Dados do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) mostram que setembro terminou com 295,1 milímetros de chuva na capital paulista, o equivalente a 347,1% acima da média histórica para o mês. Foi o setembro mais chuvoso da série iniciada em 1995. Somado a isso veio o frio. A temperatura mínima média do mês foi de 14,2°C, cerca de 1°C abaixo da média histórica de 15,2°C, e a temperatura máxima média ficou em 22,6°C, ou 3,4°C abaixo da média histórica de 26°C.

A combinação ajudou a criar um cenário favorável para o setor. Com menos horas de sol, temperaturas mais baixas e alta umidade, roupas passaram a levar mais tempo para secar, aumentando a procura por alternativas fora de casa. Nas lavanderias self-service, o período ganhou até um apelido: “Natal das lavanderias” . A expressão foi usada pela rede Aquamagic.

Jundiaí (SP), uma unidade madura (com mais de 12 meses de operação) da rede, registrou aumento de 354% no faturamento em setembro na comparação com o mesmo mês do ano passado. O resultado ficou ainda 177% acima da média mensal da própria loja nos 12 meses anteriores.

O movimento se repetiu em outras cidades. Em Piracicaba (SP), o faturamento avançou 247% na comparação anual e ficou 123% acima da média recente da unidade. Já em Curitiba (PR), a receita cresceu 98% frente a setembro de 2025 e ficou 65% acima da média dos últimos 12 meses.

Para Diego Ventura, fundador da Aquamagic, o efeito da chuva sobre o negócio é conhecido há anos, mas ganhou intensidade em 2026. “Períodos prolongados de chuva costumam elevar a demanda das lavanderias entre 40% e 50%. O impacto varia conforme a cidade e a duração do mau tempo”.

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Segundo Ventura, o melhor cenário para uma lavanderia não é necessariamente o temporal intenso, mas justamente a sequência de dias nublados e úmidos.

“Muitas vezes é justamente essa chuvinha que fica dias, a garoa, o tempo fechado, que impede a roupa de secar. Chega uma hora em que a pessoa precisa resolver”, explica.

Ventura explica que o comportamento do consumidor muda conforme os dias passam. “Roupas de trabalho precisam voltar para o armário, uniformes escolares precisam ser usados novamente, toalhas e roupas de cama continuam esperando. Enquanto uma leva ainda não secou, outra já precisa ser lavada. Depois de alguns dias, deixa de ser apenas um problema de secagem”.

A corrida pelas secadoras na 5àsec

O fenômeno também apareceu nas lavanderias tradicionais. Na 5àsec, o crescimento mais forte foi registrado justamente nos serviços de autosserviço, modalidade na qual os clientes usam máquinas de lavar e secar instaladas nas unidades.

Segundo Fernando Toledo, vice-presidente de operações da rede, o comportamento fugiu do padrão tradicional do setor. “Na lavanderia especializada, os meses mais fortes costumam ser o período entre novembro e janeiro e o início do inverno. Em 2026, porém, o autosserviço respondeu de forma muito forte ao clima de setembro, com chuva bem acima da média no Sudeste”.

Os números mostram essa mudança. No autosserviço da rede o uso de secadoras cresceu 80% na comparação com setembro de 2025, o número de clientes avançou 79% e o faturamento aumentou 79% na comparação anual e 47% em relação a agosto.

A rede observou ainda aumento na procura por itens ligados ao inverno e ao conforto doméstico. Toalhas de mesa cresceram 19%, enquanto malhas, moletons e pullovers avançaram 16%.

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Além da 5àsec, a rede de autosserviço LavPop, pertencente ao mesmo grupo, registrou em setembro o melhor resultado de sua história, com faturamento 126% superior ao registrado no mesmo mês do ano passado.

O boom de ‘Lava e Seca’

Para parte dos consumidores, a resposta para semanas seguidas de chuva foi terceirizar a tarefa. Para outros, a saída foi investir em um equipamento próprio. Levantamento da Confi, por meio da plataforma Neotrust, mostra que as vendas de máquinas lava e seca no comércio eletrônico brasileiro somaram R$ 416,5 milhões entre 1º de setembro e 13 de outubro, crescimento de 68,3% em relação ao mesmo período de 2025.

Foram comercializadas 87,5 mil unidades no intervalo, alta de 47,6%, um dado que rompe com o padrão sazonal observado.

“Até o ano passado, a lava e seca vendia menos em setembro do que no fim do inverno. Em 2026, vende mais”, afirma Léo Bicalho, head de negócios da Confi Neotrust.

Segundo Bicalho, quando uma categoria muda o comportamento típico de demanda, geralmente há um novo fator influenciando a decisão de compra – e a chuva não explica tudo. A categoria já vinha crescendo antes do início do período úmido, de acordo com dados da Neotrust: entre julho e agosto, as vendas de lava e seca avançavam 37,6% sobre 2025.

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Para Bicalho, existe um componente estrutural por trás do avanço da categoria. “Parte desse crescimento pode estar ligada a um ciclo de troca . Em 2020, durante a pandemia, houve um boom de compras de itens para a casa, e a linha branca foi uma das categorias mais beneficiadas. Seis anos depois, muitos desses aparelhos chegam ao momento de reposição”.

A partir de setembro, porém, essa velocidade praticamente dobrou. O executivo reconhece que a distribuição regional da demanda sugere influência das condições climáticas. O Sudeste respondeu por 64,5% de todas as máquinas lava e seca vendidas entre setembro e outubro, participação superior à observada nos meses anteriores.

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