Internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, desde a semana passada, ele contraiu o Coxsackie tipo 2, que agravou uma insuficiência cardíaca já existente. Com a descompensação, o coração passou a bater mais devagar do que o normal, a chamada bradicardia, e surgiram outras arritmias.

A cirurgia para implantar o aparelho, prevista para segunda-feira (19), foi adiada para terça (20). Segundo a assessoria, ele está estável e sem complicações. A esposa, Renata de Nóbrega, que é médica, também teve sintomas da infecção, mas não precisou de internação.

Uma família de vírus muito comum

Os coxsackievírus pertencem ao grupo dos enterovírus, o mesmo do vírus da poliomielite, e se dividem em dois ramos, o A e o B. A síndrome mão-pé-boca, doença muito contagiosa causada pelo Coxsackie, atinge sobretudo crianças pequenas, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria.

O ramo A reúne 23 tipos e responde por essa doença.

O ramo B tem seis tipos e é o mais associado a complicações em órgãos internos, como coração, pâncreas, fígado e sistema nervoso.

O tipo 2 existe nos dois ramos, e a informação divulgada sobre o caso do apresentador não esclarece a qual deles pertence.

O vírus está amplamente disseminado. Um levantamento na Itália encontrou sinais de contato anterior em cerca de sete em cada dez pessoas analisadas, e a maior parte das infecções passa como um resfriado, uma diarreia ou uma febre curta, sem que ninguém descubra o causador.

O contágio ocorre principalmente pelo contato com fezes, e o vírus continua sendo eliminado nas fezes por semanas depois da infecção, quando os sintomas já passaram.

Ele também circula em gotículas respiratórias e na saliva e pode permanecer em superfícies e objetos, o que favorece a disseminação em casas, creches e escolas.

Como chega ao coração

O caminho do vírus pelo corpo ajuda a entender como uma virose banal vira um problema cardíaco. Ele entra pela boca, se multiplica no intestino e, dali, cai na circulação. Pelo sangue, encontra células que carregam na superfície uma espécie de fechadura à qual o vírus se encaixa.

No coração, essas fechaduras se concentram nas junções entre as células do músculo cardíaco, os mesmos pontos por onde passam os sinais elétricos que coordenam os batimentos. O cirurgião cardiovascular da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo Ricardo Kazunori explica o mecanismo.

"Dentro da célula, o vírus a danifica diretamente, e a reação do sistema imunológico, ao tentar eliminá-lo, pode somar inflamação ao estrago. O resultado é a miocardite, inflamação do músculo do coração. Quando o processo alcança o sistema elétrico, o sinal que dita o ritmo pode ficar lento ou ser interrompido em parte do trajeto, e o coração desacelera", explica.

Na maioria dos casos de miocardite viral, essas falhas de condução são passageiras. Há relatos raros na literatura médica em que o bloqueio se tornou irreversível e exigiu marcapasso definitivo, inclusive após infecção pelo Coxsackie B2.

O marcapasso é um aparelho que assume a tarefa de emitir os sinais elétricos quando o coração não consegue fazê-lo sozinho.

Quando a infecção deixa de ser leve

Recém-nascidos, pessoas com defesas enfraquecidas e pacientes com doença prévia no coração ou no cérebro estão entre os que mais sofrem complicações, segundo revisão científica atualizada em julho deste ano e publicada pela plataforma de educação médica StatPearls. A insuficiência cardíaca, condição em que o coração já bombeia com menos eficiência, deixa o órgão com menos margem para absorver uma inflamação.

Dor no peito, falta de ar, palpitações e febre que não cede pedem avaliação médica urgente. O mesmo vale para dor de cabeça intensa com rigidez no pescoço, confusão mental e convulsões, que sugerem comprometimento do sistema nervoso.

Em bebês, febre acompanhada de dificuldade para mamar, sonolência excessiva ou irritabilidade exige atendimento imediato.

O vírus também tem afinidade pelo pâncreas, e pesquisas investigam se infecções persistentes participam do surgimento do diabetes tipo 1, hipótese que segue em estudo.

Nos quadros leves, o diagnóstico é feito pelos sintomas e dispensa exames. Nos graves, atípicos ou em recém-nascidos e pessoas com imunidade baixa, os médicos recorrem a um teste que detecta o material genético do vírus no sangue, no líquor (líquido que envolve o cérebro e a medula) ou em amostras do coração.

Sem antiviral específico

Não existe medicamento que elimine o coxsackievírus, nem vacina disponível. O tratamento procura aliviar os sintomas e sustentar os órgãos afetados: hidratação e remédios para febre e dor nos casos leves; monitoramento do coração e medicamentos para a insuficiência cardíaca quando há miocardite; suporte mecânico à circulação nas formas mais graves. Quando a falha está no ritmo, o marcapasso trata a arritmia, e não o vírus.

A prevenção depende de hábitos simples.

Lavar as mãos com água e sabão, sobretudo depois de trocar fraldas, usar o banheiro e antes de preparar ou comer alimentos, é a medida mais eficaz. Limpar superfícies e objetos tocados com frequência, evitar compartilhar talheres e itens pessoais durante a doença e redobrar a higiene na gravidez, já que a mãe pode transmitir o vírus ao bebê, completam o cuidado.

No caso de Carlos Alberto de Nóbrega, a infecção encontrou um coração já fragilizado, e a cirurgia marcada para terça-feira (20) busca corrigir a falha de ritmo que resultou dessa combinação.