O peso da morte precoce do pai, quando tinha apenas cinco anos, refletiu na balança pouco mais de duas décadas depois na vida de Breno Eduvige: 251 kg de uma silenciosa depressão que o levou à obesidade.

Aquela criança sofreu calada durante anos com a perda, tendo no futsal a sua principal companhia na ausência do grande parceiro. Breno seguiu a vida, casou e viu no nascimento das filhas a pressão pela incerteza de conseguir ser o pai que um dia teve por tão pouco tempo.

– Na infância, meu refúgio foi a bola. Ficava o dia todo na rua. Não tinha a dimensão da falta que ele faria. A depressão foi diagnosticada perto da pandemia. Eu estava ganhando muito peso. Quando minha primeira filha nasceu, estava com 150 quilos. Um ano depois, na segunda filha, 180. Em 2020, bati os 200 quilos.

– Comecei a fazer terapia e entendi que havia uma lacuna enorme pela ausência do meu pai. Hoje, com três anos de terapia, vejo que, se ele estivesse aqui, talvez minhas decisões tivessem sido mais sábias. Faço sessões semanalmente. Sem elas, não suportaria a exposição da internet e os julgamentos – conta Brenão.

Atualmente, Brenão joga futsal profissionalmente pelo Botafogo, que disputa o campeonato estadual. Paralelamente, aposta na carreira de influenciador, mostrando a rotina de emagrecimento para mais de 1 milhão de seguidores em apenas uma rede social.

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Brenão em ação pelo Botafogo em jogo do Carioca de Futsal

Até chegar à fase atual da vida, à medida que as responsabilidades aumentavam, o número na balança subia em um ritmo ainda mais brutal. Brenão se viu quase 100 kg mais pesado. Mas o maior peso não estava na balança: era a sensação de que a vida já não fazia tanto sentido.

O esporte, que era o seu maior aliado, aos poucos ficou em segundo plano.

O que parecia uma profissão virou apenas uma maneira de esquecer um pouco da rotina no trabalho como vendedor. Mas apenas o esporte é capaz de incluir. E foi assim que um jogador com mais de 250 kg chamou a atenção nas redes sociais por conseguir superar as limitações físicas.

– Sempre tive problema com a balança. Fui atleta profissional de futsal e sofria com isso desde a base. A obesidade sempre me atrapalhou, mas na época não era tratada como doença, era vista como desleixo, como se eu apenas comesse muito e não me cuidasse.

– Com 23 anos, decidi parar de jogar. Já não enxergava o mesmo horizonte de antes, aquele entusiasmo de sair do país. Comecei a estudar e descobri que ia ser pai. Minha cabeça deu uma "bugada". Larguei toda a atividade física para trabalhar e me dedicar à paternidade.

Quando cheguei ao meu ápice, com mais de 250 quilos, não via mais saída. Pensava que, a qualquer momento, dormindo, eu poderia não acordar mais

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O Índice de Massa Corporal (IMC) é uma medida internacional, criada em 1832, usada para avaliar se uma pessoa está com o peso ideal ou em situação de sobrepeso e obesidade. O cálculo é feito dividindo o peso em quilos pela altura em metros ao quadrado. O número considerado saudável para um homem adulto fica entre 18,5 e 24,9 kg/m².

O índice de Brenão chegou a 78,3kg/m², sendo enquadrado como obeso grau III – alto risco de desenvolver doenças graves –, com base no cálculo de 1,79m de altura e 251 kg que o jogador de futsal chegou a pesar.

O que parecia ser o fundo do poço, como o próprio Brenão chegou a definir em certo momento da vida, se transformou em uma história de superação nas redes sociais.

Brenão jogando com peso acima de 200kg

Os vídeos de jogos e da rotina para perder peso passaram a chamar atenção e viralizar. Hoje, o perfil do jogador no Instagram possui mais de 1 milhão de seguidores e vídeos que somam mais de 40 milhões de visualizações.

– No final de 2022, um vídeo meu jogando "X1" viralizou. Eu estava com uns 225 quilos. O Ney Silva compartilhou, e foi ali que pensei: ‘E se eu me dedicar para voltar a jogar?’. Mas eu falava de mim em vida como se estivesse morto. Não conseguia enxergar o meu tamanho. Falar de 250 quilos parece normal na internet, mas não é.

– Sou a exceção à regra, pois não tive comorbidades — pressão alta, diabetes —, graças a Deus. No final de 2023, decidi me cuidar de fato. Voltei a jogar com um time de amigos. Postei que estava com 180 quilos (embora estivesse com quase 190, por causa da cobrança das pessoas). Num jogo, fiz um gol faltando dois segundos. O vídeo explodiu.

– Dali para frente, acreditei que poderia voltar. Terminei o Campeonato Carioca amador com seis gols e recebi o convite do Botafogo para jogar o Estadual adulto. Fomos vice-campeões. Não joguei grande parte do torneio porque passei pela cirurgia bariátrica, mas as coisas foram acontecendo. Já eliminei 108 quilos e ainda faltam uns 50 para ficar ideal, além do excesso de pele – conta.

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Pisar numa quadra é, simultaneamente, um dos maiores prazeres e desafios da vida de Brenão. Enquanto os comentários positivos são frequentes, o preconceito faz parte da rotina na busca pela perda de peso e inclusão no esporte, um ambiente historicamente ligado a um padrão de corpo saudável.

– Eu nunca romantizei a obesidade. Tenho cautela ao falar sobre isso, para as pessoas não acharem que é normal ir jogar com 150 quilos, porque o risco de lesão grave é alto. Esse preconceito existe. Vira e mexe escuto uma gracinha, mas faz parte do jogo. O que digo para a molecada é: não deixem de treinar, não se acomodem.

– Eu relaxei quando vi que conseguia jogar pesado. Se pudesse voltar 10 anos, teria treinado mais. A lei da semeadura não falha. Queria que a obesidade fosse encarada de fato como doença no esporte, e não apenas como falta de vergonha na cara, mas sei que é difícil mudar esse paradigma.

Brenão, jogador de futsal

Brenão prefere deixar de lado tudo aquilo que possa atrapalhar sua saúde física e mental. Além disso, brinca com o desafio que surgiu na internet e entre os jogadores adversários: alguém consegue derrubar o pivô?

– Antigamente ninguém me derrubava. Mas hoje, como a galera me conhece da internet, todo mundo quer me bater (risos). Estou jogando a Copa Sul-Fluminense e está difícil, os caras empurram, baixam a porrada. Acho que não querem sair nos meus vídeos. Mas no final do jogo, a gente tira foto, resenha e está tudo certo. Estou treinando para não cair, fazendo muita força.

– Minha característica principal sempre foi a força. Tecnicamente, sou acima da média, senão não conseguiria jogar. Nunca fui um matador artilheiro, mas sempre fui decisivo e técnico. Jogar de costas para o gol é uma arte, e eu faço isso bem. O que mais sinto falta hoje é de finalizar como antigamente. Resumindo: força, técnica e poder de decisão – avalia o atleta.

Brenão joga como pivô e atualmente está com 143kg

O sonho profissional

Aos 32 anos e pesando 143 kg, Brenão confessa que o sonho de atuar profissionalmente e viver apenas do futsal está cada vez mais distante. Em quadra pelo time do Botafogo, o pivô passou por uma cirurgia bariátrica e segue em processo de recuperação.

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Antes de atingir níveis elevados de obesidade, ele atuou profissionalmente por times de futsal no Rio Grande do Sul e de fut7 no Rio de Janeiro. Depois disso, rodou por clubes amadores até ser convidado para jogar no Alvinegro, onde disputou o Carioca da modalidade nesta temporada.

– Tenho 32 anos. Sonhar, eu sonho, mas sei que é muito difícil. Levei meu corpo a um estágio extremo. Hoje, peso 143 quilos. Estou jogando com esse peso, mas meu corpo estava acostumado a outros movimentos. Tenho muito medo de me machucar, porque uma lesão hoje atrapalharia meu processo. Sou cauteloso, jogo pensando à frente, solto a bola rápido para não dar contra-ataque. Sei que com a bola no pé sou muito útil, mas sem ela acabo comprometendo a marcação.

– Se não acontecer de voltar ao profissional, estou em paz. Acho que minha missão hoje vai além do futsal. Até eu me recondicionar e fazer a cirurgia de retirada de pele (que deve dar uns 15 quilos só de pele), já estarei com uns 35 anos. Viver de futsal no Brasil é complexo. Minha missão hoje é contar minha história, inspirar e ajudar pessoas – analisa o jogador.

Brenão, jogador de futsal

Para Brenão, a grande vitória vai muito além de conseguir realizar o sonho de atuar profissionalmente em alto nível. Fora das quadras, ele quer voltar a ter qualidade de vida para acompanhar o crescimento dos três filhos e inspirar pessoas que sofrem com a obesidade e não conseguem vencer a doença – que atinge mais de 25% da população brasileira, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em janeiro deste ano.

– Queria muito chegar a um peso normal, com menos de 100 quilos, algo que nem lembro quando tive. Mas hoje minha missão é maior: é inspirar e ajudar pessoas. Mostrar que viver é diferente de apenas estar vivo. A gente fica sempre esperando o amanhã para resolver as coisas, e às vezes o amanhã não chega. Se eu voltar a jogar em alto nível, ótimo. Se não, estou em paz. O mais difícil eu já fiz: saí de um lugar de onde a maioria não volta.