Diante desse ambiente, afinal, como o investidor deve lidar com seus investimentos em renda fixa antes do segundo turno? Segundo especialistas, a recomendação é não especular a essa altura, mas sim proteger a carteira pensando no horizonte de investimento de mais longo prazo.

Para Alfredo Menezes, CEO e CIO da Armor Capital, quem investe pensando no longo prazo deve ficar com os títulos IPCA+ , que ainda pagam juro real acima de 6,6% ao ano em todos os vencimentos. Já os prefixados , segundo ele, oferecem pouco espaço para novos ganhos. O gestor prevê alta de pelo menos 1 ponto percentual nas taxas longas se Lula for reeleito no domingo (25). “No longo prazo, eu acho que tem que ficar com NTN-B”, afirma.

Para João Debom, sócio da Supernova Investimentos, a pesquisa Quaest pesou justamente por não reforçar o cenário que o mercado vinha embutindo nos preços. “Quando a pesquisa não reforça esse favoritismo, parte desse otimismo sai do preço, e as taxas tendem a devolver um pouco da queda, principalmente nos prefixados e nos vencimentos mais longos, que são os mais sensíveis ao risco fiscal”, explica.

Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, lembra que a queda dos juros americanos ajuda a segurar as taxas brasileiras e que uma disputa apertada pode já estar no preço. Ele pondera, porém, que o mercado antecipou boa parte do cenário positivo e que uma surpresa eleitoral ou fiscal pode levar as taxas a subir com força.

Fernando Benavenuto, sócio da Anvex Capital, já havia alertado na segunda-feira (19) que, até a votação, as taxas devem reagir a praticamente cada nova pesquisa. “Um movimento que se reverte com pesquisa é, por definição, prêmio eleitoral”, disse.

IPCA+ concentra a preferência

Entre os gestores, os títulos atrelados à inflação são a opção mais lembrada para quem pode esperar, porque ainda pagam juro real elevado mesmo depois do rali eleitoral. O IPCA+ 2050 pagava IPCA + 7,08% antes do primeiro turno e chegou a IPCA + 6,32% na abertura de 5 de outubro . Desde então, devolveu parte da queda .

Menezes prefere esses papéis por avaliar que perderiam menos que os prefixados numa reeleição de Lula. Roberto Motta , estrategista macro da Genial Investimentos, vê os títulos mais longos se aproximando de IPCA + 6%, e a SulAmérica Investimentos divide a preferência entre IPCA+ e prefixados.

Gabriel Magno, sócio da AW Capital, também prefere esses papéis. “As taxas caíram, mas ainda estão em níveis elevados”, afirmou.

Por outro lado, Luiz Cesario, economista-chefe da Asset1, avalia que os títulos já subiram bastante e que um novo ganho depende da escolha de uma equipe econômica com credibilidade.

Prefixados com menos espaço

Nos prefixados, a avaliação é mais cautelosa. O Tesouro Prefixado 2032 pagava 14,21% antes do primeiro turno e estava em 12,78% na atualização na quarta, o que mostra que boa parte da queda já aconteceu. Para Magno, os prefixados já perderam grande parte do prêmio.

Menezes, da Armor, avalia que o juro real de equilíbrio do Brasil está mais alto não só pela questão fiscal, mas também pelo cenário externo. “Por isso que eu falei que o potencial de ganho na curva pré [de juros prefixados], para mim, é bem menor do que muitos agentes pensam”, diz. A Armor está comprada em real e aposta na alta das taxas prefixadas longas.

Há quem veja espaço. Em carta mensal, antes de as pesquisas mostrarem a disputa mais apertada , a Azimut informou ter ampliado a exposição a prefixados e mantido a posição em juros reais. Já Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, lembra que um pacote fiscal crível valoriza o real, esfria a atividade e acelera a queda da inflação, o que abre espaço para o Banco Central cortar mais a Selic.

O que pode acontecer depois de domingo?

Os gestores concordam que a reação a uma vitória de Lula tende a ser mais forte do que a uma vitória de Flávio. “Se der uma surpresa nas urnas e o Lula ganhar, você tem uma piora que tende a ser bem mais intensa do que a melhora que aconteceria com a eleição do Flávio”, ressalta Cesario.

Nesse cenário, Motta avalia que os títulos longos seriam, sem dúvida, os mais atingidos. O sócio de uma grande gestora independente, que pediu anonimato, avalia que o juro real voltaria ao nível anterior ao primeiro turno, ou subiria mais. Como preço e taxa andam em sentidos opostos, essa alta derrubaria o valor dos títulos na marcação a mercado .

Com Flávio, Cesario vê as taxas longas caindo até 0,5 ponto percentual, em um movimento que, segundo ele, depende do nome escolhido para o Ministério da Fazenda .

O que fazer até lá?

Debom recomenda não tomar decisão de carteira com base em pesquisa, já que a volatilidade deve seguir alta até a votação. “Quem compra ou vende título no meio desse vaivém corre o risco de pegar o pior momento”, aponta. Quem pretende levar o título até o vencimento, segundo ele, não precisa mexer em nada, e quem quer aproveitar a taxa alta deve entrar aos poucos, sem apostar tudo num único resultado.

Benavenuto resume o que se ganha e o que se arrisca em cada caminho. Travar a remuneração em prefixado ou IPCA+ longo agora é uma aposta de que o cenário favorável vai se confirmar, com perda forte na marcação a mercado se isso não acontecer. Já fracionar os aportes dispensa acertar o resultado e dilui o preço médio.

Uma posição de curto prazo também exige atenção à liquidez e aos impostos. Como a votação é no domingo, a primeira chance de reagir ao resultado será na segunda-feira (26), e o Tesouro pode suspender as negociações em dias de oscilação forte. Além disso, o Imposto de Renda é de 22,5% para aplicações de até 180 dias, e resgates antes de 30 dias pagam IOF .

Menezes lembra que a decisão depende do horizonte de cada investidor e diz que, no curto prazo, não montaria posição sem proteção. “Uma semana é muito tempo. Ninguém sabe o que pode acontecer nessa semana”, afirma. Até a votação, o Datafolha divulga nova pesquisa nesta quinta-feira (22), e os dois institutos publicam os últimos levantamentos no sábado (24).

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