Naquela época, pneus usados foram lançados deliberadamente no mar, perto de Fort Lauderdale, para formar estruturas que serviriam de abrigo à vida marinha. O projeto parecia oferecer uma solução para o descarte de resíduos e, ao mesmo tempo, favorecer o ambiente submarino. Mas as amarrações não resistiram, os pneus começaram a se espalhar e muitos acabaram atingindo os recifes naturais que deveriam se beneficiar da iniciativa.

Mais de cinco décadas depois, o chamado Osborne Tire Reef continua sendo alvo de operações de retirada. Segundo o Departamento de Proteção Ambiental da Flórida , entre 1 milhão e 2 milhões de pneus foram colocados no oceano durante a década de 1970. A quantidade exata permanece desconhecida porque os registros da época eram incompletos.

A ideia era usar pneus descartados para criar um enorme recife artificial

O projeto surgiu em um período em que havia interesse em ampliar os habitats de espécies marinhas importantes para a pesca. Pneus usados pareciam uma alternativa atraente: eram abundantes, baratos e relativamente fáceis de transportar.

A iniciativa foi conduzida pela associação Broward Artificial Reef Inc., com autorizações de órgãos estaduais e federais. A fabricante Goodyear também participou do projeto, que pretendia transformar um material sem utilidade em estruturas capazes de abrigar peixes e favorecer a colonização por organismos marinhos.

Em abril de 1972, uma das operações depositou aproximadamente 50 mil pneus no Atlântico. Outro lançamento, em novembro de 1973, envolveu cerca de 190 mil unidades. Esses números representam apenas parte das operações documentadas, já que o descarte continuou sem um controle preciso do total.

Grandes embarcações transportavam conjuntos de pneus amarrados, que eram lançados ao fundo do mar com equipamentos de içamento. Também houve moradores que levaram pneus em barcos particulares para participar da construção do recife.

A expectativa era que as estruturas permanecessem agrupadas e se tornassem pontos de abrigo para peixes. O que os responsáveis não conseguiram garantir foi que todo aquele material continuaria no lugar.

As amarras se romperam e os pneus passaram a atingir os recifes naturais

Parte dos pneus foi depositada em conjuntos presos por cintas e conexões metálicas. Com o passar do tempo, essas estruturas perderam estabilidade. Algumas amarrações já haviam se rompido durante o lançamento, enquanto outras se deterioraram sob a ação do ambiente marinho.

Sem fixação adequada, os pneus ficaram sujeitos às correntes oceânicas, tempestades tropicais e furacões. O movimento da água passou a deslocá-los pelo fundo do Atlântico, levando parte do material para áreas ocupadas por recifes naturais.

O problema não era apenas a presença dos pneus no oceano. Quando se movimentavam, eles podiam atingir corais, esponjas e outros organismos que vivem presos às estruturas submarinas, causando danos físicos e desgaste contínuo.

Corais são particularmente vulneráveis a esse tipo de impacto. Suas colônias podem levar muitos anos para se desenvolver, mas podem ser danificadas pelo contato repetido com objetos pesados em movimento.

O Departamento de Proteção Ambiental da Flórida reconhece que os pneus deslocados por tempestades e furacões provocaram danos aos recifes próximos. A movimentação do material também representa um risco de novos impactos enquanto parte dos pneus permanecer no fundo do mar.

Levantamento encontrou pneus espalhados por mais de 2,4 mil hectares

A verdadeira dimensão da dispersão ficou mais clara com os levantamentos realizados décadas depois do início do projeto.

Em 2019, uma pesquisa havia identificado pneus distribuídos por aproximadamente 770 acres, o equivalente a 312 hectares, entre áreas arenosas e recifes. Entretanto, o estudo tinha abrangência limitada.

Um novo mapeamento, realizado em 2024 com equipamentos de sonar e ferramentas de análise geográfica, revelou uma distribuição muito maior. Os pneus foram encontrados em uma região superior a 6 mil acres, aproximadamente 2,4 mil hectares , abrangendo diferentes ambientes submarinos.

Isso não significa que toda essa extensão tenha sido destruída ou esteja coberta por pneus. Segundo o relatório ambiental, a maior parte do material estava concentrada em canais arenosos, embora também existissem pneus nas margens e em pontos dos recifes.

A partir dos levantamentos de 2019 e 2024, o governo estadual estimou aproximadamente 521 mil pneus visíveis e não soterrados nas áreas examinadas. Desse total, cerca de 429 mil estavam em ambientes arenosos e até 92 mil em contato com habitats de recifes de coral.

A estimativa não incluía pneus completamente enterrados, encobertos por organismos marinhos ou localizados fora das áreas pesquisadas. Os resultados foram detalhados no plano oficial de restauração do recife de Osborne, publicado em 2024 .

A situação revelou um desafio maior do que simplesmente recolher os resíduos. Depois de tantos anos submersos, alguns pneus passaram a fazer parte temporariamente do ambiente de organismos que se fixaram sobre eles.

Para retirar alguns pneus, mergulhadores precisam salvar os corais que cresceram sobre eles

A presença de corais sobre determinados pneus criou um dos problemas mais delicados da recuperação ambiental. Embora os pneus sejam considerados resíduos a serem retirados, algumas colônias passaram a utilizá-los como superfície de crescimento.

Remover esses materiais sem cuidado poderia destruir justamente os organismos que o projeto de recuperação pretende proteger.

Por isso, determinadas etapas da operação incluem a retirada e o transplante de corais antes que os pneus sejam recolhidos. O trabalho exige que equipes especializadas identifiquem as colônias, façam sua remoção e escolham locais adequados para a transferência.

Um dos projetos coordenados pelo programa de conservação de recifes da Flórida documentou a retirada de 700 corais que cresciam sobre pneus. A maior parte foi transferida para recifes naturais, onde passou a ser acompanhada para avaliar sua sobrevivência e suas condições de saúde. Outras colônias foram destinadas a instituições de pesquisa.

O relatório do programa de remoção e transplante de corais mostra como a recuperação se tornou uma operação em duas frentes: retirar os pneus que representam risco ao ambiente e preservar os organismos que passaram a viver sobre parte deles.

A complexidade ajuda a explicar por que, apesar de anos de trabalho, a limpeza ainda não foi concluída.

Mais de 535 mil pneus foram retirados, mas recuperação pode custar US$ 137 milhões

Os esforços de retirada começaram nos anos 2000, com estudos, operações experimentais e programas que envolveram diferentes instituições. Com o tempo, o trabalho passou a contar com contratos específicos para a remoção dos pneus e o acompanhamento ambiental.

De acordo com os dados oficiais atualizados em janeiro de 2026 , 535.676 pneus foram retirados entre 2015 e dezembro de 2025 na principal área de remoção acompanhada pelo governo estadual.

Esse número representa o acumulado de retiradas naquele período e não deve ser subtraído da estimativa de pneus remanescentes calculada com base nos levantamentos de 2019 e 2024, pois os dados correspondem a períodos e abrangências diferentes.

Apesar do trabalho realizado, a retirada do material restante continua exigindo equipamentos, mergulhadores especializados, autorizações ambientais e planejamento para evitar novos danos aos recifes.

Em 2024, o governo da Flórida apresentou um plano que estimou em aproximadamente US$ 137 milhões o custo das próximas etapas de remoção e restauração. Desse total, cerca de US$ 78 milhões foram previstos para trabalhos nas áreas arenosas, US$ 19 milhões para a retirada em habitats de recifes e US$ 40 milhões para a recuperação biológica.

O planejamento contempla um período de até 14 anos fiscais, contado a partir de julho de 2024, mas sua execução depende de recursos financeiros, contratos e autorizações. Os valores são estimativas, não despesas já realizadas.

O trabalho continua. O Departamento de Proteção Ambiental da Flórida informa que mantém um contrato de retirada com vigência até fevereiro de 2028 e firmou outro, em 2025, com validade prevista até setembro de 2032, para ampliar os serviços.

A recuperação de Osborne também expôs uma limitação da ideia que motivou o projeto original. Criar um recife artificial não depende apenas de colocar objetos no oceano e esperar que a vida marinha se estabeleça. É necessário considerar a estabilidade das estruturas, os materiais utilizados e os possíveis impactos sobre os ecossistemas existentes.

No fundo do Atlântico, essa diferença continua visível. Pneus que foram lançados para oferecer abrigo aos peixes acabaram espalhados entre formações naturais, e alguns passaram a abrigar corais que agora precisam ser cuidadosamente removidos antes da limpeza. Décadas depois, mergulhadores ainda trabalham para retirar aquilo que um dia foi colocado no mar com a intenção de beneficiar a vida marinha.

*Imagem ilustrativa criada pelo Tribuna de Jundiaí com auxílio de inteligência artificial e direção criativa da equipe. Reprodução total ou parcial proibida sem autorização.