# Por que o Brasil precisa investir em ciência?

- Seção: Saúde
- Fonte: Drauzio Varella (https://drauziovarella.uol.com.br/saude-publica/por-que-o-brasil-precisa-investir-em-ciencia/)
- Publicado em: 2026-10-21T18:00:17.000Z
- URL: https://www.itatiba1.com.br/noticia/1288928-por-que-o-brasil-precisa-investir-em-ciencia

> Era o início de 2020, e o novo coronavírus começava a se espalhar pelo mundo e chegava ao Brasil. Enquanto boa parte dos brasileiros aproveitava o Carnaval, a pesquisadora e professora Jaqueline Goes, da Universidade de São Paulo (USP),…

Em apenas 48 horas, Goes e a equipe da qual fazia parte conseguiram decifrar o material genético do microrganismo responsável pela covid-19 .

“Isso contribuiu para que os pesquisadores que trabalham mais lá na ponta, na produção de vacina, no teste de medicamentos, na validação de medicamentos, em estratégias terapêuticas, pudessem utilizar esses conhecimentos e trazer as melhores alternativas para aquele momento”, conta.

Do genoma às vacinas

Estar preparado para responder a emergências de saúde, como a pandemia de covid-19, que matou mais de 700 mil pessoas no Brasil , é um dos motivos que mostram por que o país precisa investir em ciência, segundo pesquisadores ouvidos pelo Portal Drauzio Varella .

“ A pesquisa é fundamental para a gente compreender problemas sanitários , fortalecer a questão da vigilância epidemiológica, produzir diagnóstico, desenvolver vacinas e tratamentos, entre outros”, diz Goes.

E os exemplos vão além da pandemia. Pesquisadores brasileiros ajudaram a estabelecer a relação entre o vírus da zika e os casos de microcefalia . A produção científica também fornece evidências para decisões do Sistema Único de Saúde (SUS), como a incorporação de medicamentos e tratamentos. Além disso, instituições públicas, como o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), desenvolvem vacinas e outros produtos para a saúde, com apoio de recursos públicos.

Quanto o Brasil investe em ciência?

Os investimentos governamentais em ciência e tecnologia (C&T) alcançaram R$ 88,9 bilhões em 2024, enquanto os gastos com pesquisa e desenvolvimento (P&D) somaram R$ 72,9 bilhões. Os dados , referentes ao último ano disponível, são do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Para efeito de comparação, em 2020, ano em que começou a pandemia de covid-19, foram R$ 55,6 bilhões em C&T e R$ 44 bilhões em P&D. Ou seja, um crescimento de aproximadamente 60% e 66%, respectivamente, em quatro anos.

Parte do financiamento federal à pesquisa vem do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). O orçamento do fundo passou de cerca de R$ 900 milhões em 2020 para R$ 6,4 bilhões em 2024, um crescimento de aproximadamente 611% no período.

“Esse fundo é o principal dinheiro federal para financiamento de pesquisa”, diz o professor Sérgio Luiz Monteiro Salles-Filho, titular do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Mas o financiamento da ciência não se resume ao FNDCT. Há também recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vinculado ao MCTI, e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação.

Os estados também têm suas próprias fundações de amparo à pesquisa. Em São Paulo, por exemplo, existe a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Além disso, ministérios como os da Defesa e de Minas e Energia financiam atividades de pesquisa em suas respectivas áreas. Estados, municípios e empresas privadas também contribuem para o financiamento da ciência.

Por que a ciência precisa de recursos contínuos

Para que esses recursos gerem resultados, o investimento precisa ser contínuo . É o que defende o médico infectologista Esper Kallás, diretor do Instituto Butantan, maior produtor de vacinas e soros do Brasil e de toda a América Latina.

Um exemplo é a vacina contra a dengue desenvolvida pelo instituto, resultado de pouco mais de décadas de pesquisa. O desenvolvimento de imunizantes exige estudos em diferentes etapas, testes de segurança e eficácia e investimentos que podem levar muitos anos até que um produto chegue à população.

“Se você tem um investimento que é perene, ele fomenta uma linha que vai se construindo ao longo do tempo. Nem sempre é uma linha que você consegue prever. Ciência você não consegue prever completamente. Se há uma decisão para cancelar tudo, você perde uma quantidade enorme de anos para retomar”, afirma Kallás.

Brasil investe menos que países desenvolvidos

O investimento em ciência no Brasil equivale a cerca de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) . A média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de aproximadamente 2,7% . Nos Estados Unidos, o percentual chega a 3,44%, enquanto na Coreia do Sul supera 5%.

Para Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), o Brasil deveria investir 2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, uma meta defendida há anos por representantes da comunidade científica. “Isso porque o investimento em ciência impacta todas as áreas do conhecimento e o dia a dia de cada um de nós da população”, afirma.

Salles-Filho, da Unicamp, lembra que o Brasil ocupa uma posição de destaque na produção científica mundial , medida principalmente pelo número de publicações. Segundo ele, o país está entre a 14ª e a 15ª posição nesse ranking, dependendo do indicador utilizado.

“Se você aumentar esse investimento para os níveis da OCDE, que estão acima de 2% hoje, é possível que os indicadores de produção também aumentem e você provavelmente vai ter um novo ranqueamento do Brasil”, explica.

Como a pesquisa chega ao SUS

Pesquisadores brasileiros — entre eles, o próprio Salles-Filho — mapearam a produção científica citada em documentos relacionados às decisões da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), responsável por assessorar o Ministério da Saúde na avaliação da incorporação de medicamentos, equipamentos e outras tecnologias ao SUS.

Os pesquisadores analisaram 122 protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas publicados entre 2011 e 2023. No total, identificaram 4.988 artigos científicos distintos, dos quais 497 tinham pelo menos um autor vinculado a uma instituição brasileira — cerca de 10% do total.

“É substantiva a contribuição da produção científica para as decisões de saúde pública”, diz Salles-Filho.

Os desafios de fazer ciência no Brasil

Mas fazer pesquisa no Brasil não é uma tarefa fácil. O caso de Goes, da USP, ajuda a mostrar a importância do financiamento público. Ela desenvolveu sua trajetória de pesquisa em sequenciamento genético com apoio de bolsas, que contribuíram para sua formação e para o trabalho realizado durante a pandemia. “O financiamento público da pesquisa foi a pedra angular”, diz.

O problema é que não há bolsas para todos. Entre 2018 e 2025, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) perdeu 1.300 bolsas de mestrado e doutorado financiadas pelo CNPq, segundo a própria universidade.

Um estudo publicado em 2022 na revista Scientometrics , da Springer Nature , encontrou uma associação entre o recebimento de bolsas da Fapesp e uma maior produção científica. Segundo os autores, pesquisadores que receberam essas bolsas publicaram, em média, 2,1 vezes mais artigos do que aqueles que fizeram doutorado nas mesmas áreas e no mesmo período sem bolsa.

Outro desafio é a absorção dos pesquisadores pelo setor privado. No Brasil, as universidades têm papel central na formação e na contratação de cientistas, enquanto a indústria ainda oferece oportunidades limitadas em diversas áreas.

“Nós não temos acoplado uma indústria que aproveite todos esses conhecimentos”, diz Nader, presidente da ABC. Para ela, mudar esse cenário exige transformar a ciência em uma política de Estado, com investimentos e metas que sobrevivam às mudanças de governo.

“O Brasil tem potencial, mas infelizmente ainda não deu para deixar claro para todo mundo. É preciso convencer pessoas que a economia caminha junto com o desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da inovação”, afirma.

Kallás, do Instituto Butantan, tem visão semelhante.

“Você tem um ganho enorme quando há uma decisão executiva e de Estado que seja mantida durante diversas administrações. Isso é importante em um regime democrático como o nosso”, afirma.

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