⛽ Desenvolvido em meio à crise global do petróleo na década de 1970, o primeiro veículo brasileiro movido 100% a etanol completa meio século de sua concepção inicial. Dentre tantos testes realizados na época, um projeto pioneiro criado na Faculdade de Tecnologia de Sorocaba (Fatec) se destacou.
No final de 1976, professores e estudantes transformaram um Chevrolet Opala branco em um protótipo capaz de rodar e dar a partida exclusivamente com o combustível renovável. O paradeiro do protótipo, no entanto, é desconhecido.
A iniciativa dos sorocabanos foi registrada por um jornal da época, que anunciou a inovação com o acompanhamento de uma rodada de testes do carro na estrada. Diferente do modelo desenvolvido pela fábrica da Fiat, em Betim (MG), em 1979, o motor feito na Fatec era pioneiro pela capacidade de funcionar, desde a partida, com o álcool brasileiro.
Alunos da Fatec Sorocaba desenvolveram motor automotivo movido 100% a álcool em 1976
Acervo / Jornal Cruzeiro do Sul
Entre junho e novembro de 1977, o protótipo de Sorocaba (SP) passou por testes rodoviários em estradas de asfalto e terra. Na primeira viagem oficial até Cerquilho (SP), o Opala registrou consumo médio de 8 quilômetros por litro de etanol puro, desempenho equivalente ao de um motor a gasolina da época.
Sem financiamento do Governo do Estado, a pesquisa foi impulsionada pela própria comunidade acadêmica. A faculdade cedeu as instalações do laboratório de Sistemas Mecânicos, enquanto os estudantes, por meio do Diretório Acadêmico, arcaram com os custos principais, incluindo a compra do Opala usado com chapa verde de teste. Para viabilizar a experiência, a Usina Santa Maria, localizada em Cerquilho, forneceu o álcool puro.
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Usina Santa Maria foi fundada em 1953 em Cerquilho (SP)
Redes sociais / Reprodução
A atuação dos engenheiros e estudantes
Foram necessárias cerca de 50 horas de trabalho dedicado para modificar o motor a gasolina. As adaptações técnicas incluíram o aumento da taxa de compressão com o rebaixamento do cabeçote, a troca das velas convencionais por velas frias de motocicleta, além de alterações no carburador, giclê, bobina e platinado.
A coordenação do projeto ficou a cargo do professor de Sistemas Mecânicos Dalmir Prado Salvi, que liderou uma equipe formada por sete alunos do curso de Projetos: Edson Jesus Cruciolli, Ismael Guilherme Luvizotto, Luiz Henrique Alves, Mário da Silva Roquete, Takao Watanabe, Jaime Tomosigue e João Batista Maimone.
Alunos da Fatec Sorocaba desenvolveram motor automotivo movido 100% a álcool em 1976
Acervo / Fatec
O g1 conversou com dois estudantes da época, o engenheiro mecânico Luiz Henrique Alves e Ismael Guilherme Luvizotto, hoje com 72 anos. Os amigos se lembraram que a dedicação do grupo para o desenvolvimento do motor foi apoiada também pela comunidade sorocabana.
"Nós pintamos o carro para angariar patrocinadores. Tínhamos um caderno com a anotação do valor doado por cada um, com nome e sobrenome. Quando o carro ia para a rua, as pessoas paravam para ver", afirma Luiz.
Em uma reportagem publicada pelo Jornal Cruzeiro do Sul, em dezembro de 1977, os alunos revelaram que o maior desafio do projeto foi "começar tudo do zero", pois apesar de terem buscado informações de pesquisas que já tinham sido realizadas, ou que estavam em andamento, receberam apenas negativas das empresas e instituições.
Ao g1, Luiz reafirmou: "Na época já estava se falando de motor a álcool. A Fiat estava chegando no Brasil, a Volks apoiava a pesquisa do ITA e a Ford desenvolvia internamente. Por isso optamos por pegar um Opala. Nós primeiro fizemos o motor no banco de testes e depois compramos o carro para substituir".
Jornal Cruzeiro do Sul fez reportagem sobre testes de carro movido a álcool em Sorocaba em 1977
Jornal Cruzeiro do Sul / Acervo
💡 A disputa pela inovação
A ideia de criar um motor totalmente alimentado por álcool surgiu durante um simpósio sobre fontes alternativas de energia realizado na Fatec de Sorocaba em dezembro de 1976. Na época, diante da forte dependência nacional da importação de petróleo, a busca por energias renováveis era tratada como prioridade estratégica.
Por um contexto de crise na geopolítica mundial, os países do Oriente Médio, até então os principais fornecedores de petróleo para o restante do mundo, se posicionaram com embargos e taxas para a venda de petróleo aos países do continente americano a partir de 1973. Essa ação foi motivada especialmente aos Estados Unidos, por serem apoiadores de Israel na guerra contra Egito e Síria.
Durante este período, os preços de barris desta matéria-prima apresentaram alta variação, resultando em uma eventual escassez do petróleo. Esse cenário provocou a busca por fontes alternativas de energia para a redução da dependência desse combustível fóssil.
O espírito da disputa foi sentido na prática pelos estudantes em Sorocaba. Luiz Alves aponta que o reconhecimento pelo protótipo feito na faculdade não teve mais alcance justamente por essa "competição".
"Ninguém [de alguma montadora] veio nos perguntar e também não fomos atrás de contar. Porque na época era como se fosse o novo ouro, ninguém queria entregar o tesouro, o que tinha e o que já sabia para o concorrente. E nós conseguimos testar algo 100% a álcool porque não tínhamos a pressão de já ter que entregar algo para uma empresa, com a disputa comercial", destaca.
Alunos da Fatec de Sorocaba desenvolveram carro '100% álcool' em 1977
Luiz Alves / Arquivo pessoal
Diferença entre outros modelos
O Fiat 147 é reconhecido como o primeiro carro a etanol fabricado no Brasil, em 1979. A diferença do modelo de Sorocaba é que se trata de produção em série, com unidades em linha de produção. O carro da fabricante italiana foi apelidado popularmente de “Cachacinha”, por conta da tecnologia do novo motor.
O Fiat 147 foi o primeiro automóvel produzido pela Fiat no Brasil
Fiat / Divulgação
Contudo, ainda durante o mesmo período em que se trabalhava na unidade do Chevrolet Opala, em Sorocaba, o Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP), no Vale do Paraíba, também atuava em projeto similar.
No entanto, há uma diferença entre o modelo sorocabano e o que estava em desenvolvimento no ITA. Ao contrário do Dodge Polara, o sistema desenvolvido em Sorocaba era 100% a etanol. No Polara, a exemplo do 147, a partida era chamada de partida a frio, à gasolina e com o famoso tanquinho.
Modelo Dodge 1800 Polara foi utilizado nos primeiros testes de combustível a álcool no Brasil
Redes sociais / Reprodução
Ao contrário do Polara, que está exposto no museu do ITA, o Opala a etanol da Fatec sumiu. Ao g1, um dos estudantes que deixou a faculdade pouco após o projeto contou que não sabe do paradeiro do carro utilizado no estudo.
O Centro Paula Souza (CPS), que mantém as Fatecs em São Paulo (SP), também declarou não ter informações sobre o que foi feito com o veículo após a conclusão dos testes.
Google Street View/Reprodução
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