Os casos de três pessoas em surto psiquiátrico mortas por policiais militares de São Paulo em menos de duas semanas levantam questionamentos sobre a atuação da PM do estados em ocorrências do tipo.
As mortes de Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, Camila Pereira da Silva, de 32, e Antônio Nunes Batista, de 40, reacenderam as cobranças por treinamento adequado e protocolos conjuntos com serviços de saúde.
Familiares das vítimas denunciam o despreparo e o uso desproporcional da força durante os atendimentos. "Independente de classe social ou de renda ou isso ou aquilo, ninguém merece morrer dessa forma", diz José Nunes Batista, irmão de Antônio.
A mãe de Gustavo também contesta a conduta policial. "Para mim, foi uma execução, não foi uma ajuda para uma pessoa que estava em surto", afirma Santiana Munis.
O histórico de mortes em intervenções do tipo, contudo, se estende por anos. Imagens de câmeras corporais de setembro de 2024 registraram a morte de Gilberto, um ajudante de pedreiro que estava em surto e se automutilava na Fazenda da Juta, Zona Leste da capital.
Policiais entraram no imóvel armados e deram ordens para que ele deitasse. Quando Gilberto avançou com um objeto, os PMs dispararam. Vinte segundos depois, ele saiu do banheiro e foi alvejado novamente, recebendo 12 tiros no total. O objeto era uma broca de furadeira. O Ministério Público descartou legítima defesa e denunciou os agentes por homicídio com dolo eventual.
A dinâmica se repetiu no último dia 10, na morte de Gustavo, em Moema. Quatro PMs foram acionados para uma tentativa de suicídio. Ao correr da abordagem, o jovem apontou um celular para os agentes, que gritaram que ele estava armado e efetuaram 45 disparos em menos de cinco segundos. O jovem foi atingido por 27 tiros. Os policiais foram afastados das ruas e podem responder por homicídio.
O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico Rodrigues, defendeu a ação: "Eu não vejo assim alguma irregularidade na ação do policial porque ali foi um enfrentamento que a pessoa ia ter contra a vida dos policiais".
"Eu nunca vou entender um secretário de Segurança Pública falar que 45 tiros é protocolo. Nunca vou entender isso. Nunca", afirma a mãe do jovem.
Para especialistas em segurança, intervenções do tipo exigem suporte conjunto da assistência social e da saúde mental.
No caso de Antônio Nunes Batista, abordado no início de outubro na Zona Norte da capital paulista, também não havia equipe médica. Com histórico de esquizofrenia e vivendo em situação de rua, ele foi cercado por cinco policiais. O boletim de ocorrência cita que o homem portava faca e barra de ferro e que disparos de arma de choque (taser) não foram suficientes para contê-lo. Antônio foi morto com 24 tiros.
Dias depois, a vendedora Camila Pereira da Silva foi morta na mesma região. Ela portava uma faca e ia atrás do ex-companheiro. Três PMs atenderam a ocorrência e o soldado André Maximo da Costa atirou no peito da mulher, alegando que não tinha habilitação para usar taser.
O policial foi preso em flagrante por uso desproporcional da força, mas obteve liberdade provisória.
O governador Tarcísio de Freitas anunciou que se reunirá com o comando da corporação para revisar treinamentos e evitar excessos.
"A gente vai ter uma reunião com o comando da Polícia Militar já semana que vem pra revisar procedimento e treinamento. Pra impedir que excessos aconteçam. A gente não quer isso. A polícia tem que proteger a sociedade. Então, a gente tá atento a esta questão. E a gente vê a necessidade sim de rever procedimento", disse o governador.
Especialistas reforçam que a doutrina policial prevê o uso diferenciado da força, priorizando diálogo e armas de menor potencial ofensivo.
A Brigada Militar do Rio Grande do Sul reformulou seu protocolo após um episódio semelhante: a morte de Hérick Cristian da Silva Vargas, de 29 anos, baleado seis vezes dentro de casa por policiais em setembro de 2025, em Porto Alegre, durante um surto psicótico.
Após a tragédia, o estado gaúcho passou a triar os chamados pelo 190 para identificar crises psiquiátricas. Nesses casos, os policiais só atuam em conjunto com ambulâncias e médicos do Samu, com ordem expressa de priorizar a negociação sem pressa.
De acordo com a corporação, a exigência de que as equipes portem armas de choque e a atuação integrada zeraram as fatalidades nesse tipo de ocorrência no estado.
Ouça os podcasts do Fantástico
ISSO É FANTÁSTICO
O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.
