Mas tudo que importa, para o jornalista e líder do programa Chris Hansen (interpretado pelo brilhante Robert Pattinson , O Drama ), é merecer seu lugar no horário nobre da televisão. Seu maior desejo é destronar a série que tem a atual maior audiência, Lost , da ABC. Em busca de crescer mais e mais, a equipe do programa se envolve em uma operação secreta para encontrar um criminoso de grande porte — e que pode ter repercussões irremediáveis.

Em exibição na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo , o primeiro longa-metragem de ficção de Lance Oppenheim — que também assina este ano o aguardado documentário sobre Elizabeth Holmes , You Can See Everything — tem uma direção ambiciosa. Oppenheim constrói uma grande sátira da mídia moderna, movida por lucros e audiência, não importando o preço necessário a se pagar.

Embora o programa To Catch a Predator tivesse “boas intenções”, o foco aqui é em como ele propaga a banalidade do mal: é um espetáculo de punição pública, que transforma uma questão grave em entretenimento de massa. Por trás das cortinas, os terríveis criminosos são vistos como meros peões para o sucesso.

Visualmente, Primetime é impecável. As cores borradas se misturam como imagens em uma fita cassete, enquanto a edição e a trilha sonora excelentes transmitem a exata sensação de ansiedade proposta pela trama — amplificando o nojo que já surge naturalmente nos espectadores devido ao tema do longa.

Além de Pattinson , o elenco do filme conta com algumas performances incríveis: Merritt Wever ( Nurse Jackie ) como a produtora megera Andie , Skyler Gisondo ( Entrando Numa Grande Fria ) como Dan , um jovem inseguro que atua como isca do programa para crescer na carreira da atuação, e Matthew Maher ( Funny Pages ) como Xavier , que se passa por adolescentes em conversas online com possíveis abusadores. (As transcrições dessas conversas são proclamadas por Hansen quando ele encurrala os pedófilos).

A cantora Phoebe Bridgers (em seu primeiro papel no cinema), Anna Faris ( Todo Mundo em Pânico ) e Bokeem Woodbine ( Homem-Aranha: De Volta ao Lar ) também têm papéis coadjuvantes.

Além de te deixar à beira da poltrona do início ao fim da sessão no cinema, rodeado por dilemas morais crescentes, o longa ainda proporciona algumas boas risadas (de nervoso). O conteúdo da trama, porém, pode ser deixado parcialmente de lado em detrimento do estilo.

Atuações de destaque

Embora se apresente como um líder “justiceiro”, Hansen está longe de ser o mocinho da história. O personagem está sendo ameaçado de ter seu caso extraconjugal exposto na mídia, e entra em uma espiral de obsessão pelo próprio programa, enxergando-o como sua única forma de prazer e salvação.

Esta é mais uma atuação incrivelmente magnética de Pattinson , seguida de seus já excelentes trabalhos nos cinemas de 2026 com O Drama e A Odisséia . O ator incorpora plenamente a paranoia e a ambiguidade moral de seu personagem; sua desumanidade é repugnante, mas, ao mesmo tempo, cômica. Pattinson ainda atua como produtor da obra junto com Ari Aster ( Hereditário ), por meio da Square Peg Productions.

(O personagem de Pattinson foi motivo de várias reclamações do verdadeiro Chris Hansen , que classificou a obra como “difamatória” e afirmou que ela distorce a realidade. Mas, apesar de ser baseado em fatos reais, Primetime é uma dramatização e não tem interesse em recriar os eventos com fidelidade; o filme de David Osit , Predators (2025), já apresentou o próprio Hansen examinando o impacto cultural e ético de seu trabalho).

A produtora do programa, Andie Bender ( Wever ), é uma completa megera. Com uma postura implacável e calculista, ela parece funcionar como um amálgama de produtores reais da televisão dos anos 2000, priorizando os índices de audiência da emissora acima de qualquer dilema moral ou da segurança dos atores envolvidos. Ela é capaz de deixar o público com raiva assim como Alana Haim em seu papel em O Drama . É uma atuação espetacular.

Outro destaque vai para a breve participação de Creed Bratton , famoso por The Office . Ele vive o personagem Jim Christian , passageiro idoso que conversa com Hansen em um avião. Creed representa o fascínio mórbido do público americano por programas como To Catch a Predator : ele questiona como Hansen consegue não matar com as próprias mãos os pedófilos que confronta.

Apesar de baseado em uma história real, o roteiro de Ajon Singh é bastante fantasioso. Ele não dá muita atenção aos riscos legais das operações policiais (afinal, os alvos do programa podem até ter cometido crimes de pedofilia antes de Hansen e sua equipe os perseguirem, mas não possuem antecedentes criminais). Além disso, a subtrama sobre a vida pessoal do protagonista nunca realmente se conecta com a história principal, apesar de ganhar mais espaço do que alguns dos horrores revelados pelo programa.

Primetime esbarra em vários pontos bem interessantes — a lina tênue entre explorar os casos de pedofilia com fins jornalísticos ou simplesmente transformos-las em lucro, o sensacionalismo e a “decadência moral” da televisão, os métodos questionáveis de envolver pessoas reais como “iscas”, o estranho engajamento do público com esses conteúdos, a dualidade do sistema judicial ou o próprio absurdo da pedofilia. Entretanto, nenhuma dessas questões ganha profundidade o suficiente, e elas acabam se tornando um emaranhado de temas pairando sobre um belíssimo conjunto de cenas.

Com trechos que remetem a filmes clássicos de crítica à mídia, como Rede de Intrigas (1976), Primetime garante ao espectador um baita entretenimento. O filme peca, apenas, ao não ir tão fundo nas nuances dos acontecimentos que o inspiraram.

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