O modelo entrou na eleição brasileira. No debate da Band , no último domingo (18), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perguntou ao senador Flávio Bolsonaro (PL) se ele pretendia adotar as premissas econômicas do mandatário argentino , caso seja eleito presidente no segundo turno, que acontece no próximo domingo (25).

No debate, Flávio não citou o argentino e respondeu que aplicará um “tesouraço” nas contas públicas.

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A proximidade entre Flávio e Milei, em termos de alinhamento ideológico, é pública. Flávio esteve em Buenos Aires em junho para se reunir em junho para se reunir com Milei. Logo em seguida, em julho, o argentino retribuiu o gesto, indo a São Paulo para participar da convenção do PL que oficializou a candidatura do senador.

No discurso, o argentino declarou apoio a Flávio e criticou Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O Itamaraty chamou de volta o embaixador brasileiro na capital argentina, Julio Bitelli, para consultas.

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A coordenadora de campanha de Flávio Bolsonaro, Daniella Marques, tratou o vizinho como referência, e o fez em mais de uma oportunidade. “Vamos usar de inspiração o que foi feito pelo governo de Javier Milei, na Argentina”, afirmou, ainda em setembro, ao citar a necessidade de atrair investimentos e reduzir impostos.

Na mesma ocasião, Marques afirmou que um eventual governo Flávio pode revogar mais de mil normas infralegais.

Milei chegou ao poder prometendo baixar a inflação que assolava o poder de compra da população. No final de 2023, o índice superava a casa dos 200% anuais. Mais recentemente, os preço subiram 1,9% em setembro, depois de 1,7% em agosto, e acumulam 33,4% em doze meses, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec).

Com a queda, houve maior valorização do peso argentino, que, historicamente, sempre enfrentou ondas de desvalorização frente ao dólar americano. Além disso, a baixa nos juros e os cortes de gastos públicos fizeram com que as contas públicas argentinas passassem a ter um raro superávit histórico.

Por outro lado, o custo social do ajuste foi sentido de imediato para a maior parte da população do país vizinho, especialmente os setores mais empobrecidos e a própria classe média do país.

Logo no primeiro semestre de 2024, a pobreza chegou a 52,9%. Eram os tempos do auge do ajuste fiscal, e a ideia de que seria preciso enfrentar um período de dificuldades para, só então, prosperar, já estava previsto por Milei na sua primeira campanha eleitoral.

No final de 2025, a pobreza caiu a 28,2%. O percentual ainda era alto, mas significativamente mais baixo do que o do ano anterior. Entretanto, neste 2026, a pobreza voltou a subir, atingindo, atualmente, pouco mais de 32% da população urbana.

Enquanto isso, a indigência avançou de 6,3% para 7,5%. Em outra forma de mensuração, um a cada 13 moradores das grandes cidades argentina não tem renda suficiente para comprar a cesta básica de alimentos do mês.

O fator ‘trabalho’ no quadro da economia

O mercado de trabalho vem acompanhando a piora do complexo quadro econômico argentino. Atualmente, 45% dos ocupados estão na informalidade, não tendo acesso à carteira assinada, férias ou contribuição para a aposentadoria.

O desemprego foi oscilando ao longo dos últimos anos, mas está em alta. Milei assumiu uma taxa de desemprego de 5,7%, mas a taxa avançou para cerca de 7,7% já no primeiro semestre de 2024, e recuou ao longo do ano, até 6,4% no quarto trimestre.

O alívio, porém, não se sustentou ao longo de 2025, que terminou o ano em 7,5%. Ao longo de 2026, o patamar se manteve estável, embora alto: 7,8% no primeiro semestre, com 7,9% atualmente. Segundo o Indec, a taxa de emprego ainda se sustenta pelo fato de que há mais gente procurando trabalho, com avanço na informalidade.

A Argentina, ao longo de décadas, enfrenta problemas em relação à abertura comercial. O protecionismo da indústria foi uma das marcas da longa passagem de Juan Domingo Perón [1895-1974] pela Casa Rosada, mas caiu pelas políticas mais liberalizantes de Carlos Menem, que governou o país nos anos 1990.

Desde a posse de Milei, porém, 30.633 empresas fecharam no país vizinho. O montante representa cerca de 6% dos empregadores privados no país, de acordo com o centro de estudos Fundar e o Centro de Economia Política Argentina.

Só na indústria , foram 4.020 empresas, que geravam pouco mais de 97 mil empregos formais até maio. Enquanto isso, a importação de eletrodomésticos mais que dobrou, enquanto a de roupas avançou 86% em relação ao primeiro semestre de 2023.

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