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Saques a lojas, ataques a prefeituras e prédios públicos se apartaram das manifestações estudantis e rapidamente ganharam contornos políticos, explorados pelas principais forças que disputam a sucessão no Palácio Eliseu.
O apelo de Macron — “Quem destruiu deve pagar; quem saqueou, deve restituir” — pareceu diluir-se na apatia, enquanto a inação do governo alimentava críticas e a oposição, em uníssono, exigia a renúncia do ministro do Interior, Laurent Nuñez.
Com os índices de aprovação do presidente em evaporação, na média de 15%, cresce o risco de uma conflagração sem precedentes no período pré-eleitoral, como observou Frédéric Dabi, diretor do Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop).
“Coexistem dois cenários: uma arena política onde os candidatos debatem e tentam persuadir, e uma arena social que os ignora completamente por diversas razões”, ponderou ele, em entrevista à agência de notícias AFP.
Apontada como favorita nas pesquisas para suceder Macron, a líder da extrema direita, Marine Le Pen, parece beneficiar-se do caos. Ela não precisou se esforçar para tirar proveito da situação, reforçando a narrativa de restaurar a ordem e apresentando-se, ironicamente, como a candidata de “uma França apaziguada”.
A candidata da Reunião Nacional apoiou os revoltosos com o custo de vida, prometendo “libertar os franceses das políticas tóxicas de Macron” e protegê-los da violência da extrema esquerda. Le Pen, contudo, passou ao largo das propostas de austeridade de seu partido, consideradas bem mais radicais do que a do presidente.
Antes que assentasse a poeira dos saques e incêndios de sábado, as acusações entre o governo e a extrema esquerda ampliaram o volume. O líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, condenou as pilhagens e a violência, esquivando-se das acusações de responsabilidade pelo caos, apontadas pelo premiê, Sébastien Lecornu.
"Não sei quem ouvirá minha voz nessas circunstâncias, mas minha mensagem é clara: aqueles que compartilham nossa luta não têm lugar nos saques e no vandalismo", acrescentou.
De acordo com as pesquisas, o candidato da extrema esquerda está empatado com o candidato de centro-esquerda Raphael Glucksmann e o de centro-direita Edouard Philippe na disputa pela vaga do segundo turno nas eleições de maio. Mélenchon acusou Macron “de deixar a situação se deteriorar”, sem oferecer soluções para apaziguar a indignação.
Como observou o diretor do Ifpo, Fredéric Dabi, o país não teve tempo de se recuperar de incêndios, seca, aumento vertiginoso dos combustíveis e das sucessivas crises deflagradas nos últimos meses. Sem maioria parlamentar, sem empatia, incapaz de implementar suas reformas e com os cofres públicos vazios pela dívida interna galopante, Macron personifica as frustrações dos franceses e está fadado a viver os próximos seis meses como um pato manco.
