Os atos não são coordenados entre si, e cada país tem pautas específicas. Ainda assim, as reivindicações se repetem de um lugar para outro e ajudam a entender por que a insatisfação ganhou escala ao mesmo tempo em boa parte do continente.

França vira “zona de guerra” após protestos com 1.800 presos; veja imagens

Mobilização que começou com estudantes do ensino médio ganhou apoio de sindicatos e ex-“coletes amarelos”; governo descarta estado de emergência e promete punir responsáveis pelos distúrbios

Onde tudo começou

O estopim foi uma escola de ensino médio em Créteil, na periferia de Paris, onde alunos protestaram em meados de setembro contra prédios deteriorados, salas superlotadas e falta de professores. A mobilização se espalhou pela França e, neste sábado (17), reuniu cerca de 550 mil pessoas, segundo o governo, ou 800 mil, segundo a central sindical CGT, já com a adesão de sindicatos, aposentados, agricultores e ex-“coletes amarelos”.

A partir daí, estudantes de outros países passaram a se inspirar no exemplo francês. Na Itália, por exemplo, ocupações de escolas usam o lema “façamos como na França”.

Motivo 1: escolas e universidades sem recursos

A queixa mais comum entre os jovens é a deterioração do ensino público. Na França, os estudantes pedem 10 bilhões de euros em investimentos, mais professores e mudanças no sistema de acesso às universidades.

Na Bélgica, o alvo são reformas que encarecem as mensalidades e salas lotadas, enquanto na Albânia os universitários reclamam do custo do ensino superior e da falta de perspectiva de emprego após a formatura.

Motivo 2: moradia cara

O preço da moradia é o principal motor dos protestos na Península Ibérica. Na Espanha, a mobilização explodiu após o despejo de Maricarmen Abascal, aposentada de 87 anos que vivia havia décadas no mesmo imóvel em Madri e morreu duas semanas depois de ser retirada de casa.

Em Portugal, onde os preços dos imóveis mais que dobraram em menos de uma década, manifestantes copiaram os acampamentos espanhóis e montaram barracas em praças de Lisboa e do Porto. Na Grécia, universitários acamparam diante do Parlamento contra a falta de alojamento estudantil e o valor dos aluguéis.

Motivo 3: custo de vida e salários

Com o tempo, as pautas se ampliaram para além da escola e da casa própria. Sindicatos passaram a cobrar salários e aposentadorias maiores, além de preços menores para combustíveis, energia e alimentos.

Foi o que levou centrais sindicais às ruas em Portugal e o que transformou o protesto estudantil francês em uma mobilização nacional contra o custo de vida. “Estamos lutando porque o custo de vida está pesado demais, porque o preço do combustível está alto demais, porque estudantes do ensino médio estão sendo atacados e feridos com violência em todo o país apenas por tentarem protestar e pedir mais professores e condições dignas de ensino”, disse à Reuters Lola, de 19 anos, que participou do protesto em Paris.

Na Itália, a marcha de sábado em Milão juntou a pauta econômica a críticas às guerras.

Motivo 4: governos sem dinheiro para atender às demandas

O pano de fundo comum é fiscal. França e Bélgica têm déficits acima de 5% do PIB e estão sob pressão para cortar gastos, justamente quando a população cobra mais investimento em serviços públicos.

Na França, a desconfiança dos investidores levou o rendimento do título de 10 anos a superar 5%, o maior nível em 24 anos. Na Bélgica, o governo prepara um orçamento com medidas que afetam o poder de compra e o reajuste automático de salários, o que motivou protestos sindicais sob o lema “fiquem fora dos nossos bolsos”.

Motivo 5: frustração política

Em alguns países, a insatisfação econômica se soma à desconfiança nos governantes. Na Albânia, os estudantes se juntaram a um movimento que pede a renúncia do premiê Edi Rama, acusa o governo de corrupção e se opõe a um resort de luxo ligado a Jared Kushner, genro de Donald Trump. “Quanto aos pedidos de renúncia, governos mudam por meio de eleições democráticas. No ano passado, tivemos eleições, não uma revolução”, respondeu Rama à Reuters.

Na Espanha, o Parlamento rejeitou as medidas do governo para conter os despejos, o que levou o premiê Pedro Sánchez a antecipar as eleições gerais para 29 de novembro. “É uma vergonha. Isso só prova que somos nós, o povo, que temos que nos adaptar aos partidos políticos, e não os políticos ao que o povo quer”, disse à Reuters Nando, de 26 anos, durante protesto em Madri após a votação.

Um movimento ou vários?

Em entrevista à Al Jazeera , o professor Alberto Alemanno, da HEC Paris, avaliou que se trata de vários protestos simultâneos, e não de um movimento europeu. Ele apontou como queixas compartilhadas a educação subfinanciada, o custo de vida em alta e, no caso dos estudantes, o futuro incerto após a formatura. Segundo ele, a França é o epicentro da mobilização, mas já há sinais de que ela se espalha para além do país.

O que vem pela frente

O calendário dos próximos meses tende a manter o tema em evidência. A Espanha terá greve geral em 11 de novembro, a primeira convocada em conjunto pelas duas maiores centrais sindicais do país em 14 anos, e eleições no fim do mês.

Na França, a eleição presidencial está marcada para a primavera de 2027, com a extrema direita liderando as pesquisas. Alemanno lembra que a Europa entra em um ciclo de eleições nacionais nos próximos 12 meses, incluindo também Itália e Polônia, e avalia que as mobilizações devem ficar no centro do debate político.

(com Reuters, AFP, AP, e Euronews)

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