À frente, a cerca de 120 quilômetros, estava a pista de um aeroporto nas ilhas dos Açores, em Portugal. Entre o avião e o destino havia apenas oceano. Sem qualquer propulsão, os pilotos precisavam manter a aeronave no ar tempo suficiente para alcançar terra firme.
O episódio aconteceu em 24 de agosto de 2001, durante o voo 236 da companhia canadense Air Transat, que seguia de Toronto, no Canadá, para Lisboa, em Portugal. A bordo estavam 293 passageiros e 13 tripulantes, sob o comando do piloto Robert Piché, acompanhado pelo copiloto Dirk DeJager.
O que aconteceu nos minutos seguintes entrou para a história da aviação comercial. O Airbus percorreu aproximadamente 120 quilômetros planando sobre o Atlântico e conseguiu pousar em segurança na Base Aérea das Lajes, na ilha Terceira. Todos os ocupantes sobreviveram, mas a investigação revelaria uma sequência de problemas que começou muito antes de a aeronave ficar sem motores.
O problema começou mais de uma hora antes de o primeiro motor parar
O voo havia transcorrido normalmente durante boa parte da travessia. Entretanto, às 4h38, uma tubulação de combustível localizada no motor direito começou a apresentar um vazamento, sem que os pilotos soubessem.
A perda inicialmente passou despercebida. Pouco depois, os instrumentos começaram a mostrar alterações incomuns na temperatura e na pressão do óleo do motor direito. A tripulação examinou os indicadores, mas ainda não havia identificado a origem do problema.
Às 5h33, surgiu um novo sinal: os tanques das asas apresentavam uma diferença de aproximadamente três toneladas na quantidade de combustível armazenado.
Os pilotos iniciaram um procedimento para corrigir esse desequilíbrio, abrindo uma válvula que permitia alimentar o motor direito com combustível proveniente da asa esquerda.
A decisão parecia adequada para equilibrar os tanques, mas havia um problema oculto. Como o vazamento estava justamente no sistema de alimentação do motor direito, a transferência permitiu que mais combustível fosse perdido.
A quantidade de querosene disponível começou a cair de maneira tão acentuada que a tripulação chegou a considerar a possibilidade de uma falha nos instrumentos.
Comissários foram solicitados a observar as asas e os motores em busca de sinais de vazamento. A escuridão, entretanto, impediu que identificassem qualquer anormalidade.
Às 5h45, diante da redução inexplicável do combustível, os pilotos decidiram abandonar a rota para Lisboa e seguir em direção ao aeroporto de Lajes, nos Açores.
Essa decisão seria fundamental para o desfecho da emergência.
Primeiro um motor parou. Treze minutos depois, o segundo também apagou
Às 6h13, o motor direito deixou de funcionar por falta de combustível. Naquele momento, a aeronave ainda estava a aproximadamente 278 quilômetros do aeroporto.
O Airbus continuou voando com o motor esquerdo, enquanto a tripulação tentava alcançar o arquipélago. Mas a quantidade de combustível restante era insuficiente.
Às 6h23, o copiloto declarou emergência pelo rádio, utilizando o chamado internacional de socorro Mayday .
Três minutos depois, às 6h26, o motor esquerdo também parou.
A aeronave estava a cerca de 120 quilômetros da pista e a aproximadamente 10,5 mil metros de altitude. Sem os motores, perdeu suas fontes normais de propulsão, além de parte dos sistemas elétricos e hidráulicos.
Uma pequena turbina de emergência, acionada pelo fluxo de ar externo, passou a fornecer energia para funções essenciais. Conhecida como Ram Air Turbine (RAT), ela não impulsionava o avião, mas ajudava a manter os sistemas necessários para controlá-lo.
A tripulação chegou a comunicar aos controladores de tráfego aéreo que um pouso no mar poderia ser necessário.
Como um Airbus conseguiu planar por 19 minutos sem motores?
Apesar do tamanho e do peso, um avião comercial não cai imediatamente quando seus motores deixam de funcionar.
As asas continuam produzindo sustentação enquanto a aeronave mantém velocidade suficiente em relação ao ar. Sem propulsão, o avião perde altitude gradualmente, mas consegue transformar parte dessa altura em deslocamento horizontal.
É o mesmo princípio utilizado pelos planadores.
No caso do voo 236, a altitude disponível permitiu que os pilotos continuassem avançando em direção aos Açores. O desafio era controlar a velocidade e a descida para alcançar a pista antes que o avião perdesse altura demais.
O comandante Robert Piché também precisava evitar o problema oposto: chegar muito alto e ultrapassar a área de pouso. Sem motores funcionando, não seria possível simplesmente acelerar, ganhar altitude e tentar novamente.
Com orientação dos controladores de Lajes, a tripulação começou a preparar a aproximação.
Quando estava a cerca de 15 quilômetros da pista, o avião ainda voava a aproximadamente quatro mil metros de altitude, uma altura excessiva para uma aproximação convencional naquele ponto.
Piché realizou então uma curva completa de 360 graus para perder altitude. Depois, fez manobras em formato de S para continuar descendo e se alinhar à pista.
Os pilotos também precisaram baixar o trem de pouso e configurar a aeronave com parte dos sistemas funcionando em condições de emergência.
O aeroporto já estava próximo. Faltava conseguir colocar o avião no solo.
O Airbus chegou à pista a quase 370 km/h e voltou a subir após o primeiro toque
Às 6h45, exatamente 19 minutos depois da parada do segundo motor, o Airbus cruzou a cabeceira da pista 33 da Base Aérea das Lajes.
A velocidade era de aproximadamente 200 nós, o equivalente a 370 km/h.
O primeiro contato com o solo aconteceu a cerca de 310 metros do início da pista. O impacto foi tão forte que o avião voltou momentaneamente ao ar, antes de tocar o chão novamente, aproximadamente 850 metros depois da cabeceira.
Os pilotos aplicaram a frenagem máxima disponível. Entretanto, o sistema de antitravamento das rodas não estava funcionando normalmente, o que agravou os danos aos pneus durante a desaceleração.
A aeronave finalmente parou depois de percorrer cerca de 2,3 quilômetros de uma pista de aproximadamente três quilômetros.
Pequenos focos de incêndio surgiram na região das rodas do trem de pouso esquerdo, mas foram rapidamente combatidos pelas equipes de emergência, que já aguardavam o Airbus.
O comandante ordenou a evacuação. Os passageiros deixaram a aeronave pelos escorregadores de emergência.
Ao todo, 18 pessoas ficaram feridas durante a evacuação, sendo dois passageiros com lesões graves. Apesar das condições extremas enfrentadas sobre o oceano e da violência do pouso, ninguém morreu.
Uma tubulação com rachadura de oito centímetros provocou a emergência
A investigação conduzida pelas autoridades portuguesas revelou que o vazamento teve origem em uma falha de manutenção no motor direito.
Durante a substituição do motor, foram instaladas tubulações de combustível e componentes hidráulicos de configurações incompatíveis. Essa combinação deixou uma linha de combustível em contato com uma tubulação hidráulica.
Com o funcionamento do motor, o atrito entre as peças provocou uma rachadura de aproximadamente oito centímetros na linha de combustível.
Foi por essa abertura que o querosene começou a escapar durante a travessia do Atlântico.
Os investigadores descobriram que modificações técnicas necessárias para compatibilizar os componentes não haviam sido integralmente executadas. Também identificaram problemas no acesso às instruções de manutenção e na verificação do serviço realizado.
A análise mostrou ainda que a tripulação não reconheceu a gravidade do vazamento a tempo. O procedimento adotado para equilibrar os tanques contribuiu para a perda adicional de combustível.
O relatório destacou, porém, que os pilotos não tinham recebido treinamento específico suficiente para identificar e administrar uma situação desse tipo.
A investigação diferenciou, assim, os problemas que levaram à emergência das habilidades necessárias para realizar o pouso sem motores.
Os gravadores do avião não registraram os 19 minutos mais críticos
Outra descoberta importante surgiu durante a análise dos equipamentos utilizados para registrar os dados de voo e as conversas na cabine.
Quando o segundo motor parou, o Airbus passou a funcionar em uma configuração elétrica de emergência. Com essa mudança, os gravadores perderam sua alimentação normal e deixaram de registrar informações.
Isso significa que os últimos 19 minutos, justamente o período em que a aeronave planou sem motores e realizou o pouso, não foram registrados pelos equipamentos.
Apesar da ausência desses dados, os investigadores conseguiram reconstruir os acontecimentos com depoimentos da tripulação, registros de comunicação com o controle de tráfego aéreo e informações sobre a posição do avião.
O caso também expôs a necessidade de preservar o funcionamento dos gravadores durante emergências envolvendo perda de energia elétrica.
O relatório final da investigação, publicado em 18 de outubro de 2004, apresentou recomendações para aperfeiçoar a identificação de vazamentos, os procedimentos de manutenção, o treinamento das tripulações e a preservação dos registros de voo.
O episódio também contribuiu para o desenvolvimento e o fortalecimento de requisitos de alerta sobre quantidades anormalmente baixas de combustível em aeronaves comerciais.
O voo que ficou conhecido como o Planador dos Açores
A emergência do voo 236 passou a ser conhecida como o caso do Planador dos Açores , tornando-se uma referência para estudos sobre gerenciamento de crises e segurança na aviação.
O episódio demonstrou que uma sequência de falhas aparentemente pequenas pode produzir uma situação extrema. Ao mesmo tempo, evidenciou como decisões de navegação, conhecimento técnico e coordenação com o controle de tráfego aéreo podem fazer diferença em uma emergência.
Naquela madrugada de agosto de 2001, quando o segundo motor parou, os pilotos tinham diante de si uma distância de aproximadamente 120 quilômetros até a pista e o Atlântico logo abaixo.
Dezenove minutos depois, o enorme Airbus estava parado em solo português, com os escorregadores de emergência abertos e equipes de resgate ao seu redor. As 306 pessoas que haviam atravessado o oceano em uma aeronave sem propulsão conseguiram chegar vivas ao destino de emergência.
*Imagem ilustrativa criada pelo Tribuna de Jundiaí com auxílio de inteligência artificial e direção criativa da equipe. Reprodução total ou parcial proibida sem autorização.

