Levar o atendimento em saúde a cada um desses territórios exige conhecimento e, é claro, infraestrutura. Mas nem sempre é fácil ultrapassar os empecilhos que a natureza impõe e as distinções culturais entre os pacientes e as equipes médicas.
Como é o trajeto até uma aldeia indígena?
A princípio, as equipes de saúde indígena vão até os Pólos Base e Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSIs) , postos de atendimento que coordenam o trabalho desses profissionais. Essa primeira etapa pode exigir uma combinação de diferentes meios de transporte, como carro, barco e avião, em viagens que chegam a durar até 15 dias.
Médica Carla Rodrigues e colegas. Créditos: Acervo pessoal
“ Os profissionais realizam, então, visitas domiciliares às aldeias que integram a macroárea do polo . Nas comunidades mais próximas, o acesso é feito a pé, em idas e vindas diárias. Já para as aldeias mais isoladas, a equipe se desloca a pé, mas permanece na comunidade durante alguns dias para prestar os atendimentos e depois retorna ao Polo Base”, explica Carla Rodrigues, médica de família e comunidade da saúde indigena.
Os obstáculos vão desde adversidades do próprio território , como subidas íngremes, travessias de rios sem ponte e risco de contato com animais peçonhentos, até ameaças à segurança devido à presença de invasores, como garimpeiros e madeireiros ilegais.
Com que frequência as visitas acontecem?
Em tese, as visitas devem acontecer ao menos uma vez por mês , acompanhando o calendário de consultas de pré-natal e puericultura preconizado pelo Ministério da Saúde.
Essa frequência pode aumentar dependendo das condições de saúde da comunidade ou se houver uma situação de emergência. Por outro lado, também pode diminuir por causa de limitações logísticas , como falta de combustível para os barcos, número reduzido de profissionais de saúde e fatores climáticos, como secas e chuvas intensas.
“Entre uma visita e outra, caso algum paciente necessite de atendimento médico, ele pode tentar se deslocar por conta própria até uma Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI) ou Polo Base, ou solicitar uma visita emergencial por intermédio do Agente Indígena de Saúde (AIS)”, detalha Rodrigues.
Os profissionais enfrentam longas caminhas e terrenos acidentados no caminho até as aldeias. Créditos: Acervo pessoal
E se alguém precisar sair da aldeia?
Em casos graves, o paciente é transferido para o Polo Base ou, se for preciso, para o atendimento hospitalar da cidade mais próxima. Esse transporte é organizado pela Divisão de Atenção à Saúde Indígena (Diasi) e pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) . Além das dificuldades no trajeto, há ainda o desafio intercultural.
“Recentemente, fui até uma aldeia no interior do Amazonas. Atendi um paciente com queixas totalmente compatíveis com tuberculose: tosse com sangue, falta de ar e emagrecimento. A comunidade dele fica a 13 dias de barco da cidade mais próxima, além de 4 horas de caminhada. A tuberculose exige exame específico e tratamento medicamentoso por 6 meses. Na cidade, esse paciente tem medo da violência e está com muita resistência para ir fazer o tratamento. Além disso, quando ele voltar, sua roça estará destruída e a esposa e os filhos — que dependem dele — ficarão em situação de risco”, conta a médica.
Nas aldeias da cidade é mais fácil?
Sendo assim, é de se imaginar que os pacientes indígenas que moram nas cidades, mais próximos dos serviços de atendimento e mais integrados à cultura da metrópole, tenham facilidade de acesso ao cuidado. Essa não é, porém, a realidade.
“Quando conseguem atendimento, muitas vezes se sentem mal cuidados, pois nós, profissionais de saúde, nem sempre temos o preparo necessário para prestar um cuidado de forma intercultural. Muitos vivem em áreas periféricas e se sentem excluídos do sistema. Além disso, eles sofrem constante preconceito ao ouvir frases como ‘lugar de índio é na aldeia, volta para lá’ , e são hostilizados nos próprios serviços de saúde. Essa violência verbal e institucional acaba por afastá-los ainda mais da busca por ajuda médica”, alerta Rodrigues.
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