Stephan van Raay

Quase 40 anos depois da primeira cirurgia de reconstrução do pênis após um câncer, médicos da Holanda desenvolveram pela primeira vez uma técnica para preservar a função sexual do clitóris em mulheres operadas por câncer de vulva.

O procedimento foi criado no Radboudumc, centro médico universitário holandês. Ele devolveu o orgasmo clitoriano a 90% das 23 primeiras pacientes, em geral entre três e seis meses depois da operação.

O clitóris é o órgão do corpo feminino dedicado exclusivamente ao prazer sexual. Ele concentra milhares de terminações nervosas, responsáveis pela sensibilidade que reage causando o prazer sexual.

Até então, quando o tumor atingia o clitóris ou a região em volta, os cirurgiões retiravam parte do órgão e fechavam a ferida. Segundo a oncologista ginecológica Mieke ten Eikelder, uma das autoras da técnica, o clitóris desaparecia sob uma camada de pele. Pouco se pensava na qualidade de vida da paciente ou na chance de ela voltar a ter orgasmo.

A nova abordagem não reconstrói o órgão do zero. Depois de remover o tumor, os médicos reposicionam os nervos que ficaram intactos para formar uma nova ponta do clitóris, o que ajuda a manter a sensibilidade.

“Inicialmente, o clitóris pode ficar hipersensível ou, ao contrário, menos sensível. No entanto, a recuperação geralmente é ideal após um ano. Na maioria das mulheres, a sensibilidade retorna a um nível comparável ao que era antes da cirurgia”, explicou Ten Eikelder.

Novas imagens revelam nervos do clitóris em 3D e mudam o que se sabia sobre corpo feminino

O câncer de vulva afeta os órgãos genitais externos da mulher. Na Holanda, cerca de 450 mulheres recebem o diagnóstico a cada ano. Em aproximadamente um quarto dos casos, o tumor está no clitóris ou em volta dele, e esse é o grupo que pode se beneficiar da nova técnica.

Por enquanto, o método está restrito à Holanda, onde é aplicado dentro de um programa de pesquisa, e serve apenas para casos de câncer de vulva.

Porém, pelos primeiros resultados, os pesquisadores avaliam que o método também pode ser útil para mulheres que passaram por mutilação genital, prática que remove parte do clitóris ou o órgão inteiro.

Além do Radboudumc, outros oito hospitais holandeses tratam câncer de vulva. Todos participam de um projeto em que oncologistas ginecológicos e cirurgiões plásticos estão sendo treinados para aplicar o procedimento.

Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que os resultados ainda são iniciais. Com financiamento da Sociedade Holandesa de Combate ao Câncer, os hospitais vão acompanhar as pacientes para confirmar se a técnica de fato melhora a função sexual e a qualidade de vida, e como incorporá-la com segurança à rotina clínica.

A ideia é levar a técnica a outros países para que mais mulheres tenham o órgão preservado após o tratamento e possam ter qualidade na vida sexual.