# Roger Daltrey fala à RS sobre Brasil, carreira solo, The Who e Eddie Vedder

- Seção: Entretenimento
- Fonte: Rolling Stone Brasil (https://rollingstone.com.br/musica/roger-daltrey-entrevista-2026/)
- Publicado em: 2026-10-20T10:27:21.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1266724-roger-daltrey-fala-a-rs-sobre-brasil-carreira-solo-the-who-e-eddie-vedder

> Prestes a vir ao Brasil para se apresentar, como atração solo, no segundo dos três dias de Best of Blues and Rock — festival marcado para ocorrer no Parque Ibirapuera, São Paulo, entre 20, 21 e 22 de novembro —, Roger Daltrey garante: sua voz está no auge.

Neste bate-papo com Rolling Stone Brasil , o lendário cantor de 82 anos reflete sobre suas atividades recentes como artista solo e com The Who , explica a sonoridade dinâmica de seu show atual, avalia o estado da música contemporânea e rasga elogios a Eddie Vedder , o outro headliner do evento.

Texto por Igor Miranda

Entrevista por Igor Miranda e Pedro Hollanda

Entrevista com Roger Daltrey (The Who)

Você volta ao Brasil, agora como artista solo, cerca de 9 anos após ter tocado pela única vez com The Who. O que você se lembra da experiência de se apresentar aqui em 2017?

Roger Daltrey: O público foi simplesmente fabuloso. O calor da plateia brasileira é incrível para o rock. Além disso, estávamos em turnê com o Guns N’ Roses . Então, havia um certo espírito competitivo. Pensamos: “bem, vamos dar o nosso melhor para eles”.

Agora, você toca em um festival que também conta com Eddie Vedder, historicamente o maior fã de The Who no mundo — a ponto de ele ter dito que a banda mudou a vida dele. O que você acha do Pearl Jam, e o que você pensa quando os vê ao vivo?

RD: Gosto muito do Pearl Jam . Acho que eles surgiram na hora certa, quando a música estava em uma fase meio desleixada. Era o final dos anos 1980. Bandas como Pearl Jam e Nirvana deram uma sacudida no cenário em uma época em que ele precisava muito dessa sacudida. Eddie Vedder se tornou um amigo incrível ao longo dos anos. Ele sempre esteve presente. Já pedi a ele para fazer várias coisas para mim. Ele tocou na minha festa de 50 anos no Carnegie Hall [em 1994]. E ele é fantástico como artista solo. Foi aí que eu me dei conta da riqueza da voz dele. Porque no Pearl Jam , a plenitude da voz dele acaba ficando um pouco abafada. Já como artista solo, ela realmente se destaca. Dá para entender.

Por falar em carreira solo: recentemente, você mencionou que nunca levou sua carreira solo tão a sério quanto talvez pudesse. Aos 82 anos, o que torna essa parte da sua trajetória ainda mais especial?

RD: Na minha idade, eu já deveria estar aposentado, mas acho que minha voz está melhor hoje do que nunca. Passei por um período difícil no início dos anos 2000, quando tive um pré-câncer nas cordas vocais. Eu odiava subir ao palco e não conseguir alcançar as notas que queria. Mas agora, por algum motivo, aos 82 anos, ainda consigo alcançar as mesmas notas que alcançava em 1971, quando gravamos o álbum Who’s Next . Ainda descobri outras facetas da minha voz. No fim, cantar não é apenas chegar às notas certas. É transmitir o sentimento certo para as palavras. E viver mais tempo acaba enriquecendo isso.

Você também tem dito que seu trabalho solo permite explorar extensões vocais que o volume alto do The Who geralmente não permite. Existe alguma situação em que o trabalho que você desenvolveu com sua carreira solo tenha permitido que você desse um passo para trás e olhasse para todo o repertório com um olhar diferente?

RD: É isso que eu faço neste meu show solo agora. Montei essa minha banda atual durante a pandemia, porque os músicos foram muito maltratados. Eles estavam passando por momentos muito difíceis, recebendo muito pouco dinheiro do governo. Pensei: preciso fazer algo; nós, que tivemos uma carreira sólida e nos demos bem na indústria, devemos fazer algo para manter os músicos trabalhando. Não só os músicos, mas também as equipes de produção. As pessoas se esquecem da importância de uma boa equipe de produção para um show. São pessoas extraordinárias: os técnicos, os motoristas dos caminhões&#8230; é incrível a maneira como trabalham, a ética de trabalho deles. Eles não recebem o reconhecimento que merecem. Então pensei em levar minha carreira solo um pouco mais a sério e montar uma banda com instrumentos de sonoridade completamente diferente. Reuni um acordeonista [ Geraint Watkins ], uma violinista [ Katie Jacoby ], dois guitarristas [ Simon Townshend e Doug Boyle ], uma percussionista [ Jody Linscott ], um gaitista [ Steve Weston ], um bandolinista [ Billy Nicholls ], um baixista [ John Hogg ] e um baterista [ Scott Devours ]. Simon [irmão mais novo de Pete Townshend ], que sempre esteve comigo em todos os meus shows solo, é um dos guitarristas e faz backing vocals. São nove músicos nesta banda e exploramos a música do The Who de uma maneira diferente. Tocamos “Won’t Get Fooled Again” e “Baba O’Riley” , mas não como The Who . Tocamos no mesmo andamento. Eu canto da mesma forma, na mesma tonalidade. No entanto, fazemos tudo com instrumentos. Sem backing tracks e sintetizadores. Ao fazer isso, conquistamos uma liberdade enorme, porque essas faixas pré-gravadas no The Who costumavam nos limitar. Não dava para expandir.

Historicamente, The Who sempre teve isso, porque a obra ficou muito marcada por álbuns como Tommy e Who’s Next e vocês sempre pensavam em fazer algo novo, mas não conseguiam com a tecnologia da época. Hoje, dá para dizer que é melhor ter músicos te acompanhando?

RD: Sim! Fazemos tudo com instrumentos, o que cria uma sonoridade completamente nova, mas não é menos rock. É tão rock quanto antes, só que diferente ao longo dos anos. É ótimo explorar isso porque você ouve, por exemplo, que temos um solo de gaita em “Won’t Get Fooled Again” . Tenho um dos melhores gaitistas que já ouvi desde que Sonny Boy Williamson tocava com a gente, nas casas noturnas de Londres, lá no início dos anos 1960. Então, é muito emocionante todas as noites porque nunca sabemos exatamente como vai terminar. Cometemos muitos erros, mas não nos importamos. Nós gostamos deles. E descobri que o público nunca vai para casa falando sobre o show perfeito. Se você comete um erro, eles vão falar disso para sempre.

Achei muito interessante você mencionar sua experiência tocando com Sonny Boy Williamson, porque seu último álbum solo foi lançado em 2018 e tinha um foco maior em soul e R&B, que lembrava os primórdios do The Who.

RD: Sim, basicamente o Northern Soul dos primórdios. Eram as músicas deles que eu adorava naquela época. E quando me expulsaram do The Who em 1965, era esse tipo de banda que eu iria formar, com esse tipo de música.

Feita essa reformulação de sua banda, você tem planos de gravar um novo álbum solo? Ou se apresentar no palco é seu foco principal no momento, seja solo ou com o The Who?

RD: Gosto de estar em frente a uma plateia e gosto de conversar com ela. Gosto que minha plateia me faça perguntas. Adoro essa conexão. Estou farto de ficar distante. Estar numa banda de rock de estádio te coloca numa bolha — e isso é muito perigoso para a cabeça. Não combina comigo. Gosto de estar perto das pessoas. Não quero um fosso, um rio, entre meu público e eu. Quanto mais perto, melhor.

Em relação ao The Who&#8230; Pete e você ainda falam sobre fazer uma turnê de despedida em outras partes do mundo. O Brasil está nos planos? Ou 2017 terá sido, de fato, a última visita da banda?

RD: No momento, não temos nenhum plano feito para 2027. Um dos motivos pelos quais estou fazendo esta turnê é que, no início do ano, tive alguns problemas de saúde sérios. E é muito difícil fazer planos quando você não sabe se vai conseguir cumpri-los. Fizemos um ensaio antes de eu partir para esta turnê. The Who também fez um ensaio e a performance foi ótima como sempre. E eu jamais trabalharei com o The Who se não houver aquela energia intrínseca pertencente à banda. O jeito de tocar do The Who é diferente de qualquer outra banda por aí. E exige isso. Não dá para trapacear. E eu não farei isso com os nossos fãs. Se chegarmos ao Natal e eu tiver terminado essa turnê sem problemas, terei me proposto um grande desafio. Estamos superando isso — e eu chegarei lá. Daí, então, faremos planos. Mas, no momento, sinceramente, não posso dizer nada.

Sobre o ensaio com The Who que você mencionou&#8230; foi relatado à imprensa que Zak Starkey participou. Vocês tiveram uma situação um tanto complicada no último ano, com direito a demissão, recontratação, nova dispensa e, agora, retorno. Como vocês chegaram a esse ponto de agora?

RD: Zak Starkey é nosso amigo. Para mim, Zak é como um filho. Ele está comigo há 40 anos como meu baterista. Mas, às vezes, Zak enfrenta dificuldades pessoais. Isso pode afetar a responsabilidade que um baterista carrega. Às vezes, não podemos correr o risco. Mas temos que fazer algo. E a única maneira de resolver isso é ajudá-lo a se reerguer.

The Who com Zak Starkey, em 2017 (Foto: Ethan Miller / Getty Images)

A última pergunta está um pouco relacionada a algo que você disse anteriormente: a distância entre uma banda de rock e o público. Sendo você um dos grandes inventores da banda de rock como um espetáculo físico, você acha que esse modelo ainda faz sentido para bandas jovens? Ou acha que pertence a uma era diferente? Acha que isso não funciona mais para o cenário atual?

RD: Acho que o problema é mais uma mudança na sociedade. Mas nos anos 1960, 1970 e até nos 1980, antes da cultura das drogas pesadas dominar, tínhamos uma sociedade muito mais “nós”. E hoje é uma sociedade muito mais “eu”. Pessoalmente, acho que hoje a música meio que grita com você em vez de conversar com você. Sei lá. Mas talvez seja porque eu esteja velho demais.

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