A transição energética consiste em mudar a forma como o mundo produz e consome energia. Durante mais de um século, a humanidade dependeu fortemente da queima de combustíveis fósseis , como petróleo, carvão mineral e gás natural, para movimentar indústrias, veículos e gerar eletricidade. No entanto, substituir gradualmente essas fontes poluidoras por opções limpas e renováveis – como a energia solar, eólica, biomassa e o hidrogênio verde – tornou-se uma urgência global.
O Brasil ocupa uma posição estratégica nesse cenário, pois já possui uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta e tem um enorme potencial natural para liderar a produção global de energias do futuro.
Ainda na agenda ambiental, as mudanças climáticas impõem desafios práticos à infraestrutura e à economia do país. O aumento da temperatura média da Terra , causado pelo acúmulo de gases do efeito estufa na atmosfera, manifesta-se em eventos extremos cada vez mais frequentes, como secas históricas, ondas de calor severas e enchentes devastadoras em centros urbanos e áreas rurais.
Os candidatos à Presidência apresentam diferentes propostas para o setor energético e o enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas no Brasil – Crédito: Imagem gerada por IA
Paulo Eduardo Artaxo Netto, físico com doutorado em física atmosférica e professor titular do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), enfatiza que a dimensão continental e a localização tropical tornam o país extremamente vulnerável aos impactos do clima.
Para conter os danos, ele afirma que o papel do Estado e a cooperação com o setor privado são decisivos. “É evidente que sem políticas públicas adequadas e implementadas corretamente, obviamente não temos saída para a questão das mudanças climáticas”.
A forma de responder aos impactos varia entre os presidenciáveis. Os planos de governo protocolados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dividem-se entre abordagens focadas em metas de neutralidade de carbono, mecanismos de mercado e regulação, ou medidas de Defesa Civil e segurança para o agronegócio e os centros urbanos.
Os caminhos que os postulantes ao Planalto pretendem seguir nessas áreas são decisivos não apenas para a preservação ambiental, mas também para o futuro da economia, a segurança energética e a qualidade de vida dos brasileiros.
Clima e energia: as propostas dos presidenciáveis nas Eleições 2026
Conheça a seguir as diretrizes e propostas que constam nos projetos entregues à Justiça Eleitoral em relação a esses dois temas pelos dois candidatos à Presidência da República que disputam o segundo turno nas Eleições de 2026.
Vamos começar com um resumo:
Resumo das propostas dos candidatos em relação ao clima. – Crédito: Imagem gerada por IA com base nos planos de governo apresentados pelos candidatos
Resumo das propostas dos candidatos em relação ao setor energético. – Crédito: Imagem gerada por IA com base nos planos de governo apresentados pelos candidatos
Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
No plano de governo do atual presidente, a agenda climática e a transição energética aparecem como eixos centrais do desenvolvimento econômico nacional. A candidatura reafirma o compromisso de reduzir entre 59% e 67% as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035, em relação aos níveis de 2005, por meio de políticas de transição ecológica.
Ao analisar o plano de Lula, Artaxo ressalta o histórico positivo no combate à devastação na Amazônia. Para o professor, essa queda no desmatamento coloca o Brasil em destaque global na contenção de gases poluentes. “Tivemos uma redução do desmatamento da Amazônia em 51%, que é um valor extremamente elevado. Nenhum outro país reduziu as suas emissões com a magnitude que o Brasil reduziu”.
Na área de energia, a proposta prevê a expansão da infraestrutura elétrica com fontes solar e eólica, além da modernização hidrelétrica. O plano aposta nos biocombustíveis com o RenovaBio e a Lei do Combustível do Futuro. Paralelamente, defende a exploração de petróleo no Pré-Sal, sob coordenação da Petrobras, como estratégia de segurança energética.
Para o físico, um possível próximo mandato precisaria dar destaque efetivo a essa mudança. “Agora, nós temos que avançar na questão, por exemplo, da implementação da transição energética, que ainda está realmente engatinhando no Brasil, infelizmente, e é fundamental que, se reeleito, Lula efetivamente implemente políticas que façam da transição energética um ponto central da questão climática como um todo”.
No aspecto social, a candidatura propõe ampliar o acesso à energia elétrica e manter a gratuidade da conta de luz para consumidores do programa Luz do Povo, reduzindo o peso dos gastos com eletricidade no orçamento doméstico.
Em relação ao meio ambiente, o plano prevê o fortalecimento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) para combater o desmatamento, recuperar áreas degradadas e incentivar a bioeconomia.
Artaxo alerta, contudo, para os entraves políticos que o presidente terá de superar no Poder Legislativo. “Lula vai ter que enfrentar um congresso dominado pela extrema direita que sempre se opôs a cláusulas como combate ao crime organizado na Amazônia e à grilagem de terras na Amazônia e assim por diante. Isto, certamente, vai trazer dificuldades na implementação de políticas no próximo governo”.
A proposta inclui ainda ações de adaptação às mudanças climáticas para proteger comunidades vulneráveis contra secas e enchentes, buscando integrar a conservação da biodiversidade à geração de emprego e renda.
Lula, candidato à presidência do Brasil pelo PT – Foto oficial da candidatura registrada no TSE
Flávio Bolsonaro (PL)
O plano de governo de Flávio Bolsonaro prevê integrar a transição energética e a preservação ambiental à segurança nacional, ao desenvolvimento tecnológico e à competitividade do agronegócio, com ênfase na exploração de recursos estratégicos, na participação do setor privado e na segurança jurídica.
No setor elétrico e de combustíveis, a candidatura propõe o Programa Nacional de Segurança Energética, associando a transição à exploração de minerais críticos, como lítio e terras raras, para o desenvolvimento de baterias e componentes industriais. O plano prevê também a ampliação e modernização dos sistemas de transmissão.
Artaxo questiona como as propostas ambientais de Flávio Bolsonaro seriam colocadas em prática. Para o pesquisador, as promessas apresentadas precisam ser avaliadas à luz das medidas efetivamente adotadas por governos em outros países. Em sua análise, há uma distância entre os compromissos descritos no documento e as ações necessárias para enfrentar a crise climática.
O docente estende suas ressalvas à governança ambiental de administrações que compartilham da mesma matriz ideológica e programática de Flávio Bolsonaro, argumentando que regimes correlatos historicamente negligenciam as diretrizes de sustentabilidade. “Governos de extrema direita, como o possível governo de Flávio Bolsonaro, são conhecidos por não tratar adequadamente a questão das mudanças climáticas, inclusive com uma postura negacionista de negar que elas existem e de, essencialmente, priorizar a exploração o máximo possível dos recursos naturais sem efetivamente cuidar dos interesses da população como um todo”.
Outra proposta do candidato do PL é transformar o Brasil em um polo internacional de data centers sustentáveis com energia renovável e baterias de grande porte. Para reduzir custos, defende a diminuição de impostos sobre a conta de luz e combustíveis.
O plano também prevê o fortalecimento da indústria de biogás, a expansão dos biocombustíveis e o estímulo ao mercado internacional de créditos de carbono, buscando ampliar as oportunidades econômicas na transição energética.
Na pauta ambiental e climática, o documento defende que a preservação deve caminhar com o crescimento produtivo, utilizando a regularização fundiária e o Código Florestal para dar segurança no campo. O plano prevê ainda o fortalecimento da Defesa Civil contra eventos extremos.
Flávio Bolsonaro, candidato à presidência do Brasil pelo PL – Foto oficial da candidatura registrada no TSE
Agenda da energia solar para o próximo governo
Em nota à imprensa, a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR) disse que o próximo presidente, os governadores estaduais e os parlamentares eleitos terão o desafio de ampliar a segurança e a flexibilidade do sistema elétrico, reduzir o desperdício de energia renovável, atrair investimentos e avançar na universalização do acesso à eletricidade limpa.
A entidade é a favor de consensos e políticas contínuas no setor elétrico. “Independentemente dos resultados eleitorais, a ABSOLAR defende políticas públicas de curto, médio e longo prazos que permitam transformar a abundância de recursos renováveis do Brasil em competitividade, empregos e desenvolvimento econômico”, diz o comunicado.
A associação encaminhou diretrizes aos concorrentes e reforçou o compromisso com o diálogo técnico. “A associação manterá diálogo institucional construtivo com os próximos governos federal e estaduais, o novo Congresso Nacional e as assembleias legislativas, contribuindo com recomendações técnicas e de mercado, baseadas em boas práticas internacionais adaptadas à realidade brasileira”.
Divididas em três programas (Bateria Brasil, Energia que Emprega e Sol para Todos), as diretrizes apresentadas pela ABSOLAR englobam armazenamento de energia, atração de indústrias e ampliação da geração fotovoltaica.
A prioridade inicial é expandir o armazenamento em baterias com leilões anuais de capacidade, maior integração às usinas solares e corte na tributação de baterias (que chega a 84,8%), igualando-a às fontes renováveis. A medida quer conter os cortes na geração renovável, cujas perdas ultrapassaram R$6 bilhões em 2025, aproveitando a sobra de energia em momentos de alta demanda em vez de acionar termelétricas poluentes. A meta é contratar 8 GW de armazenamento até 2030.
Outra frente propõe usar a competitividade da energia limpa para atração de indústrias eletrointensivas, data centers e fábrica de hidrogênio verde, exigindo aperfeiçoamentos no planejamento da transmissão e maior segurança regulatória. A ABSOLAR sugere instalar 18 GW em novas usinas solares até 2030, estimando atrair R$59,4 bilhões em investimentos e criar 500 mil empregos sem necessidade de subsídios.
Por fim, a entidade recomenda universalizar o acesso à eletricidade levando soluções fotovoltaicas a três milhões de unidades até o fim da década (incluindo 500 mil em áreas isoladas) por meio de leilões anuais com no mínimo 50% de fontes limpas, além da troca de 100 mil geradores a diesel por energia solar com baterias, reduzindo a emissão de poluentes e os custos com combustíveis fósseis.
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