O que começa como uma espécie de Thelma & Louise (1991), com duas mulheres cometendo crimes e fugindo pelas estradas, logo abandona qualquer compromisso com a lógica convencional para mergulhar em uma experiência tão lúdica quanto emocional. Mas, por trás de toda essa inventividade, existe uma história bastante simples e universal: a de uma filha que encontra na imaginação a possibilidade de viver ao lado da mãe aquilo que a realidade lhe negou.

A partir de uma história de Taís Monteiro e Pedro Cândido , o longa acompanha Rosa ( Verônica Cavalcanti , Paloma ), uma mulher de cinquenta e poucos anos que, durante uma ressonância magnética, é orientada a acessar uma memória feliz. Incapaz de encontrar essa lembrança, ela decide inventá-la. É assim que surge uma viagem imaginária ao lado da mãe, Dalva ( Luciana Souza , Bacurau ), uma mulher livre, irreverente e que passou parte da vida afastada da filha depois de ser presa por matar um homem prestes a cometer um feminicídio. Crescida sob o peso dessa ausência, Rosa transforma a mãe em companheira de estrada e cria para ambas uma aventura que nunca aconteceu. Mais do que revisitar o passado, ela tenta reescrevê-lo, encontrando na fantasia uma maneira de preencher os espaços deixados pela saudade, pela culpa e por tudo aquilo que as duas não puderam compartilhar.

Há um delicioso entrecruzamento entre forma e conteúdo que faz jus tanto ao que está sendo contado quanto à maneira escolhida para contar. Janaína constrói gradualmente a consciência de que estamos diante de um sonho, mas sem recorrer a explicações ou estabelecer limites claros para esse universo. Um vendedor de água desaparece repentinamente, uma conversa de bar apresenta falas reproduzidas de trás para frente e, entre um plano e outro, copos de cerveja ora aparecem cheios, ora pela metade, enquanto garrafas mudam de posição ou quantidade sem qualquer justificativa.

São pequenas rupturas de continuidade que, longe de constituírem erros, tornam-se parte fundamental da linguagem do filme. Em colaboração com a direção de arte de Patrícia Passos , a cineasta transforma essas “inconsistências” em manifestações de uma mente que não obedece às regras do espaço, do tempo ou da causalidade. Como nos sonhos, aceitamos o absurdo porque, naquele instante, ele parece perfeitamente natural.

Essa liberdade narrativa permite que Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha encontre uma identidade própria, ainda que dialogue com o surrealismo cinematográfico e a tradição dos filmes de estrada ( road movies ). A viagem de Rosa e Dalva não obedece a um destino geográfico, mas afetivo. Cada encontro, desvio ou situação aparentemente desconexa parece responder aos desejos e às inquietações da protagonista.

E é justamente nessa desordem que o filme encontra sua coerência: afinal, não estamos acompanhando os acontecimentos como eles realmente ocorreram, mas como Rosa gostaria que tivessem acontecido. Verônica Cavalcanti transmite a vulnerabilidade de alguém que tenta reorganizar a própria história, enquanto Luciana Souza injeta uma energia contagiante em Dalva , fazendo dela uma presença vibrante, contraditória e cheia de vida. A química entre as duas sustenta emocionalmente uma narrativa que poderia facilmente se perder em seus próprios experimentalismos.

Há, contudo, algo de profundamente melancólico nessa aventura aparentemente descompromissada. Rosa não está recuperando uma lembrança, mas fabricando uma felicidade que nunca pôde experimentar, construção essa atravessada por desejos, ressentimentos e necessidades emocionais. Ao imaginar uma mãe com quem pode dividir a estrada, o riso e a transgressão, Rosa não apaga a dor da ausência, mas encontra uma maneira de conviver com ela.

A imaginação deixa de ser uma simples fuga da realidade para se transformar em um mecanismo de sobrevivência e afeto, capaz de oferecer algum conforto diante daquilo que já não pode ser modificado. Nesse sentido, a presença de “ Sangue Latino ”, eternizada na voz de Ney Matogrosso , funciona como uma espécie de mantra que atravessa a narrativa, reforçando a dimensão de liberdade, resistência e desejo de viver que move essas duas mulheres.

É possível que a natureza fragmentada da narrativa, com seus desvios e episódios que surgem e desaparecem sem maiores explicações, provoque estranhamento em quem procura uma progressão dramática convencional. Mas exigir linearidade de Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha seria ignorar justamente aquilo que o torna tão especial. Janaína Marques Ribeiro compreende que o inconsciente não precisa oferecer respostas, tampouco organizar suas imagens para facilitar nossa compreensão.

Seu filme encontra beleza na desordem e, sobretudo, na possibilidade de transformar o delírio em um gesto de amor. Porque, no fim das contas, pouco importa se Rosa e Dalva realmente viveram aquela aventura. O que importa é que, durante aqueles instantes, a filha pôde ter a mãe ao seu lado, mesmo que apenas dentro da própria cabeça. O passado permanece inalterado, e a ausência não deixa de existir, mas ganha novos contornos. Afinal, quando a realidade nos priva de determinadas experiências, talvez a imaginação seja o único lugar onde ainda podemos vivê-las. E, às vezes, inventar uma lembrança feliz pode ser o primeiro passo para fazer as pazes com aquelas que nunca tivemos.

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