Uma apresentação da peça "Fim de Partida", estrelada por Marco Nanini, no Teatro Simões Lopes Neto, em Porto Alegre, causou polêmica no último domingo (18). O motivo foi que o ator pediu que os intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras) fossem retirados do palco.

Porém, considerando a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), o intérprete de Libras não pode ser retirado durante uma apresentação, pois deve ser garantida a acessibilidade da pessoa com deficiência em igualdade de condições.

Segundo espectadores, o ator alegou que a iluminação sobre os intérpretes atrapalhava sua performance e pediu que eles saíssem. A sessão foi interrompida e, minutos depois, o espetáculo continuou sem acessibilidade, o que fez com que pessoas se retirassem — por necessitarem do intérprete ou em protesto pelo ocorrido. As cortinas se fecharam e o público vaiou Nanini.

'A arte é para todos', diz ator surdo que estava na plateia de peça interrompida

A legislação garante que pessoas com deficiência tenham direito à cultura, ao esporte, ao turismo e ao lazer. A LBI assegura o acesso a programas de televisão, cinema, teatro e outras atividades em formato acessível.

Conforme o texto, é proibida a recusa de oferta de qualquer obra intelectual em formato acessível para pessoas com deficiência. Segundo o artigo 42, é vedada a recusa "sob qualquer argumento”.

A lei prevê, ainda, que as normas de acessibilidade devem ser asseguradas nos locais de eventos e nos serviços prestados pelas entidades organizadoras das atividades culturais.

A legislação, no entanto, não obriga que casas de espetáculos tenham intérpretes em libras. Nesse caso, a acessibilidade estava sendo ofertada previamente.

"A legislação não estabelece obrigatoriedade expressa de que todas as casas de teatro tenham um intérprete de libras. Agora, estava sendo ofertado, e interromper esse recurso no meio da apresentação me parece um problema jurídico importante, às vezes sem a intenção, mas pode caracterizar uma certa forma de discriminação da pessoa com deficiência", analisa o mestre em Direito e professor da PUCRS, Plínio Melgaré.

Sem a oferta da interpretação em libras, o público foi diretamente afetado naquela apresentação. Na plateia, havia pessoas com deficiência auditiva que relataram frustração e constrangimento com o ocorrido.

"O ponto central de todo esse problema é a efetiva acessibilidade. Não está em causa apenas garantir que as pessoas com deficiência acessem fisicamente a sala de espetáculo, ao teatro, mas sim que eles possam participar. O que está em causa também é eliminar as barreiras comunicacionais que são enfrentadas pelas pessoas com deficiência", completa.

O g1 tenta contato com o ator Marco Nanini, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.

Em nota, a produtora Pequena Central de Produções Artísticas justifica que "foi identificado um problema de compatibilidade entre o posicionamento da intérprete de Libras e a iluminação do espetáculo" e admite que "falhou ao não verificar e garantir previamente as condições técnicas necessárias à realização da sessão com interpretação em Libras".

A Fundação Theatro São Pedro, responsável pelo espaço cultural, lamenta o ocorrido e afirma que "apesar das possibilidades avaliadas e dos esforços empreendidos, não foi possível encontrar uma solução que contemplasse todas as necessidades envolvidas naquele momento, e a peça voltou a ser apresentada sem a interpretação de Libras".

Essa foi a segunda apresentação do espetáculo na capital gaúcha. A primeira sessão ocorreu na noite de sábado (17), sem registro de intercorrências.

O texto clássico de Samuel Beckett é encenado por Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França.

Caso Marco Nanini: retirada de intérprete de Libras do palco de peça põe à prova a Lei Brasileira de Inclusão, em vigor há 11 anos

Roger Lerina/Arquivo pessoal

'Incomodando a visão'

Uma das espectadoras da sessão, a gestora cultural e professora de teatro Izabel Cristina da Silveira, relatou que o problema com a iluminação foi levantado por Nanini já no início do espetáculo. Segundo ela, a apresentação foi interrompida depois que o ator afirmou que a sombra provocada pela luz sobre a intérprete estava prejudicando sua visão.

"Já no início do espetáculo, o ator Marco Nanini falou sobre a questão da sombra que a luz na intérprete estava projetando no palco e que isso estava incomodando a visão dele. E o espetáculo parou", conta Izabel.

Segundo a professora, os atores pediram que fossem fechadas as cortinas devido a um problema técnico. Em seguida, as duas intérpretes de Libras saíram do local. "Imediatamente saí também do teatro e algumas outras pessoas saíram, outras ficaram revoltadas, indignadas."

"Eu quase não acreditei no que estava vendo acontecer, quando Nanini parou a apresentação e falou daquela maneira. Estou ainda incrédula que a maioria das pessoas permaneceu lá assistindo o espetáculo como se nada tivesse acontecido", completa.

Ator é vaiado após interromper peça e pedir retirada de intérpretes de Libras

'Arte é para todos'

O ator surdo Lucas Bourscheid também estava na plateia e relatou momentos de frustração e constrangimento após a retirada dos intérpretes de Libras do palco.

Para o espectador, situações como essa têm um impacto que vai além de uma apresentação específica. Ele ressalta que a retirada de um recurso de acessibilidade durante um espetáculo pode provocar um sentimento de exclusão.

“Se pedir para cancelar o intérprete de Libras na frente da plateia, é muita tristeza. Pode destruir a vontade de assistir, pode causar impacto emocional”, afirma.

Bourscheid defende que produções culturais levem a acessibilidade em consideração desde a concepção dos espetáculos e que artistas e equipes estejam preparados para receber diferentes públicos.

"A arte é para todos e a comunidade surda tem o direito de participar, compreender e vivenciar o espetáculo em sua própria língua, a Libras", comenta o espectador.

O que diz a produtora

"NOTA DE ESCLARECIMENTO

A Pequena Central de Produções Artísticas, produtora do espetáculo Fim de Partida, vem a público esclarecer o ocorrido na sessão deste domingo, 18 de outubro, no Teatro Simões Lopes Neto, em Porto Alegre, anunciada com audiodescrição e interpretação em Libras.

Durante a apresentação, foi identificado um problema de compatibilidade entre o posicionamento da intérprete de Libras e a iluminação do espetáculo. A sessão foi brevemente interrompida para que a produção e a equipe da Fundação Theatro São Pedro buscassem uma solução. Não foi possível resolver o problema naquele momento, e a apresentação foi retomada sem interpretação em Libras, comprometendo o acesso do público surdo ao espetáculo.

Reconhecemos que a produção falhou ao não verificar e garantir previamente as condições técnicas necessárias à realização da sessão com interpretação em Libras neste teatro. Assumimos inteira responsabilidade por essa falha e por suas consequências.

Pedimos sinceras desculpas, especialmente ao público surdo prejudicado, às intérpretes e às demais pessoas envolvidas.

A acessibilidade integra nosso compromisso com o público e precisa ser assegurada também no planejamento e na execução de cada apresentação."

O que diz a Fundação Theatro São Pedro

"A Fundação Theatro São Pedro informa que, durante a apresentação do espetáculo Fim de Partida, realizada neste domingo (18), no Teatro Simões Lopes Neto, ocorreu uma intercorrência técnica envolvendo a iluminação destinada ao serviço de interpretação em Libras.

Diante da situação, a equipe da Fundação atuou diretamente na mediação entre os envolvidos, buscando alternativas técnicas que permitissem a continuidade do espetáculo e a manutenção das condições adequadas de acessibilidade. Apesar das possibilidades avaliadas e dos esforços empreendidos, não foi possível encontrar uma solução que contemplasse todas as necessidades envolvidas naquele momento, e a peça voltou a ser apresentada sem a interpretação de Libras.

A Fundação lamenta muito o ocorrido, especialmente os prejuízos causados à comunidade surda presente. O compromisso com acessibilidade é um dos pilares da instituição, que entende que cultura se faz com o acesso e o respeito a todos os públicos.

Fundação Theatro São Pedro"

Marco Nanini foi vaiado durante espetáculo de teatro em Porto Alegre (RS)

Izabel Cristina/Arquivo pessoal

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