De acordo com ele, a China tornou-se intensiva em registrar patentes, saltando de uma posição periférica para a liderança em volume de registros tecnológicos. A afirmação do especialista tem como base a análise dos dados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO), com quase um milhão de registros de patentes no setor de tecnologia mineral entre 2000 e 2019.
O domínio chinês começou com o fato de o país deter ativos importantes, caso da maior reserva mundial de terras raras, ou seja, de controlar a etapa inicial (upstream) do processamento mineral. Esse controle também acontece em outros países, como é o caso da República Democrática do Congo, que concentra as reservas de cobalto, e da Indonésia, que detém vastas reservas de níquel. O processo é similar para a Austrália e Chile, que lideram a produção de lítio.
O processamento (downstream), no entanto, tomou outro rumo, segundo Perrons. “Quando as nações ocidentais decidiram afastar as etapas de refino por considerá-las poluentes, a China assumiu o controle do setor, antecipando seu valor estratégico de longo prazo”, resumiu. Para o pesquisador, a etapa atual de requerimento de patentes é um caminho natural para os chineses.
Ele destacou ainda que a tecnologia tem redefinido a mineração global nas últimas décadas, mas com uma mudança importante: durante quase um século de história industrial, a maior inovação tecnológica do setor foi a construção de caminhões maiores para transportar toneladas de minério. Agora, o high-tech da mineração não é mais medido pelo tamanho dos pneus ou pela potência dos motores, mas pela integração direta de IA, internet das coisas (IoT), Big Data e realidade virtual.
Perrons explicou que essa mudança transformou a atividade extrativa em uma disciplina científica de alta complexidade, deslocando a discussão focada somente em ativos físicos para a posse do conhecimento técnico.
Segundo o especialista, o setor mineral vive atualmente uma dinâmica idêntica à enfrentada pela indústria de petróleo e gás no Golfo do México entre 1978 e 2003, quando a exploração começou em águas rasas e baratas e foi forçada a migrar progressivamente para lâminas d’água ultraprofundas. Para alcançar jazidas cada vez mais complexas, o especialista defende que a mineração precisa de engenharia, ciência e investimento financeiro.
Ao mesmo tempo, a tecnologia moderna tem que responder a exigências socioambientais sem precedentes. Enquanto no passado os impactos ambientais eram negligenciados, a sociedade e os investidores exigem hoje que a extração de minerais estratégicos ocorra de forma sustentável, tornando a execução desses “milagres tecnológicos” um desafio técnico ainda mais rigoroso.
Perrons ressaltou, no entanto, que a tecnologia mais avançada é inútil sem o elemento humano especializado para operá-la e desenvolvê-la. Entre os executivos do setor mineral na Austrália, a escassez de profissionais qualificados aparece sistematicamente entre os três maiores obstáculos para a entrega das estratégias nacionais de minerais críticos. A diminuição dos programas universitários voltados ao setor gerou um déficit crítico na formação de novos talentos.
Diante desse cenário, a tecnologia volta ao centro da discussão como um vetor de cooperação internacional. Ele avalia ainda que a Austrália e o Brasil possuem estratégias e roadmaps nacionais estruturados para minerais críticos, mas compartilham o mesmo gargalo na formação de mão de obra especializada. Para ele, a construção de uma agenda conjunta de pesquisa e capacitação entre universidades e indústrias dos dois países é uma proposta que pode viabilizar o avanço tecnológico da mineração.
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