Segundo a pesquisadora Mariana Rinaldi Carvalho à Agência SP, responsável pelo estudo, os cuidados com a alimentação masculina devem começar pelo menos três meses antes da concepção. Esse período corresponde a uma etapa importante da formação e maturação dos espermatozoides.
Os resultados mostraram que pais com maior consumo de ultraprocessados tiveram bebês com maiores valores em determinados indicadores. Entre eles estão o peso ao nascer, o índice ponderal e algumas medidas de gordura corporal.
No entanto, os pesquisadores ressaltam que a associação não comprova que os alimentos tenham causado essas diferenças.
Alimentação do pai pode afetar a qualidade dos espermatozoides
A relação entre alimentação paterna e desenvolvimento do bebê pode envolver alterações na qualidade dos espermatozoides.
De acordo com Mariana à agência, mudanças nos hábitos alimentares e no estilo de vida podem influenciar essas células. Além disso, podem afetar mecanismos biológicos importantes para as primeiras etapas do desenvolvimento embrionário.
Um desses processos envolve a epigenética , que regula a atividade dos genes sem modificar a sequência do DNA.
Assim, fatores como alimentação e ambiente podem influenciar características dos espermatozoides. Essas alterações, por sua vez, podem ter relação com o desenvolvimento do embrião.
Outra hipótese envolve o estresse oxidativo e os processos inflamatórios. Dietas ricas em ultraprocessados podem favorecer alterações metabólicas que prejudicam a qualidade e a movimentação dos espermatozoides.
Esses alimentos costumam apresentar quantidades elevadas de açúcares, gorduras e aditivos. Segundo a pesquisadora, determinados componentes podem contribuir para o aumento de substâncias associadas ao estresse oxidativo.
Apesar dessas possibilidades, o estudo não investigou diretamente os mecanismos responsáveis pelas associações encontradas.
Pesquisa identificou diferenças entre a alimentação de pais e mães
O levantamento também comparou o consumo de alimentos ultraprocessados entre homens e mulheres participantes da pesquisa.
Entre os homens, os principais ultraprocessados consumidos foram salsicha, bacon, bebidas açucaradas e bolachas .
Já na alimentação das mulheres, apareceram com maior frequência hambúrgueres, refeições prontas, salgadinhos industrializados e batatas fritas industrializadas.
Ao comparar os dados, os pesquisadores encontraram resultados diferentes para pais e mães.
O maior consumo paterno apresentou associação positiva com alguns indicadores de crescimento dos recém-nascidos. Em contrapartida, entre as mães, a pesquisa identificou uma associação inversa com esses parâmetros.
Segundo Mariana, essa diferença pode indicar que a alimentação materna e paterna atua por caminhos biológicos distintos.
Durante a gestação, a dieta da mãe pode influenciar diretamente o desenvolvimento fetal pelo ambiente uterino. Por outro lado, a alimentação do pai pode estar relacionada a processos epigenéticos presentes nos espermatozoides.
Entretanto, a pesquisadora destaca que são necessários novos estudos para compreender essas possíveis relações.
Estudo ainda não comprova relação de causa e efeito
Apesar dos resultados, os cientistas alertam que não é possível afirmar que o consumo paterno de ultraprocessados provoque alterações no bebê.
A pesquisa encontrou associações estatísticas. Portanto, ainda não há evidências suficientes para estabelecer uma relação direta de causa e efeito.
Para avançar nessa investigação, serão necessários estudos maiores, com acompanhamento dos homens antes da concepção e ao longo do tempo.
Essas análises poderão ajudar a esclarecer como a alimentação paterna influencia a qualidade dos espermatozoides e o desenvolvimento fetal.
Enquanto isso, os resultados reforçam a importância de considerar os hábitos dos dois futuros pais no planejamento de uma gravidez.
A pesquisa também amplia o debate sobre os cuidados com a saúde masculina antes da concepção, tradicionalmente concentrados na saúde materna.
O trabalho de Mariana Rinaldi Carvalho integra uma tese de doutorado da FMRP-USP. A pesquisa pode ser consultada no Repositório de Teses e Dissertações da USP .

