# 'Comecei a usar cetamina aos 14 anos e aos 22 precisei de fraldas'

- Seção: Brasil
- Fonte: G1 (https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/10/21/comecei-a-usar-cetamina-aos-14-anos-e-aos-22-precisei-de-fraldas.ghtml)
- Publicado em: 2026-10-21T12:41:11.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1284644-comecei-a-usar-cetamina-aos-14-anos-e-aos-22-precisei-de-fraldas

> Megan Harmes diz que já se sente melhor fisicamente após quatro semanas de tratamento para parar de usar cetamina, mas ainda não se sabe se os danos à bexiga têm reversão

Megan Harmes tinha 14 anos quando experimentou cetamina pela primeira vez.

Dez anos depois, ela tenta reconstruir a vida com a ajuda de um programa de reabilitação, após o consumo da droga causar danos à bexiga que a obrigam a usar absorventes para incontinência urinária.

A Kaleidoscope, uma entidade que atende pessoas com dependência de drogas, afirma que o número de encaminhamentos para seus serviços de desintoxicação e reabilitação disparou nos últimos cinco anos. Em 2021, apenas duas pessoas foram encaminhadas para tratamento. Neste ano, o número já chegou a 112, a maioria com idade entre 18 e 24 anos.

A cetamina é usada na medicina como anestésico dissociativo, que altera a percepção do corpo e do ambiente, e também na medicina veterinária. Em 2014 foi reclassificada como droga da classe B no Reino Unido. Isso significa que seu consumo, porte, fabricação e venda são ilegais fora das condições autorizadas.

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No Brasil, a cetamina e a derivada escetamina também estão sujeitas a controle especial, com uso restrito a estabelecimentos de saúde. Em 2020, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou o spray nasal de escetamina, associado a antidepressivo oral, para tratar, entre outras indicações, a depressão resistente. A autorização é específica para essa apresentação e essas indicações. A legislação brasileira prevê sanções para posse, fornecimento e comércio dessas substâncias.

E é o consumo sem acompanhamento médico que está no centro de uma pesquisa da Universidade do Sul do País de Gales, no Reino Unido, voltada às necessidades específicas desses jovens. Segundo a instituição, os danos provocados pelo "uso contínuo e cada vez mais intenso" dessa substância aparecem muito mais rapidamente do que os associados ao consumo de álcool ou de drogas da classe A, categoria que reúne substâncias consideradas de alto risco no Reino Unido.

Segundo essa universidade, os serviços de tratamento, tradicionalmente voltados para adultos mais velhos, precisam se adaptar para atender pacientes cada vez mais jovens, com necessidades diferentes e que, em muitos casos, começaram a usar drogas ainda na escola.

O centro de desintoxicação e reabilitação Birchwood tem três cães de terapia que fazem sucesso entre as pessoas atendidas, como Megan

Para Harmes, de 24 anos, moradora de Flint, no norte do País de Gales, o consumo de drogas se tornou mais comum entre seus colegas durante o confinamento imposto pela pandemia da Covid-19.

Na época, ela era aprendiz de engenharia aeronáutica e, de repente, passou a trabalhar de casa, sem redução de salário. Ao mesmo tempo, o preço da cetamina havia despencado, tornando a droga mais acessível.

Harmes contou que, no período mais crítico, usava cetamina "o dia inteiro, todos os dias". Segundo ela, a substância ajudava a amenizar sintomas e sensações associados ao transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e ao transtorno de personalidade borderline.

"Agora que estou sóbria, sou muito hiperativa. Não me sentia assim desde os 14 anos. A droga praticamente reprimia tudo", disse Harmes.

Com o tempo, o consumo de cetamina fez com que ela perdesse a vaga de aprendiz de engenharia aeronáutica, o que agravou ainda mais sua situação.

Harmes conseguiu outro emprego, mas passou quatro anos trabalhando no turno da noite, o que intensificou o consumo da droga. Ela usava a cetamina para ficar acordada durante a madrugada, mesmo nos dias de folga.

Nos últimos dois anos, passou a sentir dores tão intensas que não consegue ficar em pé com a coluna ereta. Os problemas na bexiga também a obrigaram a usar absorventes para incontinência urinária.

"Ter que usar absorventes ou fraldas aos 22 anos acaba com a dignidade de qualquer pessoa", disse Harmes. "Naquela época, eu realmente não me importava se ia viver ou morrer. Agora, não quero morrer. Estou na reabilitação há pouco mais de quatro semanas e estou voltando a ser quem eu era antes."

Harmes ainda não sabe a gravidade dos danos causados à bexiga. Mas já ganhou peso e se sente fisicamente melhor do que quando iniciou o tratamento.

Jo Moore disse que também há sessões de apoio para as famílias de jovens que desenvolveram dependência de cetamina

Jo Moore, responsável pela clínica de reabilitação Birchwood, da Kaleidoscope, afirmou que, há cinco anos, o centro havia recebido apenas um encaminhamento para internação e desintoxicação por consumo de cetamina.

"Desde janeiro deste ano, já atendemos 112 pessoas", disse Moore. Segundo ela, atualmente metade dos pacientes da clínica recebe tratamento por problemas relacionados ao consumo da cetamina.

"É uma droga muito, muito barata e fácil de conseguir. Isso permite que as pessoas a consumam com mais frequência e em quantidades maiores."

Estima-se que cerca de 264 mil pessoas entre 16 e 59 anos tenham consumido cetamina ilegalmente no Reino Unido entre 2024 e 2025. Em uma década, o número de pessoas que procuraram tratamento para problemas relacionados ao consumo da droga aumentou 12 vezes.

Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil, um estudo realizado de 2023 a 2025 encontrou cetamina em 23% das amostras coletadas voluntariamente de frequentadores de 14 festas e festivais em São Paulo, no Rio Grande do Norte e no Rio Grande do Sul.

Embora os jovens tenham impulsionado o aumento do consumo, Moore afirmou que, no último ano, também cresceu o número de pacientes entre 25 e 34 anos encaminhados para tratamento, especialmente em Cardiff e no sudeste do País de Gales.

O médico Darren Quelch diz que a dependência de cetamina exige um tratamento diferente do usado para álcool e outras drogas

O pesquisador Darren Quelch, da Universidade do Sul do País de Gales, afirmou que entrevistas com pacientes da clínica Birchwood indicam que alguns começaram a usar cetamina aos 13 anos.

Segundo Quelch, o consumo frequente da droga pode causar problemas de memória, dores crônicas, lesões na bexiga e até insuficiência renal. Os serviços de tratamento, portanto, precisam se adaptar rapidamente para atender pacientes com problemas de saúde cada vez mais complexos.

"Esses serviços não estão acostumados a lidar com problemas médicos tão complexos", afirmou Quelch. "E, mesmo que estivessem, ainda não sabemos qual é a melhor forma de tratá-los."

Quelch está conduzindo uma pesquisa em parceria com a Kaleidoscope para identificar quais tipos de atendimento funcionam melhor para esses pacientes.

"Esse grupo tem características muito diferentes das de outros pacientes que procuram tratamento para dependência de álcool e drogas", disse.

Mark, que pediu para não ter a identidade revelada, contou que sua saúde se deteriorou a ponto de, "aos 25 anos, eu provavelmente ter o corpo de uma pessoa de 80".

"Eu já não conseguia mais levar uma vida normal", acrescentou ele.

Mark cresceu em Liverpool, no Reino Unido, e sempre gostou de futebol. Hoje, sente inveja de pessoas da sua idade que conseguem caminhar sem sentir dor.

"Deixei de ser pai para minha filha pequena. Deixei de ser o irmão mais velho e o filho responsável que eu era", contou.

Mark frequentemente eliminava coágulos de sangue pela urina e sentia dores ao urinar. Mas, segundo ele, a deformação do nariz causada pelo consumo de drogas por via nasal teve um impacto especialmente grave em sua vida.

"Isso acaba completamente com a autoestima. E faz você usar ainda mais drogas, porque elas ajudam a esquecer o que pensa sobre si mesmo."

Esse é um dos motivos pelos quais Mark pediu para não ter a identidade revelada.

"Comecei a receber olhares de repulsa até da minha própria família. Isso me destruiu. Foi um período de muita solidão durante a dependência", afirmou.

Mark começou a usar drogas aos 18 anos. Aos 21, segundo ele, já consumia "quantidades enormes de cocaína e cetamina".

Ele chegou a procurar ajuda de um clínico geral em Liverpool, mas tinha vergonha de contar que usava cetamina, por medo de ser julgado ou de não ser levado a sério.

"Aprendi da pior maneira", disse.

O consumo de cocaína e cetamina em "grandes quantidades" mudou a aparência de Mark, afetando sua autoconfiança e sua saúde física

A pesquisa de Quelch, da Universidade do Sul do País de Gales, também identificou esse problema. Segundo o pesquisador, os jovens enfrentam obstáculos ao procurar atendimento em prontos-socorros e consultórios de clínicos gerais, porque os profissionais de saúde nem sempre associam os sintomas ao consumo de cetamina ou perguntam aos pacientes se usam essa droga.

"Isso não significa necessariamente que os profissionais não estejam fazendo as perguntas certas. O problema é que ainda não sabemos quais tratamentos funcionam melhor", afirmou.

"Há pouquíssimos serviços voltados para jovens que sofrem problemas de saúde relacionados ao consumo de álcool e drogas. Por isso, estamos praticamente começando do zero."

Moore, da clínica de reabilitação Birchwood, disse que a situação está melhorando. Segundo ela, aumentou a oferta de atendimento precoce nas comunidades, o que ajuda a reduzir a necessidade de desintoxicação.

"Estamos recebendo menos pessoas que começaram a usar cetamina recentemente. Isso mostra que as ações educativas nas escolas e universidades estão funcionando."

"Por outro lado, está aumentando o número de pessoas que usam a droga há alguns anos e que continuarão precisando da nossa ajuda e acompanhamento."

Segundo Moore, com as mudanças nos padrões de consumo de drogas, tanto as organizações do terceiro setor quanto o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês, equivalente ao SUS brasileiro) precisam adaptar o atendimento às necessidades dos pacientes.

Ela destacou que a participação de pessoas que já enfrentaram a dependência tem contribuído para melhorar os serviços de atendimento.

"Hoje consigo perceber avanços, mas houve momentos muito difíceis, em que parecia que estávamos gritando no escuro."

Quelch, da Universidade do Sul do País de Gales, afirmou que, embora as pesquisas continuem, ainda não se sabe ao certo a dimensão do problema do consumo de cetamina nem suas consequências para a saúde a longo prazo.

"Pelo que observamos na prática, as recaídas são um grande problema entre esses pacientes. Ainda não sabemos até que ponto o organismo consegue se recuperar dos danos. Mas percebemos que, quando alguém volta a usar cetamina depois de um período de abstinência, os problemas de saúde aparecem muito mais rapidamente do que na primeira vez", explicou Quelch.

O pesquisador também destacou o trabalho da Kaleidoscope, que oferece aos pacientes o apoio de pessoas que já passaram pela dependência.

"É um trabalho muito especial, que tem um impacto significativo. Não havia julgamentos nem preconceito. O apoio de pessoas que passaram pela mesma experiência foi fundamental e é uma das lições que podemos aprender com a clínica Birchwood."

Para Mark, esse apoio permitiu voltar a fazer planos para o futuro. Assim como muitos dos entrevistados pela reportagem, ele afirmou estar determinado a ajudar outras pessoas.

"Cresci achando que dinheiro era tudo. Hoje, encontro alegria em ajudar quem está passando por dificuldades. Já estive nessa situação e sei o quanto significa ter alguém disposto a ajudar."

Reportagem completa: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/10/21/comecei-a-usar-cetamina-aos-14-anos-e-aos-22-precisei-de-fraldas.ghtml

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