# ‘Ray Gunn’ une charme do noir à inventividade da animação em aventura futurista

- Seção: Entretenimento
- Fonte: Rolling Stone Brasil (https://rollingstone.com.br/cinema/ray-gunn-critica/)
- Publicado em: 2026-10-20T21:43:54.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1275664-ray-gunn-une-charme-do-noir-a-inventividade-da-animacao-em-aventura-futurista

> Brad Bird ( O Gigante de Ferro ) nunca escondeu sua paixão pelo cinema de ação. De Os Incríveis (2004) a Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (2011), o cineasta sempre demonstrou um domínio particular sobre a construção de cenas e…

Afinal, se o diretor já havia demonstrado as dificuldades de transportar sua imaginação para o cinema em live-action com o frustrante Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível (2015), aqui ele parece encontrar na animação um território onde não existem limites para suas ambições. O resultado é uma aventura que celebra não apenas as possibilidades da linguagem animada, mas também o próprio cinema e sua capacidade de criar mundos extraordinários.

Ambientado em Metropia, uma metrópole gigantesca de um futuro alternativo imaginado a partir de 1939, Ray Gunn acompanha Raymond Gunn (voz de Sam Rockwell , de Três Anúncios para um Crime ), um detetive particular que acaba envolvido em uma investigação envolvendo assassinatos, alienígenas e uma misteriosa estrela do entretenimento chamada Venus Nova (voz de Scarlett Johansson , de Viúva Negra ).

A premissa é uma desculpa perfeita para Bird mergulhar nas convenções do cinema noir, especialmente nas histórias de investigadores particulares que transitam por uma sociedade corrupta, povoada por criminosos, figuras sedutoras e indivíduos dispostos a qualquer coisa para conseguir o que desejam. Se faltam o preto e branco, os cigarros e os charutos que costumam acompanhar esse imaginário, sobra a atmosfera de um universo em que a moralidade parece ter se tornado um artigo de luxo. A exceção é justamente Raymond , um sujeito que insiste em fazer a coisa certa, para o desespero de seu parceiro Olhívio , um velho alienígena que o acompanha em suas investigações.

Mas é na construção de Metropia que Ray Gunn encontra uma de suas maiores virtudes. Bird combina a arquitetura monumental, a estética art déco e o imaginário futurista das primeiras décadas do século XX para criar uma cidade que parece existir entre diferentes épocas do cinema. Há algo de Metrópolis (1927), de Fritz Lang , na grandiosidade desse universo, assim como ecos das ficções científicas clássicas e dos policiais hollywoodianos dos anos 1940.

Mais do que reunir referências, porém, o diretor consegue transformá-las em uma identidade visual própria, aproveitando a liberdade da animação para conceber cenários, personagens e sequências de ação que dificilmente teriam a mesma espontaneidade em uma produção com atores reais. Mesmo quando a estética da animação parece um tanto &#8220;datada&#8221; — dado o realismo com que os traços chegaram nos tempos atuais —, a inventividade da direção compensa essas limitações, especialmente pela maneira como cada espaço parece oferecer uma nova oportunidade para o espetáculo.

Essa riqueza visual também serve a uma dimensão social interessante da narrativa. Em Metropia, humanos e alienígenas dividem as mesmas ruas, mas estão longe de desfrutar das mesmas condições de existência. Embora não sejam formalmente subjugados, os extraterrestres convivem com um preconceito que, muitas vezes, sequer faz questão de permanecer disfarçado. Possuem hospitais próprios, enfrentam restrições de acesso a determinados ambientes e acabam frequentemente empurrados para as margens da sociedade, onde o crime surge como uma das poucas alternativas de sobrevivência. É uma camada que confere alguma complexidade ao universo de Ray Gunn , ao mesmo tempo que atualiza uma tradição do noir: a de utilizar os subterrâneos das grandes cidades para revelar as contradições de uma sociedade que prefere esconder suas próprias injustiças.

Há ainda uma dimensão musical que amplia o fascínio desse universo. Além de emprestar sua voz a Venus Nova , Scarlett Johansson interpreta praticamente todas as canções da trilha sonora, com apenas uma exceção, assumindo uma presença que ultrapassa a função convencional da dublagem. As composições de Kimbra , aliadas à trilha instrumental jazzista de Michael Giacchino , ajudam a estabelecer o clima de uma cidade que parece permanentemente envolvida por alguma apresentação, espetáculo ou conspiração. É nessa combinação de música, mistério, humor e ação que Bird demonstra compreender o cinema noir não como um conjunto de características visuais a serem reproduzidas, mas como uma atmosfera que pode ser reinventada a partir de outras linguagens.

No fim, Ray Gunn é um filme sobre o prazer de fazer cinema. Existe um entusiasmo quase juvenil na maneira como Brad Bird articula suas influências, conduz suas sequências de ação e transforma uma investigação policial em uma aventura de ficção científica. Ele se apropria do noir e encontra uma maneira bastante divertida de apresentá-lo a uma nova geração de espectadores, sem abandonar sua personalidade mais cínica e desencantada.

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