A descoberta de um câncer de mama aos 35 anos mudou a vida de Fabiana Marcondes e a levou a transformar a própria experiência em apoio a outras mulheres. A história dela ganha destaque em meio à campanha do Outubro Rosa e diante dos números da doença: o Vale do Paraíba registrou 330 mortes por câncer de mama em 2025, o maior número da série histórica do Ministério da Saúde, iniciada em 1996.
Atrás das estatísticas que alertam, histórias reais mostram como o tempo é decisivo. Foi a recusa em adiar a investigação de uma dor no seio que permitiu à professora aposentada Fabiana, hoje com 52 anos e moradora de Tremembé, descobrir o tumor a tempo de se curar.
Em dezembro de 2009, aos 35 anos e com uma filha de 2 anos e 8 meses, Fabiana passou a sentir um nódulo dolorido na mama esquerda sempre no período pré-menstrual, pouco tempo após encerrar a amamentação.
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Na primeira consulta com seu ginecologista, ouviu que a alteração deveria ser "leite empedrado", sob o argumento de que o câncer não provocava dor.
“Eu me lembro que eu fiquei, eu insisti muito pra ele, porque eu queria fazer o exame”, contou Fabiana.
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Mesmo com um exame de ultrassom inicial sem indicativos de malignidade, ela insistiu na investigação até conseguir o pedido de biópsia.
"Quando fui fazer a biópsia, a médica perguntou: 'De qual carocinho a gente vai fazer?'. Eu perguntei: 'Como assim?, e ela respondeu que atrás daquele tinha outro", recordou.
Fabiana relembra que a percepção do próprio corpo e a sua insistência foram fundamentais para o diagnóstico, já que tinha apenas 35 anos, estava fora da faixa etária para a mamografia de rotina, havia amamentado e sentia dor no nódulo. Ela ressalta que todos os indícios apontavam que não se tratava de um tumor, mas a situação poderia ter sido muito pior caso não tivesse insistido na investigação.
'Tive o câncer, mas o câncer nunca me teve'
Após a cirurgia para retirada de um quadrante da mama esquerda, Fabiana enfrentou sessões de quimioterapia e de radioterapia ao longo de 2010, seguidas por cinco anos de bloqueio hormonal para indução da menopausa. Mais do que o desgaste físico das medicações, o baque emocional mais forte veio quando os fios de cabelo começaram a cair.
"Quando o meu cabelo caiu, pensei que eu ia morrer. Foi o momento em que mais sofri na vida. Eu usei peruca, não quis pôr lenço nem assumir a careca. É curioso porque hoje não tenho memória visual de mim careca; parece que o próprio cérebro deletou", contou a professora.
Para atravessar os meses de tratamento sem se entregar ao medo, ela contou com o suporte diário do marido, Marcos, e com o apoio de uma amiga médica, Marília, que já havia superado a doença e a visitava dia sim, dia não.
"Ela me dizia que estávamos apenas dentro de uma nuvem, como um avião passando por turbulência, mas que o sol continuava lá na frente. Eu olhava para ela tão bem e pensava: 'Vou ficar igual à Marília e um dia vou servir de espelho para outra pessoa querer ficar bem também'", disse Fabiana.
Desfile beneficente com pacientes oncológicos, organizado pela Fabiana
Porto seguro para outros pacientes
O alívio definitivo para Fabiana veio primeiro em um exame de imagem (PET-Scan) feito em São Paulo um ano e meio após o fim das sessões, que comprovou a ausência de células tumorais no organismo. Depois, em outubro de 2016, ela recebeu a alta médica oficial, data que passou a celebrar como seu "segundo aniversário" e que completa exatos 10 anos neste Outubro Rosa.
Mesmo após ter ouvido no passado que as sequelas do câncer limitariam seus movimentos no braço esquerdo, ela passou a praticar tênis e beach tennis. O esporte foi decisivo para ajudá-la a superar um quadro de depressão no último ano e acabou se tornando uma ponte para intensificar seu trabalho voluntário na Casa Gesto, em Taubaté, onde organiza o torneio beneficente Areia Rosa e coordena desfiles com pacientes oncológicas ao lado da filha que, inspirada pela trajetória da mãe, chegou a cortar e doar o próprio cabelo para a confecção de perucas na instituição.
Em um desfile realizado no último dia 8 de outubro, Fabiana viveu na prática o papel de "espelho" que um dia encontrou na amiga Marília. Ao convidar pacientes para o evento, conversou por telefone com uma mulher que enfrentava um momento depressivo e se recusava a sair de casa.
"Ela me perguntou: 'Eu vou mostrar o quê? A minha careca, a minha tragédia?'. Eu respondi: 'Não, você vai mostrar a sua história, que você está de pé e lutando para ficar boa'. Ela subiu no palco, desfilou e, quando saiu, me abraçou chorando muito e disse: 'Que bom que eu vim desfilar a minha história'. Ela conseguiu se enxergar fora da doença. Costumo repetir sempre que eu tive o câncer, mas o câncer nunca me teve", afirmou Fabiana.
Fundada em agosto de 1997 pelo Dr. Flávio Salgado com apoio da comunidade e de empresas locais, a Casa Gesto fica a um quarteirão do Hospital Regional de Taubaté e oferece suporte gratuito a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). O local atende uma média de 25 a 40 pessoas por dia, de segunda a sexta-feira, recebendo moradores de municípios como Cruzeiro, Lorena, Guaratinguetá, Areias, São José do Barreiro e Lagoinha.
Muitos desses pacientes saem de suas cidades às 4h da manhã, em jejum, para sessões de quimioterapia ou radioterapia. Na entidade, encontram café da manhã, sopa no almoço, fornecimento de perucas e atendimento psicológico voluntário.
"Você não pode esquecer a pessoa e lembrar só do tumor; é preciso tratar a mama e tratar o ser humano. Esse suporte emocional e o contato com voluntárias que já venceram a doença evitam que o paciente desanime ou abandone o tratamento no meio do caminho", ressaltou o médico Flávio Salgado, que tratou Fabiana.
Para os familiares e companheiros de quem enfrenta o diagnóstico, o cirurgião orienta que o melhor auxílio é a presença acolhedora e sem cobranças.
"A família precisa entender que, durante sete ou oito meses de quimioterapia, aquela mulher não estará nas mesmas condições de antes. Não levem problemas extras para ela. É estar ao lado, fazer um chá ou uma sopa quando houver efeito colateral e dizer: 'Estou aqui, se precisar me chama'".
Saiba identificar sinais de alerta e quando fazer exames
Para reverter o cenário de diagnósticos tardios e queda nas mamografias na região, o g1 destaca os cuidados essenciais que toda mulher deve adotar:
Mamografia a partir dos 40 anos: Mulheres a partir dos 40 anos, mesmo sem sintomas ou histórico na família, têm direito garantido pelo Ministério da Saúde para solicitar o exame de mamografia anualmente nas unidades básicas de saúde. Quem possui casos de câncer na família deve procurar orientação médica para iniciar o rastreamento mais cedo.
Atenção aos sinais clínicos: Além de nódulos ou caroços (com ou sem dor), procure um médico imediatamente caso note saliências ou retração na pele da mama, mudança no formato de um seio em relação ao outro, saída de líquido pelo mamilo, inversão do mamilo (como se algo o puxasse para dentro) ou ínguas (gânglios inchados) na axila.
Insista no seu direito: Caso sinta alguma alteração no toque ou encontre resistência para a solicitação do exame preventivo, busque uma segunda opinião médica. "Às vezes, uma semana faz muita diferença. O medo paralisa, mas há vida e cura após o câncer", conclui Fabiana.
*Estagiário colaborou sob supervisão de Alice Aires.
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