Horas antes de subir ao palco, Rashid recebeu a Rolling Stone Brasil em seu camarim e falou sobre os desafios de levar seu projeto ao palco. “O peso do disco precisa de uma entrega a mais no palco, inclusive”, disse. “Precisa de um passo além na emoção, para a gente conseguir transmitir de fato o que precisa ser e criar esse mundo de Cumulonimbus ”. Era um aviso.

A apresentação começou com a faixa-título, “ CUMULONIMBUS ”. A citação de Milton Nascimento e Caetano Veloso abriu caminho para Rashid ocupar o centro do palco. Logo depois das primeiras músicas o rapper fez uma pausa para se dirigir à plateia que lotava a casa. O discurso foi incisivo: “Como que eu posso dizer que uma cultura que nasce para acabar com a violência, para acabar com o racismo contra pretos e latinos lá nos guetos de Nova York, como que eu posso dizer que essa cultura não tem lado? Muita gente fala: ‘O rap não deveria ter lado’. Vocês estão me dizendo que ouviram o rap esse tempo todo para achar que o rap é um covarde?” A casa respondeu com gritos — ele havia dito exatamente o que aquele público estava esperando ouvir. A fala terminou com uma afirmação que ecoaria por toda a noite: “O hip hop jamais se ausentará de uma luta.”

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No palco, DJ Mista Brown e DJ Nyack ocupavam as laterais, com Aya nos vocais de apoio, enquanto um carro com o adesivo do movimento Defensores da Arte do Gueto compunha a cenografia. Apesar de ser incomum, a presença de dois DJs tinha motivo: “Ele [figura do DJ] é o maestro do show, o maestro da cultura. A cultura nasceu na mão do DJ”. Ao vivo, a ideia ganhava forma. Mais do que uma dupla de apoio, os dois eram o eixo do espetáculo: alternavam manipulações dos discos, construíam camadas e conduziam as transições com autonomia, fazendo de cada passagem entre faixas parte da apresentação.

No decorrer da apresentação, “ O Que Dizem os Números ” provocou uma das primeiras explosões coletivas da noite. A faixa mais documental do disco, que transforma dados reais sobre desigualdade em rima, ganhou força com a plateia cantando junto número por número. Já “ Criado por Mulheres ”, por sua vez, apresentada no terço final, trouxe um apelo emocional ao espetáculo — que vinha numa sequência pesadíssima. O momento mais inventivo ficou por conta de “ Olha Bem ”. Antes dela, os DJs tocaram o trecho de “ O Começo ”, de Gonzaguinha , e o cortaram, editaram e remixaram ao vivo até revelar o sample presente no disco, como se ele estivesse sendo construído pela primeira vez. Ali, o espetáculo deixou de ser apenas uma apresentação do álbum para demonstrar o que o hip hop pode fazer com a memória. “Defensores da Arte do Gueto” fechou o bloco central com um dos momentos tecnicamente mais impressionantes da noite. A faixa é densa em palavras — rimas multissilábicas empilhadas sem respiro —, e ao vivo essa densidade ganhava uma dimensão física, quase atlética. Horas antes, no camarim, ele havia adiantado o desafio: “A parte mais difícil de trazer o disco para o ao vivo é cantar esse tanto de palavra. É muita palavra, mano.” No palco, porém, a dificuldade não aparecia. O que aparecia era precisão.

Na entrevista, Rashid também destacou o desejo de homenagear o rap nacional ao longo da turnê: “Se tem uma coisa que eu falei ‘tem que ter’ são homenagens para o rap nacional. Se a gente tá falando sobre uma reafirmação do nosso compromisso, eu preciso fazer essas homenagens.” No palco, a intenção se concretizou, sobretudo nas participações especiais. Kamau dividiu a cena em “L’Appel du Vide” , a faixa mais introspectiva do disco, que ganhou ao vivo uma densidade diferente da gravação. Já Projota entrou em “Ouro, Mirra e Incenso” , auge do LP e da apresentação. Sob a simbologia dos três reis magos, o encontro foi recebido pelo público com muita euforia.

Se Rashid queria provar que “batida e rima” ainda bastavam para sustentar um grande espetáculo de rap, sem orquestras ou recursos grandiosos de produção, na Casa Natura Musical, ficou evidente que sim. Cumulonimbus não foi simplesmente levado ao palco, mais que isso, foi reafirmado nele.

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