Uma imensa “nuvem” de andorinhas chamou a atenção e mudou a rotina dos moradores do bairro Jardim Tropical, em Cuiabá. O espetáculo natural tem se repetido diariamente no final da tarde, reunindo dezenas de milhares de aves em voos sincronizados sobre condomínios residenciais da região.

Registros feitos por moradores mostram a magnitude do fenômeno. Nas imagens registradas por moradores, mostram o céu tomado por um rastro contínuo de aves, que sobrevoam os edifícios antes do anoitecer em busca de repouso e alimento. Segundo vizinhos, os bandos já são observados no local com frequência no último mês.

Rota migratória e fartura de alimento

O fenômeno, no entanto, não é novidade para a ciência. Trata-se da rota migratória anual de andorinhas — a exemplo da andorinha-grande (Progne chalybea) —, pertencentes ao gênero Progne, que deixam áreas mais frias no hemisfério norte (como o sul dos Estados Unidos) em direção ao sul do continente sul-americano fugindo das baixas temperaturas.

✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MT no WhatsApp

O professor Dr. João Batista Pinho, que lidera o Laboratório de Ecologia de Aves da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), explica que essas migrações envolvem números expressivos de indivíduos.

"Esses bandos chegam com facilidade a 20 mil, 30 mil indivíduos, ou até mais. É uma migração que acontece todos os anos. Antigamente, a passagem era mais evidente em áreas abertas como o Belvedere e o Jardim Universitário. Com o crescimento urbano e a ocupação da cidade, as aves acabam passando por novos bairros residenciais", pontua o ornitólogo.

O gatilho das primeiras chuvas

Andorinhas foram flagradas durante a noite em árvores e fios de energia do condomínio em Cuiabá

De acordo com o professor, a chegada das primeiras chuvas atua como um verdadeiro 'gatilho ecológico'. A umidade repentina provoca a revoada de insetos — especialmente os cupins alados, conhecidos popularmente como “bichinhos de luz” —, proporcionando um banquete altamente nutritivo para a fauna.

"Com a chegada das chuvas, temos um verdadeiro boom de insetos. Para as andorinhas, esses cupins são extremamente nutritivos e de rápida conversão energética. Elas aproveitam para descansar, se alimentar e acumular gordura corporal para ter força e prosseguir a viagem até o sul do Brasil", explica o especialista.

O professor ressalta ainda a diferença de comportamento entre as visitantes e as aves nativas: enquanto as espécies residentes de Mato Grosso utilizam essa fartura alimentar para iniciar seus ciclos reprodutivos, as andorinhas migratórias estão apenas de passagem, focadas exclusivamente na reposição de energias para continuar a travessia.

A permanência das andorinhas na capital costuma durar de poucos dias a algumas semanas, dependendo da oferta de insetos e das condições meteorológicas. Assim que o estoque de alimento diminuir e o bando estiver recuperado, as aves seguirão viagem para o sul do país.

Andorinhas sobrevoam condomínio há mais de um mês em Cuiabá.