirmou João.

A combinação de calor intenso, falta de chuvas e baixa umidade do ar elevou o perigo de incêndios florestais em Roraima. Uma previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indica que as precipitações continuarão escassas e mal distribuídas até pelo menos o fim de outubro.

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