Hoje, após protestos por educação se tornarem violentos, Macron não está em posição de usar dinheiro para restaurar a calma nas ruas.
Isso porque o governo francês também enfrenta a perspectiva de uma crise em seu mercado de títulos. Investidores vêm vendendo dívida francesa, inseguros sobre a capacidade do governo de administrar seu orçamento em meio a juros elevados e incerteza política.
Anunciar um grande compromisso financeiro para apaziguar os manifestantes provavelmente abalaria ainda mais os investidores e provocaria um novo aumento nos custos de financiamento do governo. Macron, aproximando-se do fim de seu mandato, lidera um governo de centro sem maioria parlamentar. Ele se encontra em uma situação delicada: tanto a inação quanto mais gastos podem agravar os problemas da França e abrir mais espaço para políticos populistas que disputarão sua sucessão no próximo ano atraírem eleitores insatisfeitos.
A França não é o único país enfrentando uma armadilha da dívida. À medida que o endividamento cresce em muitas nações ricas, partidos políticos populistas avançam. Especialistas alertam que essa combinação pode resultar em uma crise econômica.
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Os governos enfrentam um “círculo vicioso”, no qual a turbulência dos mercados e a instabilidade política se alimentam mutuamente, segundo Michal Brzozowski e Joanna Siwinska-Gorzelak, pesquisadores da Universidade de Varsóvia, na Polônia, que publicaram um estudo sobre a relação entre populismo e política fiscal.
“O risco é menos sobre um calote repentino da dívida e mais sobre um arrasto econômico em câmera lenta”, escreveram eles em um e-mail.
O presidente da França, Emmanuel Macron, participa de uma cerimônia de assinatura de acordo com o rei do Bahrein, Hamad bin Isa Al Khalifa (não aparece na imagem), no Palácio Al-Sakhir, próximo a Zallaq, Bahrein, em 20 de outubro de 2026. Foto: Benoit Tessier/Pool via Reuters. TPX Imagens do Dia
Na raiz do problema está uma tensão considerável: em meio a profunda incerteza política e fiscal, eleitores e investidores parecem querer coisas diferentes.
Os compradores de dívida querem ser adequadamente compensados pelo risco de emprestar dinheiro aos governos. Por isso, evitam políticos que parecem incapazes de tomar decisões difíceis, como cortar gastos ou aumentar impostos para reduzir grandes déficits orçamentários. Eles exigem pagamentos de juros mais elevados, diante da expectativa de que os governos continuarão tomando muitos empréstimos. Essa dinâmica é mais evidente na França, mas Alemanha, Japão e Estados Unidos também enfrentam custos de financiamento mais altos.
Os eleitores, porém, estão recorrendo cada vez mais a partidos populistas que rejeitam amplamente a ideia de que os orçamentos exigem escolhas dolorosas. Em vez disso, prometem proteger programas generosos de aposentadoria e outros gastos públicos, ao mesmo tempo em que frequentemente propõem cortes de impostos.
A tensão resultante pode evoluir da seguinte forma: eleitores preocupados com a economia recorrem a populistas mais radicais, que prometem uma volta sem sacrifícios aos tempos melhores, enquanto compradores de dívida pública recuam.
A turbulência na França começou com manifestações de estudantes do ensino médio que exigiam melhores salas de aula e mais professores. Protestos contra o custo de vida e o financiamento da educação e de outros serviços se espalharam pela Europa, incluindo Bélgica e Itália.
Trabalhadores consertam a vitrine de um restaurante McDonald’s danificado, um dia após confrontos durante uma jornada nacional de manifestações contra o custo de vida e a alta dos preços dos combustíveis, em Paris, França, em 18 de outubro de 2026. Foto: Benoit Tessier/Reuters
Esses problemas financeiros são particularmente desafiadores para partidos políticos de centro, afirmou Ludovic Subran, diretor de investimentos e economista-chefe da seguradora alemã Allianz. Em muitos casos, esses políticos tentam conquistar eleitores com promessas de disciplina fiscal. Mas isso frequentemente não funciona e acaba deixando a impressão de que eles têm pouca capacidade de melhorar as condições do país, acrescentou.
“Esse é realmente o dilema da política hoje”, disse Subran. Os políticos que sentem a pressão disciplinadora dos mercados acabam sendo punidos politicamente. “Isso abre um grande espaço para partidos extremistas dizerem o que quiserem”, acrescentou.
Na Alemanha, o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu duas eleições estaduais no mês passado e agora lidera as pesquisas nacionais. Seus líderes criticam o governo atual, liderado pelo chanceler de centro-direita Friedrich Merz, por propostas voltadas a fortalecer os orçamentos futuros, incluindo mudanças em alguns planos de aposentadoria e uma elevação gradual da idade mínima para se aposentar.
O líder do Reform UK, Nigel Farage, gesticula durante um comício da turnê “100 Days to Save Britain”, em Doncaster, Reino Unido, em 1º de outubro de 2026. Foto: Scott Heppell/Reuters. TPX Imagens do Dia
No Reino Unido, o governo trabalhista de centro-esquerda tenta conter a ascensão do Reform UK, partido de extrema direita liderado por Nigel Farage. No início deste ano, enquanto o Reform liderava as pesquisas, o Partido Trabalhista substituiu Keir Starmer como primeiro-ministro por Andy Burnham, prefeito de uma cidade no norte da Inglaterra que prometeu mudanças profundas na forma como o país é governado.
A França está na linha de frente desse dilema na Europa.
Mesmo em 2018, o plano de Macron para encerrar os protestos provocou tremores no mercado de títulos. O governo prometeu que os gastos extras seriam compensados por cortes orçamentários e que o déficit permaneceria dentro dos limites europeus. Hoje, a situação fiscal é muito mais difícil. O déficit orçamentário anual e a dívida pública, que já se aproximam de 120% do tamanho da economia francesa, são muito maiores do que eram em 2018.
A líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, deputada do partido Reagrupamento Nacional (Rassemblement National, RN) e candidata à eleição presidencial francesa de 2027, gesticula durante entrevista coletiva para apresentar o orçamento alternativo do partido para 2027 e sua estratégia fiscal, em Paris, França, em 6 de outubro de 2026. Foto: Sarah Meyssonnier/Reuters. TPX Imagens do Dia
Enquanto realiza reuniões de emergência sobre os protestos, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, tenta aprovar o orçamento do próximo ano para reduzir o déficit. Mas seu governo minoritário enfrenta forte oposição, enquanto os partidos se preparam para uma eleição presidencial daqui a cerca de seis meses. A líder da extrema direita, Marine Le Pen, é atualmente a favorita, e as pesquisas sugerem que ela disputaria o segundo turno contra um candidato da extrema esquerda.
Embora Le Pen tenha prometido reduzir o déficit, economistas questionam a credibilidade de seu plano fiscal, que reduziria a idade de aposentadoria, enquanto corta gastos com órgãos públicos e diminui a contribuição francesa à União Europeia. Todas essas medidas seriam difíceis de implementar. Já Jean-Luc Mélenchon, candidato da extrema esquerda, alarmou investidores ao propor o cancelamento de parte da dívida pública em vez de quitá-la.
A França enfrenta uma “tripla incerteza” por causa das negociações orçamentárias, da eleição presidencial e das eleições legislativas que provavelmente ocorrerão logo depois, afirmou Subran. Por isso, os rendimentos dos títulos franceses podem não cair tão cedo.
“Muitas pessoas estão prendendo a respiração”, disse ele.
O custo dos juros elevados será sentido rapidamente. O governo francês espera gastar mais de 90 bilhões de euros (US$ 100 bilhões) com pagamento de juros da dívida no próximo ano, valor superior ao previsto para defesa e educação, segundo o Ministério das Finanças da França, criando mais um problema político.
c.2026 The New York Times Company
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