A ciência e o mercado de consumo estão sempre em busca de fórmulas, algumas vezes mirabolantes, para alcançar a longevidade e a qualidade de vida. Ao completar 100 anos, Maria Marquesi Galhardo, moradora de Sorocaba (SP), prova que a receita para viver plenamente e com saúde pode ser mais simples do que o esperado.
“O meu segredo é a dança. Danço desde os 10 anos, sempre dancei. Já saí na escola de samba Águia de Ouro, dançava a noite toda. Então, posso dizer que a dança dá muita vida. E, também, um copinho de vinho, que eu sempre tomei e a vida floriu para mim”, diz, em um vídeo feito pela filha, Gislaine Galhardo Egidio.
Nascida em Birigui (SP) em 20 de outubro de 1926, Maria é a quinta de 11 filhos do casal João Marquesi e Maria Garcia, imigrantes que vieram da Itália e da Espanha para morar no interior paulista. Da infância, ela lembra da simplicidade da vida no sítio e do medo que as crianças tinham quando um avião sobrevoava a região.
“Morávamos no sítio, brincávamos na areia e ouvíamos falar das guerras, né? Corríamos para dentro de casa com medo dos aviões, achávamos que todos eram aviões de guerra. Havia um senhor que só ele tinha rádio e, no jornal da tarde, contava tudo. Morríamos de medo das guerras”.
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Maria conta que a paixão pela dança surgiu ainda na infância, quando acompanhava a família aos bailes. “Eu ia muito aos bailes, meu pai tocava harmônica e ficava feliz quando o chamavam para tocar, ele levava a família inteira”, relata.
Foi em um baile que, aos 18 anos, Maria conheceu aquele que seria o marido dela, mas Manoel Galhardo Dias não despertou o interesse da jovem logo de cara.
“Conheci o meu marido em 1944, em um baile. Ele pelejou para dançar comigo, eu sempre era tirada por outro cavalheiro. Até que chegou a vez dele, conversamos e ele gostou de mim. Mas eu não fiquei entusiasmada, não chamou atenção. Passados uns seis meses, nos encontramos naquela brincadeira de passar anel, demos um jeito de ficar perto e namoramos por dois anos”, detalha Maria.
Maria Marquesi Galhardo, de Sorocaba (SP), completa 100 anos e afirma que a dança e 'um copinho de vinho' explicam longevidade
Antes do casamento, Maria se formou professora e deu aulas no sítio, de dia para as crianças e à noite para os adultos. Em 1946, aos 20 anos, ela deixou de lecionar para se dedicar ao casamento. Depois, vieram as três filhas e a vida seguiu o curso, mas com a dança sempre cumprindo um papel importante para o bem-estar dela.
“Sempre dancei de tudo. Dançava bastante tango nos bailes, fiz aulas por quase dois anos, aprendi bastante. A dança está no sangue."
Em 2002, aos 76 anos, Maria participou do desfile da escola de samba Águia de Ouro, de São Paulo, experiência que permitiu a ela conhecer os preparativos para colocar uma escola na avenida. “Eu achei legal. Fiquei conhecendo tudo lá dentro, como o desfile é preparado antes de sair”, explica.
Quando perguntada sobre seguir dançando até hoje, Maria responde que parou, mas logo admite que não é bem assim. “Às vezes, eu dou uma dançadinha para ver como estão as pernas”.
Quem providencia as músicas para essas “dançadinhas” é uma assistente virtual acionada por comandos de voz. “Tenho uma companheira inseparável, que é a Alexa. Me dou muito bem com ela, porque eu já não enxergo muito bem e ela muda a música ou a rádio”, frisa.
Aos 76 anos, Maria Marquesi viveu a experiência de desfilar pela escola de samba Águia de Ouro
Um copinho de vinho
O segredo de longevidade de Maria conta, ainda, com outro ingrediente, saboreado, como ela mesma ressalta, com moderação.
“Dança, uma boa alimentação e um golinho de vinho, tudo moderado. Meu pai gostava muito de uma pinguinha e italiano toma muito vinho. Nós nos acostumamos e nunca me fez mal”, pondera Maria.
Casada por mais de 60 anos, Maria ficou viúva em 2012, mas, cercada pelo carinho da família, não se deixou abater e se manteve em movimento. Passou a viajar e conheceu diversos países, como Itália, França e Estados Unidos. “Sempre gostei muito de história e geografia. Pude conhecer o monte Vesúvio e fiquei muito admirada”.
Em Orlando, cidade localizada no estado norte-americano da Flórida, onde parte da família vive, Maria diz que aproveitava muito os parques de diversões. “Gostava de andar em todos os brinquedos, menos na montanha-russa”.
“Mas foi em um brinquedo de queda livre. Ela andava o dia inteiro a pé. Chegamos a alugar uma cadeira motorizada para facilitar a locomoção, mas ela era a única que não usava”, entrega Gislaine, filha de Maria.
Maria Marquesi cercada pelas filhas, netos e bisnetos: expectativa para a chegada da primeira tataraneta
Interesse pela vida
Um terceiro ingrediente pode ser acrescentado à “fórmula” da longevidade de Maria, segundo Gislaine: o interesse pela vida. “Ela ficou muito moderna e se atualizou. Sempre leu muito. Os jovens adoram sentar para conversar com ela. Minha mãe é muito atualizada sobre todos os assuntos. O corpo envelheceu, mas o espírito continua jovem”.
Maria está vivendo a expectativa de reunir amigos e familiares para a comemoração dos 100 anos, marcada para o dia 24 de outubro, quatro dias depois da data de nascimento.
A idosa, no entanto, já pensa mais adiante e planeja participar do próximo grande evento da família. Com três filhas, seis netos e cinco bisnetos, ela vai ganhar a primeira tataraneta, prevista para nascer em fevereiro de 2027.
Além do evento familiar, Maria ainda assume um compromisso com o g1. “Eu ainda espero viver mais alguns aninhos. Vocês ainda vão voltar aqui”, finaliza.
Maria Marquesi e as filhas Gislaine, Elizabeth e Rosa Maria
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