# ‘O Outro Lado das Redes’ revisita escândalo do Facebook sem impacto de ‘A Rede Social’

- Seção: Entretenimento
- Fonte: Rolling Stone Brasil (https://rollingstone.com.br/cinema/o-outro-lado-das-redes-critica/)
- Publicado em: 2026-10-19T15:54:40.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1254800-o-outro-lado-das-redes-revisita-escandalo-do-facebook-sem-impacto-de-a-rede

> Atualmente, é difícil pensar no Facebook sem associá-lo às inúmeras polêmicas envolvendo Mark Zuckerberg , seus algoritmos e a influência da plataforma sobre o comportamento de milhões de pessoas. A rede social que surgiu ainda na primeira…

Aquilo que parecia uma ferramenta simpática, quase inocente, de aproximação entre pessoas revelou uma estrutura muito mais complexa e problemática. Parte desse funcionamento veio à tona em 2021, quando documentos internos vazados deram origem à investigação conhecida como The Facebook Files , publicada pelo The Wall Street Journal . É justamente sobre as consequências dessas revelações que O Outro Lado das Redes , escrito e dirigido por Aaron Sorkin ( Os 7 de Chicago ), se debruça.

Apresentado como uma espécie de continuação de A Rede Social , o longa acompanha Frances Haugen ( Mikey Madison , de Anora ), ex-funcionária do Facebook responsável por vazar documentos que expunham o conhecimento da empresa sobre os danos provocados por suas próprias ferramentas, e Jeff Horwitz ( Jeremy Allen White , de O Urso ), jornalista encarregado de investigar o material e torná-lo público.

Paralelamente, acompanhamos Zuckerberg , agora interpretado por Jeremy Strong ( Succession ), às voltas com as pressões políticas e os questionamentos sobre a responsabilidade da plataforma. Trata-se de uma história que alguns poderiam classificar como desnecessária, daquelas que &#8220; ninguém pediu &#8220;, ou mesmo datada. A primeira crítica parece pouco justificável, considerando que os efeitos dessas práticas continuam presentes em nossa relação com a internet. A segunda, porém, até encontra certo respaldo na maneira como Sorkin escolhe contar essa história.

Isso porque, em um mundo no qual a tecnologia, as redes sociais e seus algoritmos avançam em uma velocidade difícil de acompanhar, muitas das descobertas apresentadas pelo filme já não provocam o mesmo espanto de cinco anos atrás. Não que os acontecimentos tenham perdido importância, mas a percepção coletiva sobre os mecanismos dessas plataformas mudou consideravelmente. Hoje, a ideia de que empresas de tecnologia conhecem os efeitos nocivos de seus produtos e, ainda assim, priorizam interesses comerciais dificilmente representa uma revelação surpreendente.

Sorkin parece reconhecer a gravidade do assunto, mas encontra dificuldades para traduzir essa complexidade em cinema, recorrendo a uma abordagem excessivamente didática, que frequentemente explica aquilo que o espectador já compreendeu. Inspirado pela tradição dos dramas jornalísticos e investigativos de outras décadas, o diretor constrói uma narrativa que, apesar das boas intenções, por vezes parece chegar atrasada ao próprio debate que pretende provocar. Resta a nós, portanto, encontrar interesse não exatamente nas descobertas, mas na encenação do processo que permitiu torná-las públicas.

É nesse aspecto que O Outro Lado das Redes encontra seus melhores momentos, especialmente na dinâmica entre Madison e White . A relação entre a denunciante e o jornalista oferece ao filme uma dimensão humana que suas explicações sobre o funcionamento do Facebook nem sempre conseguem alcançar. Há uma tensão interessante entre a responsabilidade de revelar informações capazes de atingir uma das empresas mais poderosas do mundo e o trabalho de transformar documentos em uma investigação compreensível e consistente.

Em contrapartida, Jeremy Strong parece deslocado como Zuckerberg , apostando em uma caracterização que frequentemente beira a caricatura. Seu personagem existe sobretudo na superfície, definido por gestos, comportamentos e pela maneira como aqueles ao seu redor obedecem às suas determinações, mas raramente alcança uma complexidade que permita compreender o homem por trás da figura pública. O resultado é um retrato limitado de alguém que deveria representar uma das principais forças dramáticas da narrativa, algo que Jesse Eisenberg ( A Verdadeira Dor ) tirou de letra em 2010 e que o roteiro de Sorkin assim permitia.

Entretanto, a maior fragilidade do longa está justamente naquilo que inevitavelmente o aproxima de seu antecessor: a ausência de um cineasta capaz de transformar a escrita de Sorkin em algo cinematograficamente mais estimulante. Em A Rede Social , Fincher compreendia que as disputas de poder não estavam apenas nos diálogos, mas também na maneira de filmá-los.

Já em O Outro Lado das Redes , Sorkin parece frequentemente subordinado ao roteiro, como se bastasse organizar informações, colocá-las na boca dos personagens e permitir que os fatos falassem por si. O problema é que, sem uma construção visual igualmente expressiva, a sucessão de explicações e diálogos acaba tornando a investigação mais arrastada do que deveria, especialmente quando o filme precisa sustentar o interesse por revelações que já não carregam tanto impacto.

Isso não significa que O Outro Lado das Redes seja uma obra sem valor, tampouco que precisasse reproduzir a linguagem de Fincher para justificar sua existência. Há algo pertinente na decisão de Sorkin de retornar ao universo que ajudou a apresentar ao cinema, agora interessado não mais na ambição por trás da criação do Facebook, mas nas consequências do modus operandi da empresa e em seu protagonismo nas redes.

Se A Rede Social observava o nascimento de uma ferramenta que prometia revolucionar as relações humanas, O Outro Lado das Redes examina o que aconteceu quando essa promessa se transformou em um negócio capaz de influenciar comportamentos, discursos e até a maneira como percebemos a realidade. O problema é que, ao contrário do filme de 2010, que parecia compreender o futuro antes mesmo de ele acontecer, esta nova produção se limita, em grande parte, a organizar um passado cujas consequências já conhecemos. Sorkin tem uma história importante para contar, mas lhe falta encontrar uma maneira impactante de contá-la.

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