Durante uma campanha de campo para registrar a avifauna do Parque Nacional do Descobrimento, no sul da Bahia, uma equipe de monitoramento fez um registro inédito para a unidade de conservação. O time filmou de perto uma ave noturna considerada “fantasma” e que é pouco conhecida pela ciência: o urutau-de-asa-branca (Nyctibius leucopterus).
“Esse achado foi muito importante, muita gente nem sabe que existe essa ave, e no parque ainda não se tinha conhecimento sobre a ocorrência dela, ela não fazia parte nem do plano de manejo. Então descobrir ela aqui, e fazer esse primeiro registro da ave para a unidade foi emocionante, o achado fortalece a importância da conservação e proteção da natureza”, comenta Jaílson Souza, condutor de visitantes que estava presente nessa expedição e garantiu imagens da ave.
O encontro com essa espécie rara e ameaçada da Mata Atlântica ocorreu no último dia das atividades, mas a descoberta da presença dela na região se deu no início do monitoramento, em outubro, quando o time, composto por pesquisadores e líderes indígenas, ouviu a vocalização da ave no local.
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A missão da equipe era percorrer diferentes áreas do Parque Nacional e da Terra Indígena Comexátibá para registrar a maior diversidade de espécies de aves.
O objetivo era catalogar cada ave encontrada na área, considerada um dos maiores remanescentes de Mata Atlântica sobre tabuleiros costeiros, para lançar, no próximo ano, um guia específico das espécies que ocorrem nesse território.
“Essa foi a segunda campanha de fotos que fizemos para a criação desse guia de aves do Parque Nacional do Descobrimento. Nesses primeiros dias conseguimos fotografar muitas aves interessantes como o beija-flor bandeirinha, o surucuá-de-coleira e até harpia. O registro do urutau-de-asa-branca foi uma vitória pra nós, pois nós ouvimos a ave vocalizar desde o primeiro dia da campanha e somente no último conseguimos com sucesso fazer a observação e registros dela”, comenta Carlos Silva, de nome indígena Piatã Pataxó, condutor e liderança do povo Pataxó e atuante na Aldeia Gurita.
Além de ser uma espécie catalogada que fará parte do futuro guia de aves do Parque Nacional, o urutau-de-asa-branca se tornará uma espécie-bandeira da conservação local, que une turismo, conservação e cultura em um único lugar.
“O Parque Nacional é o maior fragmento de floresta de tabuleiro do Nordeste, provavelmente é um dos maiores fragmentos de floresta Atlântica como um todo, ele é muito importante, muitas espécies ameaçadas vivem aqui, e a ocorrência do urutau-de-asa-branca reforça isso. A observação de aves é um caminho importante para trazer mais visitantes para a unidade”, comenta Rafaela Campostrini Forzza, pesquisadora do Parque Nacional do Descobrimento – ICMBio.
Essa campanha, realizada especificamente para o catálogo das aves, teve apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, do Instituto Maturembá e do WWF.
O resultado desse trabalho estará presente no guia de campo das aves do Parque Nacional do Descobrimento, que está previsto para ser publicado no primeiro semestre de 2027.
Para quem tem interesse em observar aves nessa unidade de conservação, a equipe realiza com frequência saídas e atividades com o “Vem Passarinhar Cumuru”.
Fantasma da natureza
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De acordo com as informações apresentadas no documento “Avaliação do Risco de Extinção”, disponível na plataforma Salve do ICMBio, o urutau-de-asa-branca (Nyctibius leucopterus) é uma ave que está criticamente em perigo.
A espécie é considerada endêmica da Mata Atlântica da região costeira, que abrange os estados da Bahia e do Espírito Santo, ocorrendo apenas em áreas florestais preservadas.
Uma curiosidade é que existe uma população dessa ave conhecida na Amazônia. Porém, apesar de apresentar na literatura o mesmo nome da espécie que ocorre na Mata Atlântica, acredita-se que a da região amazônica se trata de um táxon diferente, que ainda não foi formalmente descrito.
Assim como os outros quatro urutaus que ocorrem no Brasil, essa ave tem o dom de se camuflar e é popularmente conhecida como ave-fantasma, justamente por ser difícil de ser avistada e por parecer invisível ao permanecer pousada na ponta de um galho.
Com quase 30 centímetros de comprimento, essa ave apresenta penas de coloração escura e apenas uma região contrastante de cor esbranquiçada, que dá origem ao nome popular de urutau-de-asa-branca, ou ainda mãe-da-lua-de-asa-branca.
O grau de ameaça da espécie está diretamente relacionado à perda do habitat ao qual está restrita. Até pouco tempo, a ciência estimava uma população dessa ave inferior a 250 indivíduos, levando em consideração a ausência de registros e de conhecimento sobre ela.
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